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Você vai ganhar um carro elétrico

O israelense Shai Agassi tem o plano perfeito para livrar o mundo do petróleo: dar um carro elétrico a todos os motoristas

Isabela Crepaldi

Shai Agassi é um homem de ideias visionárias. Menino de ouro da indústria do software, ficou milionário antes dos 30 anos, e construiu uma carreira brilhante no ramo porque acreditava que os computadores deviam se adaptar às pessoas – e não o contrário. Em 2007, era o executivo mais cotado para assumir a presidência da SAP, uma das maiores empresas de informática do mundo. Como a promoção parecia distante, Agassi surpreendeu a todos e pediu demissão. Alguns meses depois, anunciou a fundação da Better Place, uma empresa que tem o ambicioso plano de revolucionar a indústria automobilística e salvar o mundo das emissões de CO2. Como? Criando postos de eletricidade e resolvendo o maior desafio do carro elétrico: a distribuição de energia. Além de tornar o carro verde, Agassi pretende seduzir os motoristas pelo bolso. Com a Better Place, motoristas poderão ganhar carros de graça desde que comprem planos de quilometragem, algo como as empresas de celular fazem hoje – e por um preço menor do que o da gasolina. Apesar de soar futurista, o plano tem parceiros bem reais. Agassi já levantou mais de US$ 200 milhões de investimentos privados, em 25 países. Da Califórnia, onde mora, ele explica por que você vai querer dirigir um carro elétrico, e como vai ser possível distribuí-los de graça para todos.

Quando decidiu livrar o mundo da po luição, você era executivo de uma empresa de softwares. Por que você não tentou salvar o planeta pela indústria da informática? Por que mudar de área?

É sempre difícil deixar uma ótima profissão e uma ótima empresa. Mas, ao mesmo tempo, às vezes você sente que é preciso fazer coisas na vida que são maiores do que a sua carreira. Você tem de olhar onde você pode causar mais impacto. Se eu tentasse acabar com o CO2 produzido pela indústria da informática, eu estaria lidando com um problema que representa menos de 1% do CO2 do mundo. Já os carros representam 25%. É preciso procurar onde estão os problemas mais difíceis e lidar com sua magnitude. 1% não vai salvar o mundo, mas 25% é um passo considerável. Eu me inscrevi para fazer essa missão, e vou fazê-la.

O carro elétrico nunca pegou comercialmente. Por que você acha que essa ideia pode dar certo agora?

Porque o carro elétrico é apenas um elemento de uma infraestrutura maior. Você não pode ter o carro elétrico sem ter o sistema para sustentá-lo e abastecê-lo. Por exemplo, o Brasil é extremamente bem-sucedido com o etanol porque tem todo o sistema de abastecimento, que vai das plantações aos postos de gasolina. Esse processo foi desenvolvido e operado ao mesmo tempo durante muitos anos, e consegue levar combustível até o consumidor. A mesma abordagem nos EUA não deu certo porque ninguém planejou um sistema tão complexo. Você não encontra etanol em quase nenhum posto americano. Como resultado, as pessoas não compram carros com esse combustível, e isso faz com que menos lugares vendam etanol.

Quem dirige um carro elétrico reclama que é preciso muito tempo para carregar a bateria e que a autonomia é pequena. Você se incomoda com isso?

Queremos fazer com que os consumidores não tenham mais de esperar para recarregar a bateria. A maioria já não precisa. Por exemplo, descobrimos que as pessoas dirigem em média duas horas por dia, mas deixam os carros parados nas outras 22 horas. Por isso, a proposta inicial é: “quem está parado pode recarregar”. Aí o problema fica apenas nos casos excepcionais, quando se dirige distâncias mais longas do que a capacidade da bateria. E foi aí que nós pensamos no sistema de troca de bateria nos postos. Funciona assim: você dirige até um posto e lá troca sua bateria vazia por uma que já estará carregada. Isso leva menos tempo do que seria preciso para encher o tanque com gasolina.

