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A Ponte Partida

7.401 caracteres de literatura

 

Estevão acorda no meio da noite, sedento. Demora alguns segundos para firmar a visão na penumbra que se forma no quarto por causa de um fio de luz que entra pela janela, vindo dos postes de luz da rua.

Seu irmão mais novo ressona na cama ao lado, e sua cabeça pende para longe do travesseiro e seu corpo desconjuntado sobre o colchão dá a entender que o menino havia tido sonhos agitados que o fizeram se revirar por toda a noite.

Estevão se senta na beirada da cama e calça os chinelos antes de se levantar. Gostaria que a sede passasse sem precisar sair do quarto, mas a garganta parece ainda mais ressecada quando puxa o ar com força para dentro dos pulmões num suspiro intenso. Com cuidado, ele abre a porta e sai do quarto. Do lado de fora, somente as luzes dos postes da rua iluminam a casa. Precisa percorrer um longo corredor até chegar ao interruptor mais próximo e, depois de alguns passos temerosos, se dá conta de que a lâmpada está queimada há vários dias e que seu pai ainda não pode trocá-la. Mais adiante, alcança um abajur e o acende, iluminando o caminho até a cozinha.

Passa pelo quarto do pai. A porta está entreaberta. Estevão espia o lado de dentro, mas não consegue enxergar na escuridão. Desde que adoeceu, seu pai passou a dormir no quarto que antes era usado pela mãe para fazer costura. Foi uma ordem médica. Ele deveria dormir sozinho, porque havia algo de muito errado com ele e que afetava terrivelmente os pulmões. Estevão chega à cozinha, abre a geladeira e derrama a água num copo de vidro. Bebe avidamente até perder o fôlego. Os cachorros da casa vizinha se agitam no quintal e latem. Estevão fica na ponta dos pés até que seus olhos alcançam a janelinha. Os cachorros andam de um lado para o outro do quintal farejando o chão. São os ratos. Eles caçam os ratos durante toda a noite e os disputam entre si.

Retorna ao quarto e no corredor se detém por dois segundos ao olhar a foto de seu pai ao lado de uma ponte. Foi seu pai que a projetou. É engenheiro, especialista em construir pontes. Durante anos seu pai passava a maior parte do tempo longe de casa, construindo pontes por todos os lados. Era difícil para Estevão reconhecer o próprio pai quando este retornava barbudo e com os cabelos compridos. Até que nos últimos meses, ao retornar de uma viagem demorada, o pai foi acometido de uma enfermidade que começou sorrateira, porém meses depois se mostrou extremamente preocupante quando começou a expelir sangue de todos os orifícios impossibilitando que saísse de casa, a não ser para ir ao quintal, e, talvez pelo efeito colateral dos remédios, começou a dizer coisas sem nexo.

Exames eram realizados com frequência, mas ninguém sabia o que acontecia com o pai. Ele foi se tornando mais calado e sério. Parecia estar sendo consumido lentamente e seus olhos foram perdendo também o brilho, o brilho dos vivos.

Depois de tantos anos construindo pontes que levavam as pessoas de um lugar a outro sobre rios e penhascos, era como se o pai, de alguma forma, tivesse construído uma ponte para algum lugar que eles desconheciam; um lugar que somente ele poderia ir, uma ponte para si. Mergulhado nesse silêncio e mantendo o olhar vago, percebia-se que ele havia perdido o caminho de volta, como se a ponte tivesse se partido.

A mãe chorava baixo pelos cantos. Ora enquanto lavava a louça, ora enquanto estendia a roupa no varal. Tentava promessas, novenas, mas o pai não reagia. Não melhorava.

Com os olhos acostumados à escuridão, Estevão espia novamente para dentro do quarto do pai. Agora há a claridade da luz da lua cheia entrando pela janela. Devagar, empurra a porta e seu pai está sentado na beirada da cama. Mesmo na penumbra é possível ver seu rosto e tem a impressão de que o pai nunca havia estado doente. Respira sem dificuldades e há um vigor restaurado em sua voz quando manda o filho entrar. Estevão ameaça acender a luz, mas o pai o impede apenas com um aceno de mão.

