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A grande chance do Rio

Aos 450 anos, a cidade símbolo do Brasil tem uma oportunidade histórica de resolver problemas igualmente históricos. O Rio vai aproveitar ou deixar passar? Saiba o que pode dar certo e errado - e como isso muda o futuro do País.

Por Amarílis Lage - Atualizado em 31 out 2016, 19h05 - Publicado em 6 dez 2015, 12h30

Cidadeeee maravilhoooo…Opa! Hora de trocar o disco.”Chega dessa história de Cidade Maravilhosa. Ou que seja maravilhosa em novos sentidos, por meio de novas propostas.” O desabafo de Pedro Rivera, considerado um dos principais jovens arquitetos do Rio, sintetiza um sentimento que ganha cada vez mais força na cidade, prestes a completar 450 anos em 1º de março. De ativistas a pesquisadores, de turistas a empresários, é forte a percepção de que o Rio tem em mãos uma grande chance de se reinventar. Ou, para usar um jargão comum no meio corporativo: a cidade se encontra diante de ”uma janela de oportunidade”.

Boa parte dos fatores favoráveis por quais o Rio está passando é velha conhecida nossa: o pré-sal, a Copa, as Olimpíadas. Mas há oportunidades mais veladas pipocando também. A economia criativa carioca é a mais forte do País, iniciativas culturais – como novos e modernos museus – não param de brotar, e os cariocas andam com uma vontade de botar a mão na massa como nunca. Projetos urbanísticos ambiciosos prometem recuperar zonas abandonadas, como o porto, além de conectar áreas distantes entre si com o transporte público. A cidade, que sempre atraiu turistas em busca de samba, suor e cerveja, agora anda chamando gente que escolheu morar no Rio não para curtir a vida, mas para trabalhar, como o advogado e ex-colunista do jornal inglês The Guardian, Gleen Greenwald, e o escritor Misha Glenny, que está investigando o mundo do tráfico de drogas in loco.

Mas o clima não é de oba-oba. Se a cidade tem uma chance única surgindo, os problemas também não desapareceram. O Rio segue violento e o abismo social entre ricos e pobres continua imenso – e convivendo lado a lado – como em nenhuma outra cidade brasileira. Projetos importantes prometidos para as Olimpíadas não ficarão prontos a tempo, o que fortalece a sensação de que a metrópole vive um momento-chave que pode ser desperdiçado. Na teoria, ela tem tudo para dar o grande salto e se posicionar como um dos grandes centros de atração do mundo – como já fizeram outras cidades importantes, como Nova York, Barcelona e Berlim, que andavam mal das pernas e se reinventaram completamente nos anos 90 e 2000. Mas, na prática, ainda não dá para saber se o pulo vai terminar em pé. Ou se a janela de oportunidade vai fechar e deixar os cariocas a ver barquinhos.

No tour que começa agora, você não vai encontrar odes à Confeitaria Colombo, à bossa nova e ao frescobol. Tudo que se tornou símbolo da ”Cidade Maravilhosa” continua sim a encantar tanto os moradores quanto os milhões de turistas que visitam o Rio a cada ano (foram mais de 800 mil visitantes só no Réveillon). Mas os pontos nevrálgicos da cidade hoje estão num roteiro menos óbvio, que passa por um parque premiado em pleno morro do Vidigal, pelo canteiro de obras que tomou conta do centro (abram alas para o VLT – os bondes modernos que circulam por Amsterdã) e pela recuperação da zona portuária.

CAIS, CAOS E CAÔ

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É na região do porto que veremos as principais transformações num futuro próximo, aposta Rivera, que dirige a unidade carioca do Studio X, uma rede global criada pela Universidade de Columbia para pensar o futuro das cidades. Cerca de R$ 8 bilhões, distribuídos ao longo de 15 anos, devem ser investidos no projeto Porto Maravilha, que abrange uma área de 5 km2 (mais que dois Leblons). É ali que funciona, há dois anos, o MAR (Museu de Arte do Rio). E também é ali que está sendo construído o Museu do Amanhã, espaço de arquitetura arrojada, daqueles que viram cartão-postal, projetado pelo espanhol Santiago Calatrava. O futuro dessa região espelha a encruzilhada em que o Rio se encontra. Na melhor das hipóteses, veremos nascer ali um novo Botafogo, que era um bairro de passagem e hoje agrega moradia, serviços, lazer e a recente cena gastronômica da cidade. Na pior, o que vai surgir é uma nova Presidente Vargas, com prédios enormes, isolados, que não conversam, palpita Rivera.

