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Mamonas: Cometa loucura

Foram nove meses de sucesso. Desde a gestação às avessasaté a tragédia nacional, no dia 2 de março de 1996. Depois dos Mamonas Assassinas, o pop rock brasileiro nunca mais soube falar para tanta gente, de diferentes idades e classes sociais

Texto Pedro Só

Os rapazes de Guarulhos amargaram sete anos de fracassos roqueiros, boa parte deles carregando o nome Utopia (o que não deixa de ser irônico), antes de viver seu fugaz conto de fadas pop. Não houve febre fonográfica semelhante no Brasil. RPM e Só Pra Contrariar registraram vendagens superiores às do disco Mamonas Assassinas, mas nenhum outro produto da indústria chegou aos 2 milhões de cópias vendidas em tão pouco tempo. O ritmo da caixa registradora era alucinante, não teve precedentes e ainda não foi igualado. Antes de morrer, Dinho, Bento, Samuel, Júlio e Sérgio já tinham feito o álbum bater a marca do 1,8 milhão de cópias. Em oito meses, a gravadora EMI-Odeon faturou 20 milhões de reais. O show do quinteto custava 50 mil reais – na época, cachê superior ao da Legião Urbana e praticamente o dobro do que cobravam os Paralamas do Sucesso.

Os Mamonas não deixaram sucessores, não originaram um culto, há muitos anos pararam de alimentar a necrofilia cultural nossa de cada dia. Depois deles, não houve nada semelhante ou comparável no pop brasileiro. Não com o mesmo alcance em todas as classes sociais e faixas etárias. Nem Sandy & Júnior, nem Rouge, nem Claudinho & Buchecha, nem Kelly Key. De nove anos para cá, ninguém sequer chegou perto da excitação que trespassava todos os programas de maior audiência na TV e que se renovava a cada música emplacada nas rádios.

No rock, menos ainda: a grama que cresceu no caminho trilhado pelos Mamonas jamais foi tão verde ou viçosa. Claro, depois daquele verão de 1996, Skank, Titãs e Raimundos viveram notáveis picos de popularidade. O Capital Inicial explodiu, experimentando uma surreal volta-dos-que-mal-tinham-ido… O Jota Quest também teve seus dias de epidemia feito gripe espanhola (no caso, brasileira), Los Hermanos passaram por uma fagulha de reconhecimento nacional irrestrito (e logo se assustaram com ela), a renegada “Anna Júlia”. Do mesmo substrato que deu origem aos Mamonas, a classe média baixa paulista, veio a banda santista Charlie Brown Jr. Nada disso, porém, se equivale à montanha-russa mamônica.

Na reportagem de capa sobre a tragédia que abateu o grupo, a revista Veja apontava como “fator curioso” o fato de ele não se filiar a nenhum estilo musical. Bola fora. Os Mamonas parodiavam pagode, sertanejo, brega, heavy metal e o que mais aparecesse, sim. Mas sua matriz sempre foi roqueira, do gosto musical dos integrantes à formação guitarra, baixo, bateria e teclado. Eles apenas não eram xiitas ou hipersuperantenados com os últimos flatos londrinos ou nova-iorquinos. Os sete anos como sub-Legião Urbana não negam de onde eles vieram: o subúrbio dos jovens pouco informados, pouco articulados e pouco sofisticados, que, desde o fim dos anos 80, hospeda a maior parte do rock brasileiro. Gente fina, elegante e cínica prefere música eletrônica, maracatu, samba ou algum ritmo de “raiz” (e bota aspas nisso).

As condições econômicas daquela época, virada de 1995 para 96, ainda estão por se repetir no Brasil. Vivia-se naquela altura do Plano Real um período de bonança artificial semelhante ao do “milagre” da ditadura e do Plano Cruzado, uma prise de cheirinho-da-loló a embriagar as classes B e C. Com o atual estado das coisas na indústria fonográfica, só um louco pode prever números mamônicos se repetindo nos próximos seis anos. Nem com uma intervenção divina, Jesus Cristo baixando no Espírito Santo e gravando um disco de duetos com Roberto Carlos e o Padre Marcelo em Cachoeiro do Itapemirim…

Mas o verdadeiro milagre que o rock brasileiro conseguiu pela última vez com os Mamonas foi conquistar o público infantil. Arrebatar a molecada. Naquela mesma Veja, Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, apontava a importância de conquistar os públicos infantil e adolescente, que determinam os hábitos da casa. No fim das contas, o vazio que ninguém soube ocupar desde 1996 diz mais a respeito da qualidade dos Mamonas do que dos descaminhos do pop rock brasileiro de lá para cá.

Passados oito anos, é impressionante rever o DVD MTV na Estrada do grupo e rir novamente, gargalhar, atestar a eficácia das músicas e das piadas, o carisma, o timing, a presença de espírito do vocalista Dinho… Poucos artistas souberam reunir humor popular, filiado às escolas radiofônicas de várias décadas, com referências pop. Dinho somava isso tudo a uma performance cênica cartoonesca, entre o Pernalonga e o Taz, o diabo-da-tasmânia.

Odiados em vida por boa parcela dos formadores de opinião, críticos e roqueiros que se levam a sério, os Mamonas passaram os últimos meses de sua vida nos braços do povo. Mortos, estão há quase nove anos sem o reconhecimento merecido. Já foram feitas reportagens sobre uma suposta maldição envolvendo o grupo. Prefiro transcrever um diálogo que tive com dois mamonas…

Sérgio: “O avião em que costumávamos viajar caiu em Brusque, Santa Catarina, em novembro. Morreram três pessoas. Falha humana. O cara que vendeu as camisetas da banda em Porto Seguro, Bahia, bateu com o carro depois do show e também embarcou”.

Bento: “É, existe uma maldição Mamonas. Todo mundo que faz entrevista com a gente morre”.

Eu: “Bacana!”

Os caras eram bons mesmo…