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A história de uma derrota

Dezoito quilômetros e uma distância ridícula comparada aos 3000 que eles tinham andado - normalmente seria vencida em apenas um dia de caminhada.

Alessandro Meiguins

Há 90 anos, o explorador Robert Falcon Scott e sua equipe enfrentaram mil perigos sob um frio medonho para serem os primeiros homens o chegar ao Pólo Sul. Seu legado: uma narrativa de bravura e perseverança

Se Robert Falcon Scott fosse homem de se assustar com presságios, já teria desistido da aventura em 2 de dezembro de 1910. Naquela noite, uma tempestade horrível parecia decidida a não descansar enquanto o navio inglês Terra Nova não estivesse no fundo do oceano. Dentro da embarcação, três dezenas de homens, muitos deles nus – as roupas, encharcadas, haviam se tomado inúteis -, tentavam lutar contra as ondas imensas e geladas com ridículos baldes. As bombas do barco tinham entupido e o motor não funcionava. Por 12 horas os tripulantes lutaram à deriva, na escuridão, contra o naufrágio. Quis o destino que o único morto fosse um cachorro, afogado. Scott interpretou a milagrosa salvação como um indício de que as estrelas estavam a seu favor- de que nada poderia ser pior que aquilo. Mal sabia ele.

O explosivo e competitivo Scott era um militar que detestava a guerra e por isso tornou-se um explorador da Royal Geographic Society – o órgão científico britânico que mapeara metade do mundo. Em 1900, ele tinha resolvido se tomar o primeiro homem a pisar numa das últimas regiões inexploradas do mundo – o Pólo Sul. No ano seguinte, liderou uma expedição à Antártida, mas parou bem longe da sonhada latitude 90º sul. Daí em diante, ele passou a fazer parte de uma elite de aventureiros – os exploradores que tentavam desbravar os pólos. Além dele, o seleto grupo contava com o norueguês Roald Amundsen, o americano Robert Peary (ambos em busca do Pólo Norte) e o irlandês Ernest Shackieton, membro da equipe de Scott que fracassara na expedicão de 1901.

Em 1910, Scott chegou à Antártida bem preparado. Além dos 31 homens – escolhidos entre 8 000 voluntários! -, levou 33 cães e 17 pôneis para puxar os trenós e carregar os mantimentos. Scott dispunha também de uma novidade tecnológica que o enchia de esperança – três tratores movidos a diesel. A equipe chegou ao continente um ano antes do início da partida para o pólo e se hospedou no aconchego da base de Cabo Evans, no litoral do continente – algo como um último posto de gasolina numa estrada deserta. No meio tempo, fizeram uma pequena expedição para deixar combustível e mantimentos em lugares estratégicos.

Foi só em 2 de novembro de 1911, quando os primeiros raios de sol prenunciavam a chegada do verão, que os aventureiros puseram as botas no gelo da plataforma de Ross – um grande pedaço de mar congelado que os separava das montanhas antárticas – em busca da glória de serem os primeiros humanos a pisar no extremo sul do planeta. Já nos primeiros 100 quilômetros os tratores quebraram. Não agüentaram o combustível de má qualidade. Excessivamente confiantes na tecnologia, os homens de Scott sequer haviam levado peças sobressalentes. A imensa carga dos tratores foi então distribuída entre os lombos dos homens e dos animais. Nada do que havia sido planejado.

No dia 6 de dezembro, com pouco mais de um mês de caminhada, o diário de Scott já registra “uma desgraça. Uma total desgraça”. Ventos terríveis forçaram a expedição a parar e a esperar por quatro dias num lugar sugestivamente batizado de Atoleiro do Desânimo. A temperatura, por incrível que pareça, subiu – chegou a um “tórrido” 0,5 grau positivo. O que pode soar como boa notícia na verdade era mais um problema – com a temperatura acima de zero, o gelo começou a derreter. “Tudo na barraca está ensopado”, escreveu Scott no diário.

Apesar dos problemas, a equipe chegou ao fim da plataforma de Ross ainda com o moral alto. Mas, agora, vinha o mais difícil: escalar a cordilheira Transantártica, a maior do continente, com picos de mais de 4000 metros. Fôra essa cordilheira que detera a primeira expedição de Scott. Em 1908, Shackleton descobrira uma passagem mais ou menos segura para transpor a Transantártica, a geleira Beardmore. Naquela ocasião, ele chegara bem perto de conquistar o pólo – fez meia-volta quando faltavam apenas 175 quilômetros. Foi por esse caminho que Scott e seus homens avançaram.

