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As leis da física dos desenhos animados

"Todo corpo suspenso no ar tende a ficar suspenso até que se dê conta de sua situação."

Por Bruno Vaiano Atualizado em 26 out 2020, 20h27 - Publicado em 12 dez 2017, 15h31

Explique isso para o tio do pavê: o humor se baseia na quebra de expectativas. E uma maneira garantida de fazer isso é alterando as leis da física momentaneamente.

Personagens como Frajola, Coyote e Tom são vítimas constante da manipulação da gravidade e da termodinâmica. Muitas dessas modificações são tão recorrentes que foram sistematizadas em um dos artigos mais legais da Wikipedia, intitulado Cartoon physicsEle se baseia, por sua vez, em listas com cara de web 1.0 como esta e esta, feita por físicos e fãs com algum tempo livre. A ideia de que os desenhos animados seguem seu próprio conjunto de leis naturais improváveis, porém coerentes entre si, é antiga: o biólogo Stephen Jay Gould, em 1993, escreveu um artigo sobre o assunto na revista New Scientist.

Em meio a tantas fontes, a SUPER fez sua própria seleção de leis. Mas já avisamos: não tente nada disso em casa. E não coloque nada disso nas provas de física do colégio, por favor.

I. Todo corpo suspenso no ar tende a ficar suspenso até que se dê conta de sua situação e olhe para baixo. É importante notar que esse é o principal motivo pelo qual os bebês da animação não são suscetíveis a penhascos: sem consciência das leis da gravidade, eles se tornam imunes à queda.

I, fig. 1

Um adendo comum à lei é que o corpo que está prestes a cair pode dizer adeus, e.g.

I, fig. 2 Warner Bros/Reprodução

II. Bigornas sempre caem mais devagar que os demais corpos, de forma a atingi-los na cabeça imediatamente após sua chegada ao chão.

II, fig. 1 Warner Bros/Reprodução

III. Quando um corpo de grandes dimensões e função de apoio (e.g. ponte ou teto) é seccionado, a parcela que se manterá suscetível às leis da física clássica será sempre a parcela em que o autor do seccionamento está localizado. Às vezes há uma justificativa plausível para o fato (figura 1), às vezes não (figura 2).

III, fig. 1

 

III, fig. 2

Nota: as três leis enunciadas acima têm exceções apenas nas ocasiões em que ignorar uma delas for conveniente para o efeito cômico da manifestação das demais. Vide o exemplo a seguir.

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III, fig. adicional.

IV. Todo corpo que entra em contato violento com um piano tem seus dentes substituídos por um teclado de piano funcional.

IV, fig. 1

V. Qualquer corpo que atravesse um meio material sólido deixará nele um orifício corresponde a seu perímetro.

V, fig. 1

VI. Certos corpos podem passar por entradas de túnel e buracos portáteis, outros não. O privilégio é concedido de forma arbitrária.

Buracos pintados com tinta preta podem ter efeito parecido.

VI, fig. 1 Warner Bros/Reprodução

VII. Qualquer rearranjo violento de matéria felina é reversível.

É importante notar que o rearranjo pode ir além da deformação e envolver separação de partes do corpo (em geral dentes). Isso não afeta a capacidade de regeneração do organismo felino.

VII, fig. 1 Metro-Goldwyn-Mayer/Reprodução

VIII. A explosão de pólvora ou dinamite não é capaz de causar ferimentos letais, e se limita a chamuscar a pele e os pelos da vítima.

VIII, fig. 1 Warner Bros/Reprodução

IX. Trens se mantém em estado de indeterminação quântica até que o ato de por os pés nos trilhos estabeleça sua posição definitiva – que será sempre imediatamente em cima do personagem que tenta executar a travessia.

Da mesma maneira que é impossível saber se o gato de Schrödinger está vivo ou morto antes da caixa ser aberta (entenda o célebre experimento mental aqui), é impossível saber se um trem está vindo apenas olhando por cima dos trilhos. A posição do comboio só será definida após o início da travessia, quando o atropelamento é inevitável.

IX, fig. 1 Warner Bros./Reprodução

 

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