O Porto Maravilha é apenas um pequeno pedaço da maior promessa de mudança da cidade: as Olimpíadas. O anúncio de que o Rio de Janeiro seria a sede da edição de 2016, transmitido ao vivo num supertelão na praia de Copacabana em 2009, fez vibrar a multidão que estava na areia. Não era para menos. Visibilidade internacional, atração de investimentos, promoção do turismo. Esses são alguns dos benefícios que os Jogos podem trazer para uma cidade-sede. Barcelona, que recebeu as Olimpíadas em 1992, até hoje é citada como bom exemplo: a cidade catalã transformou a degradada região portuária em um renomado centro de lazer, e fixou mundialmente sua imagem como um dos mais interessantes destinos turísticos na Europa (e, convenhamos, não é fácil competir com Paris, Roma e Londres nesse sentido). O Rio está justamente querendo fazer o mesmo com o seu porto, que andava bem abandonado. Com a diferença de que a cidade não foi escolhida como sede de apenas um, mas vários grandes eventos, como a Jornada Mundial da Juventude (2013), o TED Global (2014) e a Copa do Mundo (2014) – além das Olimpíadas.

Mas tanto entusiasmo com novas perspectivas (aliado à conjuntura econômica nacional) tem seu preço. Literalmente. Enquanto a inflação subia em todo o País, o custo de vida no Rio disparou. Bastou o anúncio de que estaria nos holofotes para que a cidade ficasse caríssima. Pimenta a R$ 200 o quilo, um croquete por R$ 14,99, estacionamento por R$ 100 (preço único) – esses foram alguns dos valores divulgados pelo movimento Rio $urreal, que surgiu no verão passado, propondo o boicote a estabelecimentos com preços exorbitantes. Para dar uma ideia do drama: até na novela das nove os personagens reclamaram do preço da água de coco. Era o primeiro sinal de que o momento histórico deveria ser curtido com cuidado. O alerta estava dado.

NÃO É PAZ, É MEDO

Um alarme que não para de soar fica na área da segurança, velha conhecida carioca. Ela vai ser essencial para decidir se o Rio vai dar A Grande Virada nos próximos anos. É impossível alcançar o status de capital global sem oferecer tranquilidade a seus moradores e visitantes. Os últimos anos até testemunharam uma queda nos índices de criminalidade. A taxa de homicídios por 100 mil habitantes, que era de 31 em 2008, caiu para 18,9 em 2012. Até que em 2014, no último dado disponível, esse índice subiu para 25. Nada perto da situação em 2001, quando havia 55,5 homicídios por 100 mil pessoas, mas ainda assim preocupante. Em janeiro, a cidade teve 17 vítimas de balas perdidas em dez dias. A mais recente, um jovem de 16 anos, foi baleada no Complexo do Alemão.

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O recrudescimento da violência não surpreendeu Marcelo Freixo, que está em seu terceiro mandato como deputado estadual – candidato pelo PSOL, foi ele quem mais recebeu votos para a Assembleia Legislativa nas eleições do ano passado. Para ele, o problema está justamente em uma das iniciativas sempre apontadas como inovadoras na segurança: as UPPs. As Unidades de Polícia Pacificadora nasceram como uma experiência ousada para levar polícia comunitária às favelas dominadas pelo tráfico. A primeira foi instalada em novembro de 2009, no morro Santa Marta, em Botafogo. Ao longo daquele ano, novas UPPs foram criadas em Cidade de Deus, Realengo, Leme, Copacabana e Ipanema. ”Um dos erros iniciais foi não aceitar o debate sobre as UPPs. Era para aprovar sem contestação. Isso minou a possibilidade de a UPP ser ‘consertada’. Qual polícia vai ter? Qual a preparação dessa polícia? Que outros braços do Estado vão entrar nessa favela? Isso não foi discutido. Era evidente que esse problema ia explodir.”

