O que é “meditação transcendental”, que David Lynch praticava e queria implementar no Brasil
O cineasta revolucionou o cinema – e tentou também revolucionar a educação no Brasil com a ideia de implementar a meditação transcendental nas escolas.

David Lynch, um dos diretores mais importantes da história do cinema, morreu aos 78 anos nesta quinta (16). Ele faleceu depois de ser diagnosticado com um enfisema pulmonar, provavelmente agravado pelas sete décadas de tabagismo do cineasta (ele mesmo disse que começou a fumar aos oito anos).
Lynch tinha um estilo surrealista e onírico em seu trabalho na televisão, como a série clássica Twin Peaks, e em filmes fantásticos como Mulholland Drive e Veludo Azul, que revolucionaram o cinema independente. Na mesma década que ele despontou como um autor proeminente do cinema, os anos 1970, ele conheceu outra paixão: a meditação transcendental.
A meditação transcendental é uma forma de meditação silenciosa desenvolvida pelo Maharishi Mahesh Yogi, o líder espiritual indiano que foi guru dos Beatles e dos Beach Boys. A técnica é espiritual, mas sem ligação a nenhuma religião específica, e envolve a repetição silenciosa de um som ou um mantra durante 15 a 20 minutos, duas vezes por dia.
O método é ensinado por professores certificados, e o movimento da meditação transcendental afirma que a prática pode promover alívio ao estresse e abrir a porta para um estado de consciência elevado.
A técnica é diferente da meditação mindfulness (que foca em esvaziar a mente e desenvolver uma atenção plena), da meditação vipassana (que vem do budismo indiano e foca em autoconhecimento e na obediência a um código de disciplina) e da meditação zazen (que vem do zen-budismo japonês e requer uma posição correta do corpo para focar nas percepções corporais).
Não há consenso científico sobre o efeito da meditação transcendental na saúde. Há estudos que indicam que a prática pode contribuir para reduzir a pressão arterial no decorrer da vida, mas não há evidências definitivas de que ela ajude a diminuir o estresse e a ansiedade ou que seja mais eficaz que outras formas de meditação.
Para Lynch, a prática funcionava e era importante em seu processo criativo, como ele descreveu no livro Em Águas Profundas – criatividade e meditação. A ideia do diretor é que a meditação ajuda a pescar peixes em águas profundas, e as melhores ideias saíam das profundezas da consciência.
Ele levava o negócio tão a sério que veio para o Brasil em