A idéia era que os pôneis levassem a carga na subida. Mas o atrso e o peso extra, por causa da quebra dos tratores, haviam cansado demais os bichos. A maioria deles já tinha fraquejado e muitos estavam mortos. Scott, então, decidiu sacrificar os últimos para dar de comer aos homens. Eles precisamriam estar bem alimentados para carregar os 700 quilos de mantimentos daí para a frente.

Da geleira, segundo a estratégia planejada, a maioria dos homens voltaram para a base com os cães – só 12 subiram. Pelos pianos, esses 12 deveriam estar descansados, já que não tinham a obrigação de carregar muito peso até esse momento. Mas, com os imprevistos, todos estavam extenuados quando chegaram ao topo da geleira.

Scott era o mais motivado – e o que puxava o trenó com mais velocidade. Durante horas de marcha ininterrupta, ele só ouvia o som dos esquis deslizando sobre a neve fofa e o arfar dos 11 companheiros. O peso era enorme e a tarefa ficava mais complicada porque, a cada vez que alguém parava para descansa ou endireitar o trenó, a dava até 30 centímetros na neve. Para mover a carga de novo, era necessário empregar uma força imensa os exploradores quase esmagavam as entranhas de tanto puxar a faixa de lona amarrada ao redor do estômago. Para piorar, o esforço os ensopa de suor. E, na Antártida, suor vira gelo rapidinho. “O exercício excepcional provoca feios ataques de cãibras. Os lábios estão ficando esfolados e cheios de bolhas”, escreveu Scott.

Em 22 de dezembro de 1911 na latitude 85º15· mais quatro homens foram mandados de volta, segundo o plano inicial. Sobraram oito, mas só quatro deveriam pisar no pólo e, até aquele momento, ninguém sabia quais seriam. Em 4 de janeiro de 1912, quando chegou o dia da escolha, talvez influenciado pelo fato de que todos queriam chegar à latitude 90º, Scott manteve consigo mais quatro homens, e não três como planejado. Isso se revelaria um grande erro: as provisões foram consumidas mais rápido e a barraca tomou-se apertada para abrigar a todos.

Entre os que prosseguiram, o homem de confiança de Scott era o médico Edward Wilson, que já o havia acompanhado na expedição de 1901. Era ele que apartava brigas e acalmava ânimos. Outro sujeito importante para o astral do grupo era o bem-humorado capitão-tenente Henry Bowers. Além de cozinhar, Bowers fazia os boletins meteorológicos – cada vez mais desanimadores – e ajudava a traçar rumo, já que era um experiente navegador. A expedição também contava como sargento da Marinha Edgar “Durão” Evans- cujo apelido explicava bem que tipo de homem ele era. Além disso, Evans era o mais habilidoso do grupo – cabia a ele consertar os trenós. O capitão de cavalaria Lawrence Oates, um líder nato, completava o quarteto.

No dia 16 de janeiro de 1912, aconteceu algo que afetou o ânimo da equipe mais do que os ventos horríveis e a tempestade, mais do que a morte dos pôneis e a quebra dos tratores, mais do que o frio e a dor, mais do que o escorbuto e a cegueira causada pela luz intensa. Os olhos de todos se recusavam a acreditar no que viam. No meio da imensidão branca e desabitada, surgiram, de repente, pegadas. Tinha alguém na frente deles. Tratava-se da expedição do norueguês Amundsen, cujo objetivo até então era o Pólo Norte.

Amundsen tinha ouvido as notícias de que Peary conquistara o norte em 1909 é ciente de Scott estava indo para o Sul, desviou sua expedição que iria ao Arrico e correu para abocanhar o troféu que resta Scott não seria o primeiro a pisar no Pólo Sul.

Finalmente, depois de carregá-la por 1900 quilômetros, Scott cravou a bandeira britânica no extremo sul do planeta, no dia 18 de janeiro de 1912. Mas não foi como ele esperava. O gesto, tantas vezes antecipado, de repente parecia esvaziado de significado. A bandeira do Império Britânico tremulava ao lado de outra, da Noruega, fincada lá um mês antes. Amundsen havia deixado uma barraca armada e, dentro dela, uma carta endereçada ao rei da Noruega comunicando a vitória e um bilhete pedindo a Scott que a entregasse ao destinatário. Era uma precaução para o caso de Amundsen e seus homens morrerem na volta – o que não aconteceu -, mas soou como provocação para os ingleses. Scott arrasado, já previa, em seu diário, o que o esperava. “A volta será fatigante”, escreveu. E completou: “Meu Deus! Este é um lugar terrível”.

