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O medíocre cinema brasileiro

A desculpa mais esfarrapada é a de que o cinema americano faz concorrência desleal aos cineastas pátrios.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h49 - Publicado em 31 mar 2002, 22h00

Álvaro Oppermann

Não é por falta de apoio que o cinema brasileiro é ruim. Afinal, a dita “ressurreição” do nosso cinema pós-era Collor se deu com a recepção entusiástica de um filme pífio: Carlota Joaquina. Outro filme, apenas mediano, Central do Brasil, foi elevado à condição de obra-prima e levou multidões às salas de projeção. O público brasileiro é ou não é uma mãe para o cinema nacional?

Apesar disso, os nossos cineastas falam em um “complô do público” contra o cinema produzido por aqui: ele seria um dos responsáveis pelo nosso fracasso cinematográfico. Outra queixa muito comum é a de que não existe no Brasil uma política cinematográfica governamental. Errado. De 1951, com a criação do Instituto Nacional de Cinema por Getúlio Vargas, passando pela Embrafilme, cria da junta militar em 1969, e pelas leis federais de incentivo à cultura nos anos 80 e 90 (Lei Sarney, Lei Rouanet), chegamos ao recém-nascido frankenstein do governo Fernando Henrique, a Agência Nacional de Cinema (Ancine). Ou seja: são 50 anos de planificação e incentivo oficial para o desenvolvimento de uma indústria cinematográfica brasileira.

A outra justificativa para a nossa incompetência é a de que não existem recursos técnicos e financeiros para que se possa fazer bom cinema aqui. Errado de novo. Desde meados dos anos 80 – acho que em função do boom do filme publicitário –, o nosso corpo técnico se qualificou, se profissionalizou. A boa qualidade da propaganda brasileira derruba essa desculpa para a nossa tibieza cinematográfica. Sobre a falta de dinheiro, ela nunca impediu que ótimos filmes fossem feitos ao redor do mundo. (Veja as primeiras produções da Nouvelle Vague no fim da década de 50. Ou hoje o cinema feito por bósnios e iranianos.)

A desculpa mais esfarrapada é a de que o cinema americano faz concorrência desleal aos cineastas pátrios. Descontado o caso dos curta-metragens nos anos 70 – o lobby dos estúdios de Hollywood fez pressão para que os nossos curtas não passassem nos cinemas antes de filmes americanos –, o cineasta brasileiro não tem do que se queixar dos americanos. Hoje eles até estão se associando a nós: a Columbia e a Warner, por exemplo, deram-se conta de que o cinema nacional pode dar lucro.

É infrutífero tentar arranjar álibis para a nossa falta de jeito para o cinema. Melhor seria lembrar aquele velho cartum dos anos 60, que mostrava um sargento do Exército americano reunindo os soldados e dizendo: “Rapazes, descobri o nosso inimigo. Somos nós mesmos”.

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O inimigo do cinema brasileiro tem nome: uma doença chamada brasilidade. Quem fez um brilhante diagnóstico dessa doença foi o filósofo Olavo de Carvalho em O Imbecil Coletivo (1996) e O Futuro do Pensamento Brasileiro (1997). Segundo Carvalho, o que distingue a cultura brasileira de todas as outras é o esforço obsessivo na definição do que é genuinamente nacional. Em sua forma mais radical, nega o direito de cidadania a obras que não tenham uma “cor nacional”.

A busca de uma identidade nacional pode até ter seus méritos. Não notamos, entretanto, que ela só é importante para nós, não para o resto da humanidade. A importância de uma obra de arte brasileira não pode e não deve ser medida por sua maior ou menor brasilidade, mas por sua universalidade. Ninguém lê, a não ser por interesse erudito, as peças de Shakespeare para conhecer o espírito da Inglaterra elisabetana. Não se assiste aos filmes de Andrei Tarkovski para conhecer a União Soviética das eras Kruschev e Brezhnev. Lemos Shakespare e assistimos a Tarkovski para nos conhecermos.

Na literatura brasileira, o local e o universal conseguiram se harmonizar e deram magníficos frutos em Machado de Assis, por exemplo. Já o nosso cinema está em luta permanente. Fazer de cada um de nossos filmes um “espelho do Brasil” é não só um esforço fútil, mas também um esforço inútil. É uma tarefa tão pesada que acaba consumindo o melhor da inteligência do criador. Em nome da brasilidade, o Brasil renegou dois cineastas que poderiam ter dado uma enorme contribuição artística para o nosso cinema: Mario Peixoto e Alberto Cavalcanti. Em nome da brasilidade, engessamos e inibimos a nossa criatividade.

Os cineastas brasileiros deveriam parar de se preocupar em “capturar o Brasil” em seus trabalhos. Isso é secundário. Deveriam se preocupar com aquilo que rende bom cinema: o roteiro, a direção de atores, o cuidado formal no artesanato do filme. Se o principal for atingido, a brasilidade virá como conseqüência. Quando o cinema brasileiro aprenderá essa lição?

* Publicitário, escreve semanalmente sobre cinema na coluna “Cinemascope” da Superonline

Frase

“O cinema nacional é ruim porque se esforça em parecer brasileiro”

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