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Caia na gandaia

Nelson Motta lembra os tempos em queTim Maia, Gilberto Gil e Rita Lee entraram numa festaconduzida por... um grupo de garçonetes

Antes de montar o Frenetic Dancin’ Days, minha casa noturna, eu havia produzido dois festivais de rock: o primeiro Hollywood Rock, no Rio de Janeiro, em 1975, e o Som, Sol e Surf, em Saquarema, em 1976, com diversos artistas nacionais. Saquarema me trouxe um prejuízo enorme. O jogo virou quando a direção do Shopping da Gávea, na zona sul carioca, me encomendou um projeto de uma casa noturna.

O Dancin’ Days, inaugurado em 5 de agosto de 1976, iniciou o conceito de discoteca no Brasil. Antes havia bares e boates, mas era diferente. Lugares pequenos, comportados, que muitas vezes selecionavam quem podia entrar. O Dancin’ Days era como um cinema: você comprava o ingresso numa bilheteria e entrava. Isso de não ter nem couvert nem consumação, de você ir lá no bar e pegar o que fosse beber, era novidade.

A figura do DJ já existia. O próprio Dom Pepe, que foi nosso DJ, tocou na Sucata. E havia ainda o Ademir Lemos, genial, que era do Le Bateau; o Monsieur Limá, que era do Arpége, no Leme; o DJ Amândio, que era do Sótão, uma boate da Galeria Alaska, em Copabacana. E, claro, havia o DJ Big Boy, que fazia os Bailes da Pesada no Canecão.

Quem entrasse no Frenetic Dancin’ Days deparava com uma sala que levava a uma espécie de túnel, embaixo de uma arquibancada, toda forrada de jeans. A pista de dança era quadriculada, em preto-e-branco. Cabiam umas 800 pessoas lá. A discoteca ficava no quarto andar do shopping, onde, quatro meses depois de aberta, foi inaugurado o Teatro dos Quatro, do ator Sérgio Britto.

Quando chamei as Frenéticas para trabalhar na discoteca, não poderia supor que elas fossem gravar um álbum, muito menos imaginar o sucesso que elas fariam. Elas seriam umas garçonetes que cantavam umas coisinhas ali, de noite – um charme, apenas. Pouco depois, a Warner, que havia recém-aberto sua filial no Brasil, as chamou para gravar. O Leonardo Netto (hoje empresário de Marisa Monte) e o Vasco Castro Barbosa, que foram os empresários delas desde o início, fizeram as negociações com a gravadora. Vi o resultado apenas depois de pronto, nem acompanhei as gravações.

A disco music brasileira tinha muita coisa que era cópia da música norte-americana, mas não era o caso das Frenéticas. Elas tinham cara própria, eram muito ligadas aos caras que fizeram os Dzi Croquettes. Era teatro de revista, um pouco de escola de samba também, um pouco de cinema, de chanchada… Uma coisa muito brasileira. Elas gravavam músicas do Gonzaguinha, do Chico Buarque… O trabalho delas era bem- feito, uma coisa muito original e audaciosa para a época, especialmente se lembrarmos como elas se vestiam (espartilhos, cintas-ligas), como elas falavam, como elas se apresentavam. A crítica, em geral, recebeu as meninas muito bem.

No auge da disco music brasileira, vários artistas gravaram o gênero. O Tim Maia gravou Tim Maia Disco Club, talvez o melhor disco da vida dele. Também tinha a Lady Zu, que era ótima; a Banda Black Rio, que começou com as Frenéticas… O fenômeno se espalhou, o que era natural. Naquela época, apareceram também as Harmony Cats, que era outro grupo vocal feminino de disco music (elas gravaram um medley de músicas do gênero para a trilha sonora internacional da novela Dancin’ Days). Mas, nesse estilo, as Frenéticas foram as pioneiras no país.

Antes, havia o povo da black music, que vinha desde o começo dos anos 70, com o Tim Maia, o Cassiano, o Fábio, logo em seguida com o pessoal que formaria a Banda Black Rio, o Hyldon, os bailes funks de subúrbio… Isso tudo já vinha de bem antes, mas aí era o funk-soul carioca.

A disco music começou no Brasil com as Frenéticas, que nem tinham muito a ver com funk e com soul. Pelo contrário, era uma espécie de disco-rock. Elas gravavam muito rock também, mas eram músicas dançantes. E os músicos que tocaram com as Frenéticas eram de rock, era o pessoal do Bixo da Seda, além do Roberto de Carvalho, que preparou as meninas para o estúdio. O primeiro disco delas foi produzido por Liminha, que havia sido baixista dos Mutantes e da Companhia Paulista de Rock. Foi a primeira produção dele.

Muita gente diz que, com a disco music e a moda do som mecânico, os artistas de rock tenham se dado mal, mas eu não creio nisso. Pelo contrário, depois do Frenetic Dancin’ Days, o cenário roqueiro do Brasil cresceu muito. Aliás, vários roqueiros tocaram lá. A Rita Lee, ainda com o Tutti-Frutti, fez a noite de abertura da casa, com o show Entradas e Bandeiras. O Gilberto Gil tocou lá, o Raul Seixas também. Um dos grandes sucessos das Frenéticas, “Perigosa” (que eu compus com Rita e Roberto), é um rock’n’roll. Não eram muitos rocks que estouravam no Brasil naqueles tempos. A Rita Lee ainda estava começando a fazer sucesso. E foi na época das discotecas que o público começou a assistir aos shows de pé, dançando, e não mais sentado, passivo, como antes. Essa atitude daria o tom de toda a geração dos anos 80, que foi uma década dominada pelo rock. Então, não dá para dizer que a disco music tenha atrapalhado.

Nelson Motta é jornalista, produtor, escritor e incansável agitador cultural. Depoimento cedido a Ricardo Schott.

O produtor: Lincoln Olivetti

Pioneiro na utilização da eletrônica a serviço da música, Lincoln Olivetti manipulou com maestria o rock e o pop nacional na virada dos anos 70. Um de seus dons era aproximar os artistas e o hit parede sem ferir as convicções artísticas. Assim, popularizou o arranjo, criando frases sonoras reconhecíveis rapidamente. A transformação da roqueira Rita Lee em meteoro pop deve muito a seu trabalho – ele é praticamente co-autor de “Saúde”, “Mania de Você” e “Lança Perfume”. Outro artista beneficiado foi Tim Maia, que entrou com o pé direito na onda disco. E vieram Gal Costa, Gilberto Gil, Jorge Ben, Roberto Carlos, Caetano…

Natural de Nilópolis (RJ), Olivetti estudou música e engenharia eletrônica, o que lhe deu gabarito para trabalhar com bateria eletrônica e sintetizadores, recursos que apenas começavam a definir a cara do pop internacional. O domínio da nova estética também contou com o talento de Robson Jorge. Juntos emplacaram “Aleluia”, em 1982. Porém, com a onipresença veio a saturação – e as críticas de que ele “pasteurizava” o som dos anos 80. A fama de Olivetti foi resgatada no fim dos anos 90 por Ed Motta e Lulu Santos, dois admiradores de seu estilo. Para o parceiro Robson Jorge, porém, já era tarde. Ele morreu esquecido, em 1993, depois de anos de abuso alcoólico.