O verão estava terminando. Geralmente, essa época reserva temperaturas médias de 20 graus negativos na Antártida. Naquele ano, para completar a má sorte da expedição, a temperatura chegou a 40 graus negativos, agravados por ventos de 60 quilômetros pôr hora. Um dia, o marinheiro Evans cortou a mão enquanto remendava um trenó. O ferimento abalou o sujeito mais forte do grupo e lhe tirou a confiança. Para piorar, seu nariz começou a gangrenar. A falta de nutrientes lhe deu escorbuto, doença que impedia a cicatrização. No dia 16 de fevereiro, Evans caiu, tonto, incapaz de andar. Aquele sujeito enorme, que jamais havia ficado doente, sucumbiu. No dia seguinte, ele foi liberado de carregar qualquer peso e pediu para ficar para trás na caminhada. Os outros montaram acampamento e preocupados com a demora do companheiro, voltaram para procurá-lo. Encontraram-no caído, as mãos congeladas. Ao chegar na barraca, ele em coma. O forte e resistente Evans morreu naquela noite.

A fatalidade rondava o grupo. “As desgraças raramente acontecem sozinhas”, escreveu Scott no seu diário em 2 de março. “Primeiro, verificamos a escassez de óleo. Economizando com muito rigor, o que temos mal dá para nos levar até o próximo março. Segundo, Cates mostrou-nos os seus pés artelhos estão em péssimo estado.” Os pés de Cates pioravam dia a dia até que, em 8 de março, já estava claro para todos que o capitão não duraria muito. Para piorar, a comida começava a faltar.

No dia 15 de março, Oates propôs ao grupo que o deixassem para morrer no seu saco de dormir. Ninguém aceitou e Oates foi convencido a prossegur, o que certamente atrasou ainda mais a volta. Nessa noite, ele se deitou esperando a morte e se desapontou quando acordou. De manhã, dirigiu-se ao grupo na barrarca e disse: “Vou lá fora e talvez demore um pouco”. Todos se olharam era silêncio. Sabiam o que ele tinha em mente. Oates nunca mais foi visto. Ele se sacrificou para que os outros três seguissem mais depressa, aumentando as chances de sobrevivência.

O diário de Scott soava cada vez mais desanimado. O registro do dia 18 foi: “O meu pé direito se foi, quase todos os dedos há dois dias eu era o dono orgulhoso dos melhores pés”. No dia 21, os três acamparam a apenas 18 quilômetros de um depósito de combustível e comida que tinha sido estabelecido durante a fase de preparação – lá, um grupo de resgate os esperava. Dezoito quilômetros e uma distância ridícula comparada aos 3000 que eles tinham andado – normalmente seria vencida em apenas um dia de caminhada. Mas os exploradores estavam esgotados, sem uma gota de óleo para se aquecer e quase sem comida. O frio e a nevasca os impediam de deixar a barraca – e eles tiveram que permanecer no acampamento por muito tempo. Todo dia eles se aprontavam e esperavam a tempestade baixar. Sempre em vão.

Scott passou esses dias se culpado pelos que haviam morrido, escrevendo cartas as famílias dos companheiros e à sua esposa. No dia 29 de março, depois de quase quatro meses da partida, ele escreveu: “Acho que nada mais podemos esperar agora. Vamos agüentar até o final, mas estamos cada vez mais fracos e o fim não pode estar longe. É uma pena, mas acho que não posso escrever mais. Pelo amor de Deus, cuidem de nossa gente”. Esse é o último registro do diário, recuperado oito meses depois, quando o inverno passou, junto com os três cadáveres, deitados um ao lado do outro dentro da barraca.

Para saber mais

Na livraria

Antártida, a Última Terra, Ulisses Capozol, Edusp, 1995

Rumo ao Pólo Sul, Diana Preston, Editora 34, São Paulo 1999

Pólo Sul, Roald Amundsen, Alegro, São Paulo, 2001

A Pior Viagem do Mundo, Apsley Cherry-Garrard, Campanhia das Letras, São Paulo, 2000

Na Internet

http://www.spri.cam.ac.uk/, Scott Polar Research Institute