Mas quando esse sistema será implantado?

No momento, precisamos aumentar o volume de produção. Por isso, estamos trabalhando com a Renault-Nissan, sob a decisão de Carlos Ghosn, que é um grande visionário, para produzir centenas de milhões de carros. Assim que tivermos uma grande escala de produção, veremos que carros elétricos são mais fáceis de produzir, e mais rápidos e divertidos de dirigir. A partir desse ponto, a indústria vai tomar seu rumo e outras melhorias vão surgir com o tempo.

A sua empresa quer alimentar a frota mundial de carros com energia renovável, que não emite CO2. Atualmente, apenas 13% da energia produzida no mundo vem de fontes renováveis. Você acha viável abastecer 1 bilhão de carros com energia limpa?

Se quisermos trocar todos os carros do mundo por elétricos, teremos de passar a participação da energia renovável no mundo de 13% para cerca de 20%. Nosso plano atual pretende fazer isso nos próximos 10 anos. Vamos comprar energia renovável a um preço um pouco mais alto do que ela de fato custa, porque usamos como padrão o preço pago pela energia à base de petróleo, que é mais cara. Isso incentiva a produção de renováveis e permite aumentar a participação em 5 a 10% durante o mesmo período de tempo.

Mas vocês vão produzir a energia renovável?

Da mesma forma que não construímos nossos próprios carros, não vamos construir moinhos de vento ou painéis solares. Trabalhamos em parceria com grandes fornecedores de energia renovável e compramos deles os elétrons que os carros usam.

Na prática, como isso funciona?

Eu posso dar um exemplo. No momento, estamos trabalhando na Dinamarca. Em breve, os 2 milhões de carros dinamarqueses vão andar com a energia de 750 moinhos de vento que estão espalhados por todo o país. Moinhos de vento geram elétrons de forma intermitente, à medida que o vento surge e some. Geralmente, essas fontes são muito difíceis de consumir. Mas, se você tiver baterias conectadas a elas, é possível armazenar cada elétron que é gerado, não importa quando ele é gerado. É exatamente isso que nós faremos. Estamos basicamente criando um sistema de energia para toda a Dinamarca, que funcionará nos próximos 100 anos.


Quem financiaria a infraestrutura para os carros elétricos? Essa proposta serve também para um país grande como o Brasil?

Vou dar um exemplo de um país grande com o qual estamos trabalhando: a Austrália. Fechamos um acordo com o Macquarie Bank [banco australiano] no valor de US$ 1 bilhão. O dinheiro virá de fontes privadas, e não do governo, para criar uma rede para carros elétricos através de toda a Austrália. Se isso pode ser feito lá, garanto que pode ser feito no Brasil. Acho que as pessoas ainda não pensaram em como seria bom se você pegasse uma cidade como São Paulo, com todo seu trânsito intenso, e retirasse toda a poluição causada pelos carros. Ou quão bonito seria o Rio de Janeiro se as ruas fossem limpas. As pessoas ainda não entendem que, mesmo com a utilização do etanol, que é um programa limpo, continua-se queimando carbono no meio da cidade. Com os carros elétricos, você também pode usar o etanol. Mas a melhor forma é processá-lo na usina e mandar os elétrons para a bateria dos carros. Só assim você terá uma cidade limpa.

Para o seu plano dar certo, será preciso fazer com que todos os motoristas do mundo troquem seus carros por elétricos. Você acha isso possível?

Vou contar uma história interessante. Quando eu apresentei esse modelo para o ex-presidente Bill Clinton, ele me fez essa mesma pergunta. Ele disse que motoristas comuns não compram carros novos, compram carros usados. E disse que, se eu quisesse realmente resolver o problema ambiental, teria de encontrar um jeito de dar os meus carros de graça a todos os motoristas. Mas o que descobrimos é que, quando a produção for muito grande, você realmente poderá dar um carro de graça a qualquer um. Basta que as pessoas paguem aquilo que estavam acostumadas a pagar pela gasolina, mas dirijam carros elétricos. Os elétrons são tão mais baratos que a gasolina que, se você estiver disposto a pagar o preço da gasolina/quilômetro para dirigir um elétrico, que rende muito mais, você pode levar um carro praticamente de graça, se você se comprometer por um período longo o suficiente.

