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MTV: Bola pro mato

Texto Silvio Essinger

Desde Tony e Celly Campello o pop rock brasileiro anda de mãos dadas com a televisão. No final da década de 90, entretanto, a Music Television brasileira se solidifica como marca de comportamento jovem e transforma seus VJs em artistas e os artistas da música em seres polivalentes, que agora têm de, literalmente, suar muito mais do que de costume para aparecer

Vejam só: um dos grandes sucessos do punk pop americano de 2004, a música “1985”, do grupo Bowling For Soup, fala de uma dona-de-casa que diz sentir saudade daqueles tempos em que, entre outras coisas, “ainda havia música na MTV”. Pois é: para uma geração que cresceu hipnotizada por videoclipes cujos efeitos especiais hoje podem ser considerados no máximo cômicos, tudo ficou muito estranho a partir do final dos anos 90. Os clipes evoluíram, as superproduções se multiplicaram, muitos músicos saíram dos subterrâneos para as telinhas, a indústria fonográfica só fez crescer, mas, de repente, a música deixou de ser a estrela na Music Television. A invasão dos reality shows e programas de auditório no espaço cativo dos clipes não poupou nem mesmo a filial brasileira. O universo emetevístico aproximou-se do global, de atores e novelas, salpicando de vozes e rostos conhecidos programas e eventos como o Video Music Brasil. Por outro lado, em uma terra tão sui generis quanto a nossa, as adaptações foram muito além do que poderia supor a matriz, rendendo, por exemplo, um programa em que um VJ achincalhava os próprios clipes da emissora (Piores Clipes do Mundo). E, a partir de 1995, a música pop se aproximou de outra grande paixão nacional e dessa união surgiu um dos programas de maior longevidade e audiência da emissora: o Rockgol.

De repente, não cabia mais aos músicos dar o melhor de si no palco, no estúdio ou onde quer que fossem focalizados nos clipes. Eles tinham de dar o melhor – ou, em alguns casos, o pior – dentro das quatro linhas do gramado. Assumindo a vocação peladeira de todo brasileiro, músico ou não, a MTV apostou no espetáculo que os craques da música poderiam proporcionar com uma bola nos pés, nas mãos, na cabeça ou onde conseguissem. Toda uma geração da música jovem – roqueiros, popeiros, pagodeiros, rappers, forrozeiros universitários – de uma forma ou de outra esteve representada no Rockgol, esse espetáculo de descontração e mau futebol que uniu facções musicais afins de uma forma que não se via… sabe lá, desde as tardes de domingo de Roberto, Erasmo e Wanderléa. “Diferentemente de quando se coloca artistas cozinhando ou surfando, no Rockgol eles não estão atuando. Eles fazem a coisa de verdade, se matam, brigam. Os caras querem jogar por jogar”, analisa Cacá Marcondes, que dirigiu o programa durante boa parte de seus dez anos de existência. “Não é só para divulgar a banda, porque eles são mais motivo de piada do que de elogio.”

Do primeiro ano de Rockgol até hoje, muitas adaptações tiveram de ser feitas. Primeiro, desistiu-se da idéia de misturar ex-jogadores profissionais aos músicos. Depois, baniu-se dos times os empresários e roadies, que eventualmente elevavam o nível do futebol – só entravam aqueles que apareciam nos videoclipes ou comprovadamente tocavam nos discos (mais tarde, os integrantes de cada time seriam escolhidos por sorteio, para evitar as panelinhas). E veio então, em julho de 1997, a idéia de chamar Paulo Bonfá e Marco Bianchi, do grupo de humoristas de rádio Sobrinhos do Ataíde, para narrar os jogos. Começava aí uma nova era para o rock nacional.

Ótimos parodistas dos narradores de futebol, Bonfá e Bianchi começaram a fazer graça aplicando o jargão dos comentaristas às atrocidades cometidas pelos músicos em campo. Nem mesmo quem jogava direito escapava, como os músicos do Skank (que já se apresentavam com camisas de times de futebol antes do advento do Rockgol), Cannibal (da banda recifense Devotos), Alexandre Carlo (da brasiliense Natiruts), Toni Platão, Evandro Mesquita e Supla. Já os que se destacavam pela hilária falta de habilidade futebolística, como André Abujamra, Rappin’ Hood (que certa vez foi bater um lateral e errou a bola!) e o goleiro Nasi, eram um prato cheio para as brincadeiras da dupla.

À frente do Rockgol, Bonfá e Bianchi conseguiram inverter as leis que regem o showbiz, transformando em celebridades os músicos que tradicionalmente seriam os mais apagados de suas bandas. Foi assim com o baterista do grupo gospel Catedral, Guilherme, que por causa de seus cabelos brancos acabou apelidado de “Tiozão do Churrasco”. E com o DJ de Gabriel o Pensador (e mais tarde do Detonautas), Cleyston. Ou melhor, “Clééééston!”, goleiro dos bons, vítima das mais insistentes gozações dos narradores. “Foi bom para dar uma divulgada no Detonautas”, admite o próprio DJ. “E é legal porque o Rockgol reúne boa parte das bandas em atividade num lugar só. De vez em quando, rolam até umas jams depois dos jogos”, conta o rapaz, que já treinou no time da Portuguesa (do Rio de Janeiro) e, nos campeonatos da MTV, jogou em combinados como o Barão Negro (Barão Vermelho + Cidade Negra) e Dado e o Reino Animal (liderado pelo ex-guitarrista da Legião Urbana, Dado Villa-Lobos). Ou seja: entre vencedores e vencidos, salvaram-se todos.

Ou melhor, quase todos. Houve quem levasse a sério demais as gozações desses narradores-humoristas (que em 2003 passaram a ancorar uma edição dominical do Rockgol em formato de mesa-redonda sem-noção-e-com-muito orgulho). Foi o caso do vocalista do Cidade Negra, Toni Garrido, que não gostou nada de ver suas insistentes reclamações ironizadas pela dupla e foi tirar satisfações – acabou ganhando o apelido de “Chiliquenta”, repetido a toda hora, como uma provocação que testou os limites desse rasta teoricamente pacífico. “Se o Toni não gostou da brincadeira, é melhor não participar. Não dá para fazer concessões”, opina Cacá Marcondes, para quem o Rockgol virou uma espécie de programa obrigatório para os artistas do rock brasileiro. “Eles têm de ficar pelo menos uma semana sem trabalhar para poder participar. Mas a maioria faz com muito gosto.”