– Eu não queria acordar o senhor, pai. Vim beber água.

– Não me acordou.

– O senhor quer que eu pegue alguma coisa?

– Não.

– Eu posso pegar água.

– Não preciso de água.

Estevão caminha três passos na direção de seu pai. O rosto do homem resplandece quando é atingido pela luz da lua.

 (Renato Palmuti/Superinteressante)

– O senhor está melhor?

– Como nunca estive.

– O que houve, pai?

Ele não responde imediatamente. Segura a respiração por alguns instantes e é como se durante esses segundos tudo se mantivesse em suspense, sustentado por essa respiração contida. Estevão sente um aperto nos pulmões, um sufocamento no peito e algo esmagando sua garganta. O suor em sua testa escorre pela face.

– O seu pai se foi.

Estevão fixa os olhos no rosto do pai, iluminado pela claridade natural, e imagina que o pai pode estar em estado de sonambulismo. Agarra-se a esse pensamento para aliviar sua tensão.

– Está com medo, Estevão?

Estevão sente alívio nos pulmões, no peito e garganta. Como se aquilo que o esmagava, que pressionava os segundos, tivesse escapado. Não sabe o que responder. Permanece mudo e olhando para o pai até que consegue falar novamente.

– Onde ele está?

O pai aponta para o lado de fora da janela. Estevão estica o pescoço para o lado e abre ainda mais os olhos na direção da janela. Nesse instante, o pai o segura pelo braço e Estevão é invadido por uma sensação de pavor ao ver do lado de fora da janela seu pai de pé no quintal ao lado de uma árvore. Olha para o que está em sua frente. Este sorri, mas não há dentes na sua boca que possam reluzir. O que está sentado à sua frente não é humano, salvo pela aparência, em seu interior há tão somente escuridão que sai da boca e dos olhos. Estevão recua com força, soltando-se. Não consegue gritar. Sai do quarto e fecha a porta. Volta para a sua cama e se encolhe debaixo do lençol sem conseguir pregar os olhos até o amanhecer.

Antes que o cheiro do café perfume toda a casa, como de costume, Estevão ouve os soluços da mãe. Levanta-se e tenta acordar seu irmão, que resiste em despertar. Sozinho, Estevão sai do quarto e caminha em passos curtos até o som dos soluços. A porta do quarto do pai está aberta e é de lá que vem os soluços. Diante da porta, vê a mãe sentada numa cadeira ao lado da cama. Ela olha para Estevão e estende a mão, porém ele hesita. A mãe insiste e ele vai até ela.

– Seu pai morreu. Você precisa se despedir dele.

Dos pés à cabeça, o corpo do pai está coberto.

– É o pai, mãe?

– É claro que é o seu pai. Quem mais poderia ser?

Estevão olha para o lado de fora da janela e, com a lucidez que irradia da alvorada, enxerga exatamente o lugar em que viu o pai de pé na madrugada, horas atrás.

– Tem certeza de que é ele, mãe?

A mãe o segura firme pelo braço e o sacoleja.

– Pare com isso, menino. Pare com isso.

Estevão se liberta da mãe e corre para fora do quarto. Tropeça no irmão que ainda está sonolento e caminha lentamente até o quarto do pai. Estevão sai da casa, apressado, e no quintal ele respira fundo, um ar fresco que ainda revela os vestígios da madrugada. Seca as lágrimas dos olhos. A hiperventilação que o acometeu minutos atrás começa a espairecer. Ele caminha até o local em que viu o pai de pé. Não há nada no chão, nenhuma pegada ou mesmo marcas na árvore. Coloca-se na mesma posição em que o viu e ergue os olhos para frente. Pela janela avista a mãe sentada ao lado da cama, abraçada ao irmão mais novo, que esfrega o nariz. Atrás dos dois, o pai, carregado de trevas nos olhos e na boca, sorrindo para ele.

Ana Paula Maia é escritora e roteirista. Possui seis livros publicados, entre eles, De Gados e Homens e Assim na Terra Como Embaixo da Terra. Seus livros já foram publicados em diversos países, entre eles EUA, Itália, França, Espanha e Argentina.