A UPP Social – projeto de 2010 que previa a realização de ações sociais, culturais e ambientais nas comunidades – não saiu do papel, segundo Freixo. ”Os moradores não têm autonomia. Em que lugar do mundo a polícia decide se vai ter festa, quando vai ser a coleta de lixo? Só nas favelas do Rio de Janeiro ocupadas por UPP. A culpa não é da polícia, isso não é função dela. É um projeto que tem de ser debatido”, diz Freixo – pré-candidato para o cargo de prefeito em 2016.

O maior risco agora é perder a janela de oportunidade que as UPPs abriram para a integração entre o morro e o asfalto, avalia Ilona Szabó de Carvalho, especialista em redução da violência e política de drogas, e fundadora do Instituto Igarapé. Ela defende a importância de medidas voltadas para os jovens na comunidade. ”Muitos estão sem estudar, sem trabalhar, esperando algo acontecer. E, por falta de oportunidade, se envolvem com o crime. Se não tivermos comunidades seguras, a escola não terá qualidade, o Estado não conseguirá levar serviços de saúde para os moradores”, diz. A relação do Rio com suas favelas requer atenção imediata. Afinal, existem na cidade 763 favelas, onde moram 1,3 milhão de pessoas, ou seja, quase 20% da população, segundo o censo de 2010. ”As UPPs são um esforço que trouxe resultados. Mas que pode morrer na praia se não pensarmos na sustentabilidade dessa proposta”, diz Ilona. Morrer na praia parece mesmo ser a maior ameaça para o Rio – em todas as frentes.

HARVARD NO VIDIGAL

Mas as atenções estão no lugar certo. Um dos projetos mais ambiciosos relacionados ao legado olímpico é voltado exatamente às favelas. O Morar Carioca nasceu com o objetivo de integrar tudo o que o IBGE chama de ”aglomerações subnormais” à cidade formal até 2020. Para isso, foram selecionados projetos de 40 escritórios de arquitetura, muitas vezes desenvolvidos com o apoio de sociólogos e engenheiros. Morador do morro do Vidigal, para onde se mudou em 2012, após concluir um mestrado em políticas públicas em Harvard, Pedro Henrique de Cristo foi um dos que originalmente se empolgaram com o anúncio do projeto.

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Cristo decidiu morar no morro para adquirir conhecimento prático sobre o que havia pesquisado em Harvard. Dentre todas as comunidades cariocas, escolheu morar naquela que parecia ter mais potencial para promover (e irradiar) inovação: o Vidigal. Localizado entre Leblon e São Conrado, sobre o Morro Dois Irmãos, o Vidigal tem uma das vistas mais espetaculares do Rio e há um bom tempo atrai visitantes anônimos e famosos. Muitos deles aproveitam o passeio para experimentar as famosas receitas da tia Léa. Ali, em sua laje, já se deliciaram celebridades como o chef Edu Guedes e o rapper Snoop Dogg.

Mas, como tudo que envolve o momento do Rio, a revitalização da favela precisa de cuidado. Valorizado, o morro já passa por um processo de gentrificação, ou seja: o aumento da demanda leva a um aumento dos preços, o que acaba expulsando os moradores mais pobres, substituídos por pessoas com uma renda maior. ”O problema da especulação é que ela ocorre sem regulação”, observa Cristo. ”É nossa responsabilidade fazer uma campanha de títulos de propriedade para que os moradores tenham acesso à valorização de seus imóveis.”.

É o que ocorreu em Medellín, na Colômbia, ao lado de uma série de outras medidas que a tornaram um exemplo mundial quando o assunto é integração de favelas. Eleita a cidade mais violenta do planeta pela Time em 1988, Medellín conquistou em 2012 outro título: o de cidade mais inovadora do mundo, segundo a ONG Urban Land Institute. Um dos segredos desse sucesso está na instalação, dentro das favelas, de bibliotecas, escolas e casas de cultura que já nasceram com a obrigação de ser centros de excelência. A meta era clara: aumentar a autoestima dos moradores e atrair o resto da sociedade para dentro dessas comunidades. Hoje, gente de toda a cidade, além de turistas, pega as escadas rolantes e teleféricos que conduzem ao alto dos morros colombianos. De quebra, desde o início dos anos 90, a taxa de homicídio caiu 90%.

