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Incursão

Passeie por uma cidade paralisada no tempo, neste conto da seção Realidade Alternativa.

Após três horas de estrada, o ônibus da Avante Turismo encostou no meio-fio. Trinta cabeças disputaram um espaço nas janelas, mas não encontraram lá fora nada além de um milharal seco. Quilômetros a perder de vista cobertos por uma folhagem pardacenta, sem um vento que trouxesse ilusão de vida. Dentro do ônibus, um calor de quase 40 ºC. E formou-se o motim. O guia, em pé lá na frente, agitava as mãos em cima da cabeça. Pessoal, por favor, pessoal, um minuto de sua atenção, pedia o rapaz moreno e magro. Até que o motorista levantou-se da direção, bateu palmas duas vezes e ordenou: Agora todo mundo cala a boca que o jovem aqui tem um comunicado importante, fui claro?

O guia sorriu para a audiência, subitamente atenta. Limpou a garganta e inspirou contando até três, para dar conta do texto decorado sem perder o fôlego. Obrigado a todos pela atenção. Antes de chegarmos a Ponteio eu gostaria de compartilhar com vocês algumas informações. Nós estamos agora a exatamente cinco quilômetros do epicentro da Operação 366, prestes a cruzar o perímetro de segurança. A radiação atualmente é bem baixa e não oferece perigo, mas, por precaução, nosso passeio terá duração máxima de quatro horas. Peço, por favor, que não confiem em seus relógios, já que, por motivos óbvios, eles não funcionarão de forma adequada daqui em diante. Por isso, é importante que o grupo permaneça unido o tempo todo. Nosso roteiro inclui os pontos mais importantes da cidade, então ninguém precisa se arriscar sozinho. E se alguém sentir tontura, formigamento ou ficar com a vista embaçada, basta falar com nossa equipe para que possamos reconduzi-los à zona de segurança.

Respirou fundo e recomeçou: Como todos vocês devem saber, a bomba 366 atingiu essa região há 29 anos, no dia 29 de fevereiro. E o objetivo da Avante Turismo, em parceria com o Ministério da Segurança Nacional e a Secretaria Estadual de Educação, é mostrar as consequências desse acidente para que as futuras gerações não repitam os erros do passado. Alguma dúvida?

O motorista engatou a primeira e, com dois ou três solavancos, o ônibus se pôs em movimento. Ultrapassaram um caminhão, parado na pista da direita, e depois um carro vermelho, na pista da esquerda. Seguiram nesse ziguezague até que as primeiras construções começaram a aparecer na beira da estrada, galpões em cujas fachadas se lia “Grãos Bartoli” ou “Cia Agrícola Montemezzo”, postos de gasolina, um ou outro casarão abandonado, hotéis baratos. Então cruzaram a ponte, e o que ainda restava do milharal ficou para trás. O ônibus mergulhou na sombra de árvores antigas, por trás das quais era possível vislumbrar casas cada vez mais próximas. O motorista virou à direita, numa rua ainda mais verde, ladeada por sobrados, e estacionou algumas quadras depois.

Cada passageiro, ao descer, soltava uma risadinha meio tensa, buscando no olhar do guia a confirmação de que não havia perigo. Ele estendia a mão às senhoras, ajudava as crianças a saltar para a calçada. Atenção, pessoal, por favor: caso alguém se separe do grupo, deve voltar imediatamente a este local, certo? No material que vocês receberam, há um mapa da cidade, e o lugar em que estamos agora está assinalado com um X, confere?

Todos abriram seus mapas e localizaram o X, ao lado do qual se lia: RESIDÊNCIA DO PREFEITO. Como numa coreografia, ergueram os olhos para o sobrado amarelo do outro lado da rua. Era uma construção elegante, protegida por uma grade de ferro forjado. No jardim, se via um banco e a estátua de uma mulher nua com um jarro, do qual pendiam ramos de miniazaleias. Pouco adiante, três degraus de mármore conduziam à entrada. Uma trepadeira tinha contornado a porta e estendia seus ramos em direção ao balcão no segundo andar.

Ali! Perto da cortina! Vejam, tem uma mulher ali!, gritou a moça sardenta, apontando para uma janela no terceiro piso. Apoiada no parapeito, uma jovem de cabelo longo e preto parecia olhar para o céu. Era Camila, a filha do prefeito, disse uma senhorinha de cardigã rosa. Eu ouvi falar sobre ela num documentário que passou na TV. Tinha só 19 anos quando a bomba foi lançada. Assim como as outras vítimas da radiação, ela ficou… Todos ficaram… Quer dizer, essas pessoas estão…

Era sempre difícil encontrar o termo exato. Petrificados? Congelados? Mortos? A senhorinha gaguejava, tentando lembrar como diziam na televisão. Mas o grupo estava mais interessado em olhar a moça na janela, à espera de qualquer mísero movimento. Em vão. Um a um foi desistindo, menos a moça sardenta, ali imóvel, até que uma amiga a puxou pelo braço: Ei, vem, o pessoal já está descendo a rua.

Correram atrás deles até uma pracinha, onde dois velhos tinham sido atingidos em plena partida de xadrez. A vitória de um e a indignação do outro eram tão evidentes que até a moça sardenta riu. Alguém sacou uma câmera. Pode usar flash? Pode, disse o guia. Tira uma foto nossa? E logo fez-se a fila para posar ao lado dos jogadores.

