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“Coringa”: um sopro de novidade para os filmes baseados em quadrinhos

O filme pode dar início a uma nova onda de histórias isoladas, sem a obrigação de conectar tudo em um mesmo universo.

Em filmes de super-heróis, a comparação é quase inevitável. Quem foi o melhor Batman do cinema: Michael Keaton, Christian Bale ou Ben Affleck? O Superman de Henry Cavill faz jus à versão de Christopher Reeve? E a eterna briga sobre qual o Homem-Aranha ideal?

Em julho, quando fui assistir a “Coringa”, que estreia em outubro, tinha a sensação de que a nova versão do palhaço entraria num debate parecido. Afinal, o páreo de Joaquin Phoenix era duro: o personagem já teve as interpretações memoráveis de Jack Nicholson, em 1989, e Heath Ledger, em “O Cavaleiro das Trevas” (2008). Além destas, há também as versões de Cesar Romero, da série de TV do Batman dos anos 1960, e do ator Jared Leto  – ainda que essa última tenha vindo do fraco “Esquadrão Suicida”, de 2016.

No entanto, o que Phoenix e o diretor, Todd Phillips, entregam nas duas horas de filme é um enorme sopro de novidade ao gênero das adaptações de quadrinhos  – se é que podemos encaixá-lo nessa categoria.

 (Warner Bros/Divulgação)

O longa conta a história de Arthur Fleck, um adulto que mora com a mãe doente e que, entre um bico e outro, tenta começar uma carreira como comediante. Ele tem problemas psicológicos, manifestados, principalmente, por ataques incontroláveis de risada. Pois é: aqui, o riso característico do vilão é uma condição clínica.

Fleck, naturalmente, vai se transformar em Coringa ao longo do filme, e é interessante prestar atenção nas acertadas (e corajosas) decisões de roteiro que o levam a isso. Há pequenas inspirações aqui e ali das histórias do vilão nos quadrinhos (em especial, a graphic novel A Piada Mortal), mas fica por isso mesmo. Coringa toma tantas liberdades que cria uma história de origem que foge dos padrões. Fica difícil classificá-lo como uma adaptação de HQ.

Essa foi uma escolha tanto de Phillips quanto de Joaquin, que queriam contar uma história autêntica, “do zero”. Em uma rodada de entrevistas (cuja íntegra você confere em breve aqui na SUPER), o ator revelou que não se concentrou em ler HQs durante a fase de preparação, justamente para encontrar sua própria versão do personagem para o drama que eles viriam a construir.

Sem amarras

A ação tem como pano de fundo a cidade de Gotham City. Suja e violenta, é um ambiente fundamental para o desenvolvimento do Coringa. O clima sóbrio e infeliz tem explicação: vem das influências de Phillips para o filme  histórias dos anos 1970 e 1980 que exploram o crime e a realidade das ruas. Taxi Driver, clássico de 1976 dirigido por Martin Scorsese, é umas claras referências do longa.

 (Warner Bros/Divulgação)

Diversos elementos contribuem para o bom desempenho de Coringa: fotografia, trilha sonora e edição dão o tom certo para o longa. Mas talvez o maior trunfo tenha sido a escolha do protagonista. O filme é 110% Joaquin Phoenix. Todos os personagens secundários servem apenas para potencializar sua ótima performance. Mesmo a participação de Robert De Niro é curta, funcionando mais como uma homenagem aos filmes que Phillips usou como referência.

O filme ganha pontos também por não estar amarrado ao universo da DC Comics nos cinemas. É uma escolha arriscada. Em tempos de Vingadores: Ultimato, a Warner vai na contramão da Marvel, cujas apostas no universo compartilhado só aumentam. Mas dá certo: sem a necessidade de estabelecer conexões ou de se encaixar numa cronologia, Coringa consegue sair do óbvio e surpreender. Tudo isso com um orçamento bem mais modesto: US$ 55 milhões. Até Homem-Formiga custou mais do que isso (US$130 milhões).

Pontos negativos? Ao escolher um caminho autoral, o longa não vai a fundo na (rica) mitologia do Batman e todo o submundo de Gotham. As referências estão ali, ainda que tímidas. Não que isso faça diferença para o produto final: um mergulho na mente de um vilão consagrado e que subverte sua maior característica, que é a de manter sua origem em absoluto mistério.

De quebra, faz com que o espectador, de certa forma, relativize as motivações de Arthur, levando-nos a torcer e a sentir medo dele, tudo ao mesmo tempo. Seja qual for o resultado nas bilheterias, Coringa provou que, para um bom filme, basta uma boa história, interligada ou não. E de boas histórias assim, a DC está cheia.