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Musuca Eletrônica: O mundo é um toca-discos

Alimentada no underground por casas da periferia,a música eletrônica feita no Brasil veio à tona disputadapor grandes corporações e ouvida em todo o planeta

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h50 - Publicado em 31 out 2004, 22h00

Texto Camilo Rocha

O Autódromo de Interlagos já tinha presenciado muita aceleração, mas não daquele tipo. Alguns milhares de seres coloridos estão divididos em quatro grandes tendas subindo várias marchas nos seus câmbios mentais e físicos, encorajados por batidas retumbantes. É junho de 2000 e o evento é o Skol Beats, o primeiro festival brasileiro de música eletrônica. A cena eletrônica nacional tinha virado coisa séria, de gente grande, norte para a vida de milhares de jovens e alvo natural do interesse das megacorporações.

Num ritual que se repetiria nas próximas quatro edições do festival, a tenda que mais atraiu gente foi a de drum’n’bass. Natural. Se houve um gênero de música eletrônica que repercutiu no ouvido do brasileiro foi o drum’n’bass. Ajuda a explicar o fato de que seus maiores expoentes vieram de bairros fora do cinturão central da capital paulista, fazendo uma multidão de clubbers periféricos se identificar com eles: Marky veio de Guarulhos, Patife de Cidade Dutra, XRS e Ramilson Maia da Vila Alpina e Andy de Sapopemba. Outra explicação pode ser que esse estilo, de batidas quebradas, se presta mais a se misturar com pop, rock e MPB.

Os gringos não sabiam de nada disso. Mesmo assim, eles adotaram e adoraram nosso drum’n’bass, sob os auspícios de Marky e Patife. Porque, independentemente de qualquer teorização de botequim, o fato é que Marky e Patife são DJs fenomenais, ponto. Eles próprios tinham tanta certeza disso que resolveram bancar do próprio bolso uma viagem para Londres, em 1998, para ter contato com os produtores e DJs que inspiraram seu trabalho.

Em alguns anos, eles tinham estabelecido uma ponte São Paulo–Londres regular com a ajuda, entre outros, do DJ e produtor britânico Bryan Gee, dono do selo V Recordings e de uma noite chamada Movement. Gee fez bem em apostar nos meninos: o drum’n’bass de sotaque brazuca estourou mundo afora, culminando no single “LK (Carolina Carol Bela)”, produção de Marky e XRS que cita Jorge Ben e chegou à 17a posição na parada britânica em 2002. O single é o mais bem colocado de um artista brasileiro em toda a história da parada britânica. Um rótulo surgiu, “Brazilian drum’n’bass”, para diferenciar nossa vertente, mais ensolarada e com referências ao legado da MPB/bossa nova, do ronco sombrio que predominava nos discos saindo da matriz londrina.

As portas estavam abertas. O timing foi perfeito. Nos últimos anos, com o pentacampeonato de futebol, a euforia com Ronaldo, o interesse na eleição do presidente Lula, o sucesso de Gisele Bündchen, o êxito do filme Cidade de Deus e a moda das camisetas verde-amarelas na Europa, a música eletrônica nacional caiu como uma luva no papel de trilha sonora desse Brasil globalizado (a própria trilha de Cidade de Deus foi remixada por uma legião de artistas nacionais).

Em 2003, foi a vez de Renato Cohen, DJ e produtor paulista de techno que estourou com a faixa “Pontapé”. Embora não tenha tido o sucesso pop de “Carolina…” ou mesmo dos hits radiofônicos de Patife como “Sambassim”, resultou em devastação por pistas de dança ao redor do planeta, sendo licenciada para dezenas de compilações e fazendo de Renato um DJ internacional de verdade.

Entre apresentações e vinis lançados no Velho Mundo, surgiram nomes como Mau Mau, Anderson Noise, Murphy, Pet Duo, Paula, Renato Lopes, Philip Braunstein, DJ Dolores, Lukas, Wrecked Machines, Rica Amaral, Drumagick e Andy. Ao mesmo tempo, faz uns bons três anos que não passa uma semana sem que um DJ, produtor ou grupo eletrônico estrangeiro se apresente pelo Brasil. Um intercâmbio legítimo se estabeleceu.