Você já foi ao museu de cera da Madame Tussauds?, perguntou a dona do cardigã rosa a um senhor de barba branca e chapéu Panamá. Ele balançou a cabeça. Ah, então o senhor tem que ir. É um lugar impressionante. Quero dizer, nada que se compare a isso, claro. Esse lugar é… Por mais que a gente veja fotos, documentários… E olha que eu realmente me preparei para essa viagem. Fui até numa palestra lá na faculdade do meu neto, adorei. Mas nada nos prepara para ver algo assim, não é mesmo?

Em pé sobre um banco da praça, o guia ergueu a voz o quanto pôde: Pessoal, por favor, não toquem nas vítimas, combinado? Em sinal de respeito, pessoal. Isso é muito sério. Mas sabia que esse era um apelo inútil. Ele mesmo, discretamente, quando subiam a avenida principal de Ponteio, tomada por estátuas de comerciantes, donas de casa, aposentados, adolescentes e vagabundos, deixava sua mão esbarrar ora em um braço, ora em outra mão, para confirmar, com um arrepio, que aquele toque ainda era, sim, humano: a pele macia, quente, mas inacreditavelmente inflexível. Não era possível tirar um fio de cabelo do lugar, muito menos levantar alguém do chão – sequer uma criança. Ele bem que havia tentado uma vez, o que quase lhe custou sua carteirinha de guia oficial da Secretaria Estadual de Educação.

E se eles não estiverem mortos? Alguém já pensou nisso?, questionou a moça sardenta. Bingo. A mesma pergunta, toda vez, sempre no mesmo ponto do passeio ” já era até piada entre os guias. A resposta, porém, exigia olhar e voz graves: Ótima questão, essa que você levantou. Existia, sim, essa dúvida. Mas muitos médicos já vieram aqui ao longo dos anos medir a atividade cardíaca ou cerebral das vítimas, e a conclusão foi a mesma. Eles estão mortos. Como de praxe, alguém refutaria: Mas o que os médicos sabem, afinal? A ciência tem muito o que avançar, ainda mais numa área tão recente. E o guia sabia que então era a vez de outro turista, provavelmente um jovem barbudo ou de cabelo comprido, debochar: Ciência? Vocês confiam tanto na ciência, e é esse tipo de tragédia que acontece. Há coisas que os cientistas nunca serão capazes de responder. A definição da vida é uma delas.

E o grupo subiria a avenida nessa toada, com comentários cada vez mais exaltados, até chegar a um dos pontos altos da visita: a igreja matriz, onde a bomba havia eternizado o abraço de dois jovens recém-casados. O silêncio imperaria por um instante e, a partir daí, a conversa tomaria uma direção mais amena, sobre a força do amor, a importância da família, coisas desse tipo. Alguns, geralmente as senhorinhas de cardigã rosa, até arranjavam alguém para abraçar.

Mas o senhor de barba branca e chapéu Panamá não estava disponível para abraços. Minutos antes, no auge da discussão, aproveitou para fugir do grupo e, a essa altura, já corria por uma rua estreita, repleta de cafés e restaurantes, onde alguns pesquisadores conseguiam até sentir o fantasma do cheiro de pão e carne assada. A via se afunilava até desaguar numa praça, colorida por balanços, gangorras e escorregadores, à espera de alguma criança. Cruzando o gramado, vinha o mirante, e para além dele, depois dos telhados e das copas das árvores, o brilho do rio. Dali em diante, nada além do milharal.

E lá ia o velho, em sua correria pontuada por tropeços, seguindo a margem do rio até se deparar com um casarão de traços solenes. Cruzou o portão entreaberto, atravessou às pressas o jardim e, com um último tropeço, chegou ao quintal. Foi quando a viu. Sentada num banco, ela estava prestes a virar a página de um livro, sob o olhar atento de dois meninos. Com cuidado, juntou-se a eles. Teria lido o resto da história, não fosse a vista já meio turva. Os dedos também começavam a formigar. Mas que importância tinha isso perto da chance de tocar os dedos dela?

Quando, duas horas depois, ele chegou ao ônibus, o motorista franziu o cenho: Atrasado novamente… Assim o senhor coloca em risco a sua segurança e a dos outros passageiros, senhor Bartoli, desse jeito vou precisar avisar a chefia, entende? O velho tirou o chapéu e, com a ajuda do guia, subiu os degraus. Já podiam partir, para alívio geral.

Atenção, pessoal, tenho só mais um recado: gostaria de pedir a vocês que preenchessem a ficha de satisfação que receberam com o material informativo, por favor. E, claro, espero encontrar todos novamente em outros passeios da Avante Turismo. Só lembrando que dentro de uma hora e meia, faremos uma parada para lanche, ok?

O ônibus contornou o quarteirão, entrou novamente na via arborizada, cruzou a ponte e, ziguezagueando pela estrada, passou pelos hotéis baratos, pela Cia Agrícola Montemezzo, pelo galpão dos Grãos Bartoli e pelo vasto milharal, que se estendia em direção aos últimos raios de sol. E quando, cinco ou seis quilômetros depois, os passageiros viram pela janela algumas aves no céu, e o mundo se pôs gradativamente em movimento, sentiram algo em descompasso com a música exterior. Alguém apenas comentou que a volta sempre parecia mais rápida que a ida.