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É sacanagem

O som do sexo nas pistas

Erika Brandão

Cheias de atitude e sem medo de queimar o filme, garotas cantam o sexo sem censura para chacoalhar multidões. Dos tempos da disco até as inacreditáveis avenue d, peaches e tatty quebra-barraco, a volume01 flagrou o namoro entre dance music e sexo

“Tá me achando com cara de biscate?”, perguntam as meninas do duo americano Avenue D. Já a canadense Peaches pede: “Chupa, chupa tudo, chupa e depois solta”. Da Cidade de Deus, subúrbio do Rio, vem Tatty Quebra-Barraco, a garota mais boca-suja do funk carioca, cujas letras são quase irreproduzíveis.

Sexo e música de pista andam juntos desde os tempos em que a sua avó saía pra fazer footing na praça. Quem não conhece o tema universal dos motéis, aquele clássico lotado de sussurros do Serge Gainsbourg (“Je T’Aime, Moi Non Plus”)? A música é de 69, sabia? Na época ela foi proibida em tudo quanto é lugar – inclusive no Brasil, no auge da ditadura.

A união entre música e sexo vem lá de trás, e o tema do motel é só um exemplo entre muitos. Só que, nos anos 2000, o papo ficou diferente. Como as letras acima indicam, hoje quem dá as cartas são as garotas desbocadas. Cheias de atitude e sem medo de queimar o filme, elas dizem – e fazem – o que vier na telha. E essas garotas fazem ótimas músicas pras pistas. Afinal, é lá que começa o ritual mais primitivo e inato ao ser humano: o acasalamento.

Veja a dupla Avenue D. Criadas na calorenta Miami, Debbie e Daphne D estouraram mundo afora em 2001 com o sucesso “Do I Look Like a Slut?” (a tal da “Tenho cara de biscate?”). Ali elas rasgam o verbo sobre uma base de miami bass (a mesma do funk carioca ): “Dane-se a cara de biscate, somos assim e somos felizes”.

Quem não pode ficar de fora dessa lista é Madonna. Em 92 ela lançou a trinca álbum (“Erotica”), clipe (da música homônima, extremamente censurado) e livro (“Sex”, recheados de fotos da popstar em poses nada pudicas). Numa das faixas de “Erotica” ela ordena que o rapaz aprenda “um novo tipo de beijo”, que “desça até onde a vida começa”. Na faixa-título o recado é menos sutil ainda: “Deixa que eu faço do meu jeito. Deixa a minha boca ir aonde ela quiser”…

Antes delas, outras mulheres haviam levado o sexo pras pistas. Nos anos 70, a disco music bombava em clubes underground, e ali negros, gays, prostitutas e boêmios dançavam sem ter nada a perder, muito menos a vergonha. Donna Summer era uma que dizia que “Amava amar você, babe” (“Love To Love You, Baby”), ou que “Sentia o amor” (“I Feel Love”), com aquela voz supersensual. A propó-sito, letras de clássicos da época botaram fim na inibição de muita gente. “Você pode tocar meu sino” (“Ring My Bell”) era uma sacanagem explícita cantada pela Anita Ward. E o povo todo cantava junto.

É claro que nem só de mulher boca-suja vive a indústria das músicas libertinas. As próprias garotas do Avenue D sofreram influência explícita do mais descarado grupo de todos os tempos, o 2 Live Crew, um dos que mais tiveram problemas com a “liga das senhoras castas” nos Estados Unidos. Os caras foram processados pelo disco “As Nasty As They Wanna Be” (“Tão sacanas quanto quiserem”), considerado obsceno por um juiz em 89. Imagina sua avó ouvindo no rádio letras como: “Me perguntam por que eu trepo tanto, e eu respondo: ‘Que mal há numa rapidinha?’” DJ Assault, o rei do ghetto-tech, é o candidato a sucessor do 2 Live Crew. O som é electro acele-rado e já rendeu o clássico “Ass N’ Titties”. A letra é só isso: “Bunda, peitos, bunda, peitos”.

A house music, filhote da disco, também ajudou muitos casais a fazer nenês. “French Kiss”, do Lil’ Louis (89), é um dos maiores clássicos de um orgasmo adequado ao sistema de som de uma pista de dança. Pra citar um exemplo atual, que tal “Should I Sing Like This”, dos Greens Keepers, cuja letra manda um nada sutil “por que a gente não trepa um no outro como se fosse árvore?”

Em 91, os Lords of Acid foram cultuados na Inglaterra por causa do álbum “Lust”. Os títulos das músicas já indicavam por quais caminhos lascivos eles seguiriam, dentro da acid house: “Rough Sex”, “Pussy” “Drink My Honey” e são alguns exemplos.

Em 94, o grupo Twenty Fingers mandou uma das mais feministas letras pras pistas de black music, que se tornou sucesso imediato: “Don’t Want No Short Dick Man” (“Não quero homem de bilau pequeno”) foi cantada por mulheres exigentes, que entoavam com orgulho algo como: “Esse deve ser o menor pinto que já vi na vida, cai fora”. A coisa está tão explícita hoje em dia que nos Estados Unidos tem até empresa da indústria pornô promovendo festas eletrônicas. A Vivid Video, uma das maiores produtoras de filmes X-rated do país, faz after-hours com DJs como Christopher Lawrence nas pick-ups. O nome da turnê? Porn Star Ball. Como o promoter da Vivid diz, “sexo e dance music são sinônimos. Não dá pra ter uma coisa sem a outra”…

Aqui no Brasil, parece que o bicho está começando a pegar. No Rio, os bailes funk são uma explosão de sensualidade. Em São Paulo, a festa Horny Bunny vem fazendo sucesso com temas como “Erotic Circus” e “Glam Slut”. Se você vai vestido “a caráter”, ganha um desconto. Ótimo jeito de estimular os mais envergonhados no começo da noite, né? Porque depois que a balada pega, “todos os gatos são pardos”, “ninguém é de ninguém” e por aí vai. Ou melhor, vamos…

Mela-cueca

Uma breve história da sacanagem na música

Serge Gainsbourg – Serge Gainsbourg & Jane Birkin” (1969)

Selo: Virgin France (importado)

Pérolas: “Je T`Aime, Moi Non Plus”, “69 Année Érotique”

Donna Summer – Love to Love You, Baby (1975)

Selo: Polygram (importado)

Pérola: “love to Love You, Baby”

Lil` Louis – From The Mind of Lil’ Louis (1989)

Selo: Sony Music (importado)

Pérolas: “French Kiss”, “I Called You”

2 Live Crew – As Nasty as They Wanna be (1989)

Selo: Atlantic (importado)

Pérolas: “Me So Horny”, “The Fuck Shop” e “DK Almighty”

Lords of Acid – Lust (1991)

Selo: Caroline (importado)

Pérolas: “Rough Sex”, “I Sit On Acid”

Madonna – Erotica (1992)

Selo: Warner (nacional)

Pérolas: “Erotica”, “Where All Life Begins” e “Secret Garden”

Peaches – Fatherfucker (2003)

Selo: Sum Records (nacional)

Pérolas: “I U She”, “Shake Your Dix” e “Operate”

As bocudas do barraco

Furacão canadensee “Orca” carioca caem deboca no microfone

Peaches

No rio, ela deixou os homens roxos de vergonha e beijou meninas na boca

Ela acaba de tocar no Brasil e está dando o exemplo pras garotas por onde passa. Com dois álbuns lançados, essa canadense fala o que vem na cabeça, que está sempre recheada de imagens libidinosas. No Rio de Janeiro, por exemplo, ela conseguiu deixar sem graça vários homens que queriam vê-la de perto numa estação de rádio. Uma das músicas do novo álbum, chamado “Fatherfucker” (“Porque todos xingam usando o termo ‘motherfucker’? Isso já era”), pede que os homens “shake their dicks” (chacoalhem seus bilaus). Segundo ela, esse negócio de ver mulher mexendo o popozão é passado. Não é que os caras do estúdio ficaram desconcertados? Outra faixa do CD fala sobre todas as combinações que o sexo a três oferece. Uma terceira música diz que ela tá pouco se lixando pra sua reputação. E o que dizer da faixa em que ela pergunta pros meninos se eles não sabem que o melhor jeito de um homem ter prazer é “por trás”? No Rio, ela fechou o show com chave de ouro: chamou duas meninas pra cantar no palco e lascou um malho em cada uma.

Tatty Quebra-Tudo

Ex-cozinheira de creche, tatty é a rainha do sexo no funk carioca

Tatiana dos Santos Lourenço, a MC Tatty Quebra-Barraco, ganhou o apelido a partir do seu primeiro sucesso, “Barraco 1”. De cozinheira de uma creche em Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, passou à mais desbocada MC do funk carioca. Letras como: “Sou feia, mas tô na moda, tô podendo pagar hotel pros homens e é isso que importa”, ou: “69, frango assado, de ladinho a gente gosta/Se tu não tá agüentando, pára um pouquinho/Tá ardendo? Assopra” trouxeram notoriedade pra ex-quase-cabelereira, que diz que virou MC por acaso e que não entende nada de música – ela confia nos DJs pra colocar as batidas por cima da sua voz. Durante uma apresentação no Rio, ela soltou pérolas como “quero ver quem vai ter coragem de encarar a orca” (falando sobre si mesma e seus quilos a mais), ou ainda “pau no c. do mundo, mas não esquece do meu”. Casada há um ano e meio, curte a fama fazendo shows de quinta a domingo.