”Se o governo não tiver velocidade necessária para implementar mudanças importantes no Rio, cabe à sociedade civil levantar os braços e transformar as coisas”, diz Cristo. E ele tem um bom exemplo para mostrar o potencial dessa mobilização. Trata-se do parque Sitiê, que, há oito anos, era um lixão. Graças à iniciativa de dois moradores do Vidigal, que aos poucos envolveram o resto da comunidade, o local foi transformado em um parque de 8,5 mil m². Em janeiro deste ano, recebeu um prêmio internacional, o Seed Award, para projetos de excelência em design de interesse público. As boas iniciativas, pelo jeito, andam correndo atrás dos problemas.

ENXURRADA DE CRIADORES

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Projetos ligados a design, como o de Cristo no Vidigal, integram um lado da economia que tem tudo para consolidar a cara do novo Rio. Nas artes, a cidade anda com uma vida social de dar inveja às metrópoles mais culturais do mundo: além da inauguração do MAR, a Casa Daros, um imenso museu de arte contemporânea no Botafogo, abriu as portas em 2013 – e a nova sede do Museu da Imagem e do Som vai estrear um arrojado prédio bem na orla de Copacabana agora em 2015. Publicidade, tecnologia e moda prometem não ficar atrás. ”Historicamente, o Rio é irradiador de tendências, e seu lifestyle segue forte no imaginário nacional, com marcas como Osklen e Farm”, diz Tiago Petrik, criador do RIOetc., um projeto que coleciona fotos de pessoas inusitadas das ruas da cidade.

Trata-se, na verdade, de um setor em expansão em todo o País: nos últimos dez anos, o PIB da indústria criativa avançou 69,8% – bem acima do PIB brasileiro no mesmo período, que cresceu 36,4%. ”Para os próximos anos, apesar do cenário econômico extremamente difícil, a indústria criativa deve continuar mostrando melhor desempenho. Aliás, já está mostrando. Mesmo com a desaceleração da economia brasileira a partir de 2011, continuou crescendo mais que os demais setores”, diz Guilherme Mercês, gerente de Economia e Estatística do sistema Firjan (Federação das Indústrias do Rio). Na capital fluminense, essa tendência é ainda mais forte. Em 2013, a economia criativa foi responsável por 10% da renda do trabalho formal gerada na cidade – o melhor resultado entre as capitais e o dobro da média brasileira. Um nível comparado ao de outras cidades descoladas ao redor do mundo, como Berlim.

Mas nem só de economia criativa vive o carioca. A economia ”careta” anda bem saidinha. Para o período 2014-2016, foram anunciados 108 empreendimentos, nacionais e estrangeiros, que investiram R$ 235,6 bilhões – uma Angola inteira. É um valor recorde. Por trás dos números estão alguns processos importantes. Um deles é a interiorização dos recursos. O Rio ainda responde por 16% dos investimentos (em grande parte graças às Olimpíadas), mas outras regiões, como o Leste Fluminense, têm se tornado ímãs para novos negócios graças à indústria petroquímica e naval. Outro é a consolidação do Estado como ”hub” logístico nacional – termo que se refere a um centro de produção e distribuição de bens. Historicamente, as condições de transporte representam um fator fundamental para a atração de novos negócios e crescimento econômico.

Essa preocupação com a mobilidade também se reflete em ações dentro da capital, como a linha 4 do metrô que vai unir Ipanema à Barra da Tijuca – um caminho que, pelo relevo e pela distância, sempre foi feito de carro. Há os ônibus do BRT, que trafegam por corredores exclusivos e aproximam as periferias umas das outras. E tem o Porto Maravilha, que inclui a instalação dos VLT. Como numa cidade exemplar do joguinho SimCity, este bonde elétrico promete conectar rodoviária, trens, barcas, metrô, aeroporto e até o novo teleférico panorâmico do morro da Providência. Muita coisa pode acontecer quando ficar mais fácil circular pela cidade – valorização imobiliária, vida cultural, boom do comércio. No caso carioca, mais um bônus: aumenta a possibilidade de pegar praia. O salto parece possível.

BLOCO NA RUA

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Planos do governo, ação do mercado – geralmente, são essas as duas grandes forças que promovem as principais transformações nas cidades brasileiras. Mas esta reportagem de capa não poderia terminar aqui, sem falar de um ator que entrou em cena: a sociedade civil.

