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Viajar ao exterior deixa você mais imoral

Mergulhar em outras culturas também pode ter seu lado ruim

Viajar te deixa mais criativo, menos tendencioso e até mais bonito. Um grupo de pesquisadores de Columbia, Harvard e outras grandes universidades americanas já tinha visto uma série de benefícios em viajar pelo mundo e experimentar um pouco de diferentes culturas, idiomas e costumes. Mesmo assim, se perguntaram: será que viajar não tem nenhum lado ruim?

O pesquisadores decidiram testar, então, se a experiência internacional afetava a nossa noção de ética e moral. Eles realizaram oito experimentos com estudantes de diferentes países, que passaram um tempo estudando fora em diferentes fases da vida – colégio, faculdade, MBA e pós-graduação.

Os testes avaliavam a propensão dos voluntários a cometer pequenos atos de imoralidade. No primeiro experimento, os estudantes tinham a chance de ganhar um iPad por sorteio. Mas tinham ainda um desafio com anagramas. Precisavam reorganizar letras bagunçadas para formar palavras. A lista tinha quatro itens: a cada anagrama que conseguissem resolver, ganhavam 10% de chance a mais no sorteio que os demais participantes.

O problema é que o aluno poderia marcar como “resolvido” um item que não estivesse completo. Dos quatro anagramas, um era impossível de resolver. O primeiro grupo de estudantes a fazer o teste ainda não tinha feito intercâmbio. 30% deles “roubou” no desafio. O segundo grupo tinha acabado de voltar de um período no exterior. A taxa de trapaceiros aumentou para 47%.

Em um outro experimento, os voluntários precisavam responder a uma série de perguntas. Mas, de novo, os pesquisadores enganaram os participantes: disseram que o sistema estava com um erro e que a resposta certa aparecia automaticamente, a menos que o participantes apertasse a barra de espaço. O que o computador fazia, na verdade, é contar quantas vezes a barra era pressionada por cada aluno. De novo, os que tinham viajado para o exterior foram os campeões em tirar vantagem do “erro”. E, dessa vez, nem havia recompensa pelo desempenho.

Uma mesma raiz

Como explicar o aumento do hábito de  “dar um jeitinho” depois que viajamos para o exterior? Os pesquisadores acreditam que ele tem a mesma raiz das vantagens que tanto admiramos nos mergulhos em outras culturas.

Nos tornamos mais criativos, tolerantes e empreendedores quando viajamos – e a psicologia atribui esses resultados ao fenômeno da “flexibilidade cognitiva”. Quando somos expostos a ambientes e costumes tão diferentes, o desafio literalmente reprograma o cérebro, que se torna mais flexível para poder encarar situações tão diversas.

A hipótese dos pesquisadores é que essa flexibilidade também nos faz ver as noções de certo e errado como relativas e dependentes da cultura. A consequência disso seria uma tolerância maior para comportamentos socialmente reprováveis, como colar em uma prova ou trapacear nos jogos do experimento.

O intercâmbio não é o problema

Apesar de terem feito testes com intercambistas, os pesquisadores também não acham que a culpa do “lado ruim de viajar” seja dos intercâmbios acadêmicos e culturais. Isso porque os resultados mostraram que o que faz diferença nessa “flexibilidade moral” não é o tempo que o viajante passa em um só lugar e sim a quantidade de culturas diferentes com as quais conviveu.

De novo, existe um paralelo entre a criatividade e a “cabeça aberta”: quanto mais choques culturais, mais o viajante questiona seus próprios preconceitos e ideias que aprendeu em casa. Mas, segundo a pesquisa, essa descoberta de si próprio também deixa todo mundo mais safo.  E fica a pergunta: qual dos lados da experiência conta mais?