Os primeiros modelos de carros serão lançados em 2011 pelos parceiros da Better Place. Alguns serão sedans e SUVs. Existe uma preocupação em mostrar aos motoristas que os carros elétricos também podem ser brutamontes sobre rodas?

Muitas pessoas ainda não entendem que os carros elétricos são mais baratos, melhores e mais rápidos do que os a gasolina. Então, o que queríamos fazer desde o início era mostrar que esses carros podem ser maiores, melhores e mais rápidos do que seus irmãos a gasolina. Assim que todos virem isso, as pessoas os aceitarão, e aí os carros elétricos virão de todos os tipos e formas, pequenos ou grandes.

Você acha que os carros elétricos podem salvar o mundo? Alguns dizem que eles não vão trazer ganho ambiental, porque o grosso da produção de CO2 vem das usinas termoelétricas, e não dos automóveis.

Eu acho que temos vários desastres acontecendo ao mesmo tempo. O 1° se refere às emissões de CO2. O 2° é a dependência mundial do petróleo. O 3° é o desemprego nos países desenvolvidos, principalmente no setor automotivo. Se você olhar para todos esses problemas juntos, os carros elétricos têm a capacidade de solucionar 2, se não 3 deles. Eles resolvem o problema ambiental, reduzindo 25% da emissão de CO2. Eles vão reerguer a indústria automotiva. E também vão nos livrar da dependência do petróleo e de todas as implicações geopolíticas que isso causa. Então, esse plano é provavelmente um dos mais excitantes, econômica e socialmente, que eu jamais vi na vida. E nós somos sortudos de tê-lo como missão de vida.

O mundo movido a elétrons
A Better Place não põe a mão na massa – só organiza produtores e distribuidores para criar o carro elétrico

Uma nova indústria

Quem faz: Montadoras de carros, como Renault-Nissan.

Como funciona:
As empresas montam carros que utilizam baterias de lítio, tecnologia mais avançada do que a geralmente usada em elétricos. Em troca, terão direito a uma porcentagem da venda de eletricidade aos motoristas.


Recarregando baterias

Quem faz: Postos erguidos com investimento privado.

Como funciona:
Os postos de recarga de bateria serão espalhados em ruas, centros comerciais, estacionamentos e bairros residenciais. O motorista poderá conectar seu carro ao posto e recarregar o veículo enquanto estiver estacionado.

Troca-troca

Quem faz: Postos erguidos com investimento privado.

Como funciona: Quando for preciso dirigir além da capacidade da bateria, o motorista poderá ir até uma estação de troca automatizada. Em 3 minutos, a estação substitui a bateria sem carga por outra recarregada, e o carro pode continuar a viagem.


Ar limpo

Quem faz: Indústrias de energia renovável.

Como funciona: Os carros vão andar com energia limpa, que não causa danos ao ambiente. Isso implica investimentos no setor elétrico nos próximos anos. A ideia é aumentar e aperfeiçoar o sistema de produção de energia renovável.

Shai Agassi

– Tem 40 anos e vive em Los Gatos, Califórnia, com a mulher, Nili, e os dois filhos.

– Dirige um Toyota Rav4 elétrico, carro que parou de ser fabricado por ser um fracasso de vendas.

– Conheceu o Brasil em 1983, quando visitou o Rio de Janeiro, Brasília e Foz do Iguaçu. Nos últimos 6 anos voltou várias vezes e diz amar o Rio.

– Viaja uma média de 1 126 300 km por ano. Às vezes visita 5 países na mesma semana.

– Sua comida predileta é o sushi.