Sim, ela chamou a atenção nas manifestações de junho de 2013, quando milhões de brasileiros foram às ruas reivindicar, inclusive, o direito de estar nas ruas e se fazer ouvir. Mas ela também se manifesta numa ação como a do Rio $urreal, quando as pessoas pressionam o mercado para baixar os preços – e conseguem resgatar (e fazer cumprir) uma lei que garante que bares e restaurantes disponibilizem água gratuita para seus clientes. Ela também está presente quando moradores do Vidigal se unem para transformar um lixão em parque. É nesse contexto que nasceu, em 2011, uma rede de mobilizações com um nome muito propício: Meu Rio. A entidade, criada por uma jovem carioca, Alessandra Orofino, quer oferecer suporte para que as pessoas possam se unir e pressionar as autoridades em prol das causas que defendem.

”Um dos fatores que levaram à criação do Meu Rio é a narrativa de transformação da cidade quando se soube que receberíamos a Copa e as Olimpíadas”, conta Rodrigo Arnaiz, coordenador de mobilizações da rede. ”No começo, era clima de festa. Mas depois veio a sensação de que ficaríamos de fora dessa festa. Como decisões tão raras e importantes estão sendo tomadas e as pessoas não estão participando?” Com apenas três anos, a entidade contabiliza diversos sucessos. Um deles é a criação de uma delegacia especializada em pessoas desaparecidas – iniciativa proposta por uma mãe cuja filha sumiu e que não se conformava com a desarticulação da polícia. Após o envio de 16 mil e-mails em apoio à causa, a delegacia foi criada, em setembro do ano passado. Outra vitória: a defesa da escola municipal Friedenreich, uma das dez melhores do Estado no ranking do Ideb, que seria demolida para a construção de um estacionamento nas obras da Copa. Agora, o Meu Rio começa a se expandir para outras cidades – já está em São Paulo desde junho do ano passado e, em breve, será instalado em outras sete cidades brasileiras.

Essa é uma das soluções que o Rio pode apresentar ao resto do País. Capital do melhor e do pior do Brasil, a cidade tem não só a chance, como a responsabilidade, de apresentar caminhos para problemas de moradia, segurança e mobilidade urbana, que, em menor ou maior grau, afetam todas as outras capitais. O Rio de Janeiro tem a chance também de alavancar o resto do Brasil. Ilona Szabó, considera o envolvimento da sociedade um dos aspectos fundamentais para que Nova York superasse a crise que viveu até os anos 90. A cidade, que vivia altos índices de criminalidade, em poucos anos se tornou a metrópole mais segura dos EUA e voltou a ser um endereço desejado. No livro O Ponto da Virada, o escritor Malcolm Gladwell aponta como fatores para a virada de Nova York a tolerância zero com crimes mínimos e o esforço da prefeitura em manter metrôs livres de grafite e consertar janelas quebradas, passando uma mensagem de que a cidade resistiria ao vandalismo. O mais importante é que a transformação de Nova York não se restringiu à cidade, e sim irradiou iniciativas semelhantes por todos os EUA, como o desmanche das gangues em Los Angeles e a recuperação de bairros operários em Boston.

O Rio tem o mesmo potencial para exercer esse efeito multiplicador no Brasil. Afinal de contas, há décadas a cidade lança tendências, principalmente de comportamento, do biquini asa-delta ao açaí. A TV Globo sempre reverberou com destaque tudo que acontece na cidade maravilhosa, tanto de bom quanto de ruim. Turistas voltam para suas cidades levando na bagagem novas experiências, como entrar em uma favela para curtir uma roda de samba ou um baile funk. E os secretários de segurança de todo o País, por sua vez, olham com atenção para ver como o Rio combate a violência.”As cidades são o grande eixo do debate público no futuro. Pela primeira vez na história da humanidade, tem mais gente vivendo em cidades do que no campo. Nos próximos 30 anos, 90% do crescimento da população mundial vai acontecer nas cidades do Hemisfério Sul”, diz Marcelo Freixo. ”Esse cenário faz com que o Rio seja o laboratório de um projeto do futuro: pode ser a cidade do negócio, do lucro, do capital – e também uma resposta a esse modelo.” A missão é ambiciosa. Mas os primeiros passos já foram dados.

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