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Escravos do sistema

Marx decifrou o capitalismo, expôs suas contradições e antecipou o mundo de hoje: em que a tecnologia, em vez de reduzir o tempo de trabalho.

Por Alexandre de Santi (edição: Bruno Garattoni)
Atualizado em 23 out 2020, 19h02 - Publicado em 2 dez 2015, 11h45

Livro: O Capital
Autor: Karl Marx
Ano: 1867
Por que ler? Para compreender como o capitalismo funciona (e onde ele deixa de funcionar).

Em 1867, um alemão que nunca pisou em um chão de fábrica fez a mais contundente e também a mais longa crítica sobre como o capitalismo atiça disputas entre donos dos meios de produção (burgueses) e proletários (ou empregados, que possuem apenas os braços e os filhos, a prole). Karl Marx mostrou como o sistema pode ser injusto, irracional e contraditório. Em vez de servir às necessidades dos homens, funciona para gerar mais e mais dinheiro para quem já tem demais – e isso só ficaria pior com o tempo. Marx bancou de adivinho. Hoje, quase 150 anos depois do lançamento de O Capital, 67 pessoas possuem um patrimônio igual ao de metade do planeta – e a diferença entre esses dois grupos não para de aumentar. A crescente desigualdade ainda não deu fim ao sistema, como previu Marx, mas o diagnóstico segue atual, dando origem a filhos distantes como o best-seller global O Capital no Século 21, de Thomas Piketty.

O curioso é que Marx fez um diagnóstico tão preciso que explicou também por que o capitalismo resiste tão bravamente. Imersos nesse sistema, temos a impressão de pensar e tomar atitudes por vontade própria, de forma racional e livre, quando na verdade, segundo Marx, somos vítimas de um poder invisível que nos obriga a pensar e agir daquela maneira e não de outra. A essa força o alemão deu o nome de “ideologia”. Junto à ideia freudiana de inconsciente, lançada 33 anos depois, a constatação de Marx abriu um novo precedente na história da filosofia ao propor que somos de certa forma determinados pelo contexto em que vivemos. Lançado quando a Revolução Industrial ainda estava se descortinando, O Capital mostrou também como a tecnologia, em vez de servir para encurtar o tempo de trabalho, esticaria a jornada ao limite. Se você lamenta estar sempre conectado aos e-mails de trabalho pelo smartphone, lembre-se de Marx.

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Os personagens econômicos encarnados pelas pessoas nada mais são que as personificações das relações econômicas.

O livro acabou ofuscado por um panfleto. O Manifesto Comunista, escrito com seu amigo e financiador Friedrich Engels 19 anos antes, conclamava os trabalhadores a se levantar contra a classe dominante. No mesmo ano, várias revoluções eclodiram na Europa e pavimentaram o caminho para reformas sociais. O Capital não gozou nem de um quinto dessa repercussão. De tão hermético e empolado, nem os próprios marxistas conseguem lê-lo inteiro. A recepção da obra foi tão morna que o próprio Marx passou a escrever críticas com pseudônimos para ver se aumentava o interesse do público. Não conseguiu transformar O Capital em uma mercadoria-fetiche, como ele denominou nossa adoração por objetos. No seu enterro, em 1883, apenas 11 pessoas compareceram, incluindo o coveiro.

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