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É tudo mentira

Casa Branca, ONU, McDonald's: ninguém está a salvo dos Yes Men, uma dupla de ativistas que viaja pelo mundo aplicando trotes em governos e empresas multinacionais. Veja o que eles são capazes de fazer

Juliana Cunha

Existem dois jeitos de protestar contra o consumismo, a destruição da natureza e os exageros da globalização. Você pode se tornar um militante xiita, daqueles que ficam recriminando os amigos na mesa de bar. Ou pode fazer isso de um jeito mais legal: inventar trotes para enganar, ridicularizar e denunciar os malfeitores do mundo. É o que fazem Jacques Servin e Igor Vamos, dois ativistas que se infiltram em eventos, fingem ser representantes de governos e empresas e apresentam projetos estapafúrdios – depois noticiados pela imprensa de todo o mundo como se fossem verdade. A dupla, que se intitula Yes Men e está lançando um filme, levou a arte da pegadinha a um nível inédito, com golpes incrivelmente ousados e convincentes. Ou, no mínimo, hilários.

A solução para o aquecimento global

“Preocupado com as mudanças no clima? Não esquenta… Nós somos as maiores empresas dos EUA. E temos um plano para te salvar das catástrofes que vêm por aí.” É assim que começa o site da SurvivaBall (www.survivaball.com), armadura high tech desenvolvida por um consórcio de multinacionais que inclui Ford, GM, Shell, Monsanto e Raytheon – uma das maiores fornecedoras de armas para o governo dos EUA. A SurvivaBall é um casulo autossuficiente, que gera a própria energia matando animais silvestres. Uma ideia estapafúrdia, mas que causou certo buzz – porque os Yes Men conseguiram fazer uma falsificação perfeita do site da Raytheon. “A SurvivaBall é um minibunker, onde você poderá sobreviver quando a natureza se rebelar”, explica Igor Vamos. Ao demonstrar a armadura, nas ruas de Nova York, ele foi preso – a polícia alegou que os Yes Men não tinham autorização da prefeitura. Eles também aprontaram na COP 15 (conferência da ONU sobre mudanças climáticas). Criaram uma cópia perfeita do site da ONU, destacando uma notícia bombástica: o governo do Canadá teria se comprometido a reduzir em 40% suas emissões de CO2 até 2020. Aí, foi só espalhar o link para a imprensa, que acreditou na história e espalhou a manchete. Até que, constrangida, a delegação canadense foi obrigada a negar tudo. Era um trote.

Pegadinha do New York Times

Acaba a Guerra do Iraque. Tropas americanas deixam o Oriente Médio. George W. Bush pede desculpas ao país e é indiciado por falsidade ideológica. Imagine acordar, pegar o jornal e se deparar com essas manchetes. Foi o que fizeram os leitores do New York Times – o mais influente jornal do mundo, e vítima de uma armação dos Yes Men. Eles falsificaram 80 mil exemplares do jornal, que continham essas notícias, e distribuíram em Nova York, Los Angeles, São Francisco, Chicago, Filadélfia e Washington em 12 de novembro de 2008. Visualmente, o New York Times falso era igualzinho ao real – pois os Yes Men tiveram a ajuda de diagramadores do jornal (cuja identidade não revelam). Uma rede de voluntários fez a distribuição dos exemplares. “Algumas pessoas nos perguntavam nas ruas: ‘Essas notícias são verdade?’ E a gente respondia: ‘Deveriam ser’ “, conta Igor Vamos. Os Yes Men tentaram repetir a dose, em setembro de 2009, com o New York Post: criaram uma versão falsa com notícias sobre clima e a manchete “O mundo está ferrado”. Foram presos, e os jornais confiscados.

Comida reciclável

Qual é a solução para a fome na África? Foi isso o que políticos, empresários e cientistas tentaram responder em 2002, numa conferência realizada pela Universidade de Nova York. Entre eles, estava um representante da Organização Mundial do Comércio (OMC), que curiosamente veio acompanhado por um executivo do McDonald’s. Quando chegou sua vez, ele foi até o púlpito e começou a apresentar sua proposta: a reciclagem de alimentos. Bastaria pegar o cocô das pessoas, filtrar e transformar em hambúrguer – o reBurger, que pode ser reciclado até 10 vezes. Aí, o executivo revelou que a empresa já vinha testando essa tecnologia em suas lanchonetes, que vendiam sanduíches contendo 20% de “dejetos pós-consumo”. Ráaaaaa! Os representantes da OMC e do McDonald’s eram, na verdade, Igor e Jacques. O mais incrível é que alguns dos estudantes, na plateia, acreditaram na história. Um deles até protestou: “E quem disse que as pessoas do terceiro mundo gostam de hambúrguer?”

Petróleo feito de gente

Onde todo mundo só vê dificuldade, o gênio enxerga oportunidades. Pensando nisso, os Yes Men resolveram se infiltrar numa conferência de empresas de petróleo, em 2007. Imprimiram cartões falsos e, com muita cara de pau, se fizeram passar por Florian Osenberg e Shepard Wolff – respectivamente, da gigante petroleira Exxon e do governo do Canadá (é, eles têm implicância com o Canadá). “Sem petróleo, pelo menos 4 bilhões de pessoas poderão passar fome”, começou a palestra. Solução? O Vivoleum, um novo tipo de petróleo criado pela Exxon. Feito a partir de cadáveres. A plateia começou a rir, enquanto os Yes Men distribuíam velas feitas com o novo petróleo e insistiam que aquilo era sério. “O aumento do uso de combustíveis fósseis causará mais desastres, e isso trará mais matéria-prima para o Vivoleum.” Aí, mostraram um vídeo em que um funcionário da Exxon manifestava seu desejo de, quando morresse, virar Vivoleum. Os dois acabaram expulsos do evento.

O VERDADEIRO CLUBE DA LUTA

Sabe o filme Clube da Luta, de 1999? Nele, Tyler Durden (vivido por Brad Pitt) participa de brigas clandestinas – e também realiza atos de protesto, como adulterar folhetos de segurança das companhias aéreas ou fazer sabonetes com gordura humana roubada de uma clínica de lipoaspiração. Um clássico do cinema. O que pouca gente sabe é que, na vida real, o grupo realmente existe: se chama Sociedade da Cacofonia e é o precursor das ações dos Yes Men. O grupo, que foi criado em Los Angeles nos anos 90, é famoso por ações como invadir lojas à noite e encher ursinhos de pelúcia com cimento e contratar strippers para sentar no colo de Papais Noéis.

Para saber mais

theyesmen.org/hijinks

(vídeos dos trotes)

Yes Men Fix the World

(dvd, pré-venda em www.amazon.com)