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Em 1964, os Beatles se recusaram a tocar em um show segregacionista nos EUA

Em meio às recentes manifestações antirracistas, Paul McCartney relembrou esse episódio. Saiba o que estava acontecendo naquela época.

Por Rafael Battaglia - 11 jun 2020, 16h19

Desde a semana passada, o assassinato de George Floyd por um policial branco em Minneapolis, nos EUA, movimentou o mundo, com dezenas de manifestações antirracistas e antifascistas em várias cidades do planeta.

Na internet, o movimento #BlackLivesMatter (#VidasNegrasImportam no Brasil), que surgiu em 2013, também se intensificou – famosos e anônimos se manifestaram em apoio aos protestos.

Em meio a isso, o músico Paul McCartney relembrou, pelo Twitter, uma história dos Beatles envolvendo racismo. Em 1964, a banda, que estava em turnê pelos EUA, tocaria na cidade de Jacksonville, na Flórida, quando descobriu que os negros seriam segregados na plateia – e se recusou a entrar no palco:

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Na mensagem, Paul escreveu que, em seguida, os Beatles acabaram tocando para a primeira plateia não-segregada da cidade, e disse estar com raiva e enojado que, quase 60 anos depois, atos racistas (como a morte de George Floyd e inúmeras outras) ainda aconteçam.

A recusa foi unânime entre os quatro (Paul, John, George e Ringo) e acabou influenciando o restante da carreira da banda. Mas, para entender tudo isso, é preciso compreender o que estava acontecendo nos EUA naquele momento.

“Beatlemania” e o movimento dos direitos civis

1964 foi um ano emblemático. Os Beatles haviam aparecido pela primeira vez na televisão britânica meses antes, em outubro de 1963. A partir daí, a banda, que ainda só possuía um álbum de estúdio, Please, Please Me, estourou.

Em fevereiro do ano seguinte, Lennon, McCartney e cia. foram aos EUA, onde se apresentaram no programa de TV de Ed Sullivan. É um dos momentos mais importantes da música pop: a audiência, uma das maiores da história, chegou a 70 milhões de pessoas, e consolidou a Beatlemania.

Os Beatles, a partir daí, viraram um fenômeno mundial. O álbum A Hard Day`s Night, lançado meses depois, foi outro sucesso. Em julho, estreou um filme, com o mesmo nome do disco, que abordava a fama do quarteto, a repercussão das músicas pelo mundo e toda a perseguição dos fãs. Foi um hit de bilheteria.

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Mas 1964 não foi emblemático apenas por isso. Nos EUA, foi quando o movimento encabeçado por Martin Luther King Jr. atingiu o seu ápice, com a aprovação da Lei dos Direitos Civis, que proibiu a segregação racial no país.

Antes disso, boa parte das cidades e estados americanos (sobretudo na região sul) adotava uma política racista: negros estudavam em escolas diferentes e nasciam em hospitais separados. Havia distinção até na hora de usar o banheiro e ser enterrado no cemitério.

Essa mudança na legislação, claro, não aconteceu de uma hora para outra. Por décadas, pequenos grupos de ativistas lutavam como podiam para pôr fim à segregação. A coisa começou a tomar maiores proporções em 1955, quando a ativista Rosa Parks se recusou a ceder o seu assento a uma branca dentro de um ônibus em Montgomery, no Alabama.

Rosa, vale dizer, não foi a primeira a protestar em Montgomery, mas sua prisão foi o estopim para que a comunidade se organizasse. O primeiro ato foi um boicote aos ônibus da cidade: trabalhadores negros, ao invés de pegar o transporte, andavam até o trabalho, e defendiam o fim da segregação. Deu certo: mais de 50 mil pessoas aderiram, a a cidade revogou a lei dos assentos preferenciais.

Com o tempo, outras leis segregacionistas foram alteradas. Luther King liderou marchas e protestos por todo o país. O discurso “I Have a Dream” (“Eu Tenho um Sonho”, que você provavelmente já escutou), por exemplo, aconteceu em 1963 em Washington. Foi um momento histórico, e reuniu mais de 200 mil pessoas.

Em 1964, a pressão popular por uma mudança nas leis americanas era gigante. O presidente Lyndon B. Johnson, que assumiu após a morte de John F. Kennedy, não teve outra escolha senão sancionar a lei que acabou com a segregação em espaços públicos nos EUA. Mais tarde, naquele ano, Luther King recebeu o Prêmio Nobel da Paz.

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Novos contratos

A lei foi promulgada no dia 2 de julho, mas alguns lugares relutaram em aceitá-la. O show em Jacksonville estava marcado para o dia 11 de setembro no estádio Gator Bowl.

“Nós nunca tocamos para públicos segregados e não vamos começar agora”, disse John Lennon na época. Quando as autoridades perceberam que a banda ia desistir, decidiram voltar atrás e unificaram a plateia.

No Twitter, o baterista Ringo Starr endossou as palavras de Paul, e disse que os Beatles sempre defenderam a igualdade, e que ele jamais parou de trabalhar em prol da paz e do amor:

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Depois desse episódio, os Beatles passaram a exigir plateias integradas nos seus shows. E nada de acordo falado – essa era uma cláusula de contrato. Um documento de 1965, para um concerto em Cow Palace, na Califórnia, dizia que a banda “não irá se apresentar na frente de um público segregado”.

“Nós não tocávamos para esse ou aquele tipo de pessoa, nós simplesmente tocávamos para pessoas”, disse Ringo em um vídeo sobre o tema.

A luta contra o racismo nos EUA inspirou Paul, anos mais tarde, a compor a música “Blackbird”, em 1968. Ouça aqui – e preste atenção nas metáforas da letra.

 

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