Abrindo pistas

Os primeiros DJs brasileiros a investir na nova música eletrônica (representada pelos gêneros house e techno e, em seguida, pelo fenômeno da acid house em Londres e Ibiza) remontam a 1987/88. Eram Marquinhos MS, Mauro Borges e Renato Lopes (estes dois residentes do Nation Disco Club, na Rua Augusta, em São Paulo, o marco zero dos clubes da geração eletrônica). Enquanto isso, no Rio de Janeiro, a seqüência Crepúsculo de Cubatão/Kitschnet representava as novas tendências no balneário com Zé Pedro (sim, ele mesmo), Felipe Venâncio e José Roberto Mahr rodando as bolachas.

Renato se juntaria a Mau Mau (discípulo de Marquinhos MS) no Sra. Krawitz, um inferninho que apresentava as novidades mais radicais (para a época) do som eletrônico. Na imprensa, a coluna Dance Music, na revista Bizz, abria à base de machete um espaço num panorama pop dominado por rock, enquanto a coluna Noite Ilustrada, de Erika Palomino, na Folha de S.Paulo, apresentava os boletins de um mundinho ainda restrito e povoado de drag queens, DJs e descolados.

Na zona leste de São Paulo, a força de casas como Overnight e Toco criava um forte interesse em torno de DJs e da dance music em geral que logo seria transformado em opção de vida por nomes como Julião, Erik Caramelo e todo o pessoal de drum’n’bass citado lá atrás. A Sound Factory, na Penha, virou o templo e modelo dessa nova moçada que estava ouvindo uma discotecagem tão atual quanto o povo que freqüentava as noites dos Jardins.

Em meados da década, dois fenômenos deram o empurrão que faltava para a cultura eletrônica abrir seus horizontes e iniciar sua dominação sem volta. Inicialmente, veio o Hell’s Club, promovido por Pil Marques (hoje DJ) e com Mau Mau como residente. Primeiro after hours do Brasil, voltado exclusivamente ao techno (era o início da segmentação que viria a dominar as noites da cena por anos a fio), o Hell’s conseguiu reunir sob o mesmo teto figuras que iam de ex-metaleiros a playboys, passando por figurões do rock dos anos 80 como Edgard Scandurra e Dinho Ouro Preto, que também simpatizaram com os gêneros eletrônicos.

No final de 1995, foi organizada a primeira rave, um tipo de festa realizada na zona rural ou em praias, longe da vigilância da cidade. Eram noites à margem de qualquer regra, que acabaram arrebanhando toda uma nova população, que ainda se sentia intimidada com a atitude dos clubes, para a música eletrônica brasileira.

2000

JANEIRO

• O temido Bug do Milênio não acontece.

• America Online e Time Warner anunciam fusão bilionária.

MARÇO

• O Playstation 2 é lançado no Japão.

• Poluição mata 132 toneladas de peixe na Lagoa Rodrigo de Freitas.

• Nicéa Pitta denuncia o prefeito de São Paulo, Celso Pitta, seu ex-marido, por corrupção.

ABRIL

• O Metallica processa o Napster.

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JUNHO

• Guga é bicampeão de tênis em Roland Garros.

• Wilson Simonal morre, aos 61 anos.

• Um homem armado faz dez reféns no ônibus 174, no Rio de Janeiro. Depois de 4 horas (transmitidas ao vivo pela TV), o seqüestro terminou com a morte do bandido e de uma das reféns.

SETEMBRO

• Início dos Jogos Olímpicos de Sydney.

• Morre o violonista Baden Powell.

2001

JANEIRO

• O Rock in Rio por um Mundo Melhor sofre boicote massivo de artistas brasileiros.

• Depois de controversa apuração de votos, George W. Bush é reconhecido como novo presidente americano.

FEVEREIRO

• Herbert Vianna e sua mulher, Lucy, sofrem acidente de ultraleve. O músico fica paraplégico, mas sua mulher não sobrevive.

JUNHO

• Morre Marcelo Frommer, dos Titãs, atropelado por uma moto.

JULHO

• Justiça obriga o Napster a “fechar”.

SETEMBRO

• Atentado terrorista contra os Estados Unidos destrói o World Trade Center e deixa mais de 3 mil mortos.

NOVEMBRO

• Marcelo Yuka, baterista do Rappa, é baleado e fica paraplégico.

• Morre George Harrison.

DEZEMBRO

• Morre a cantora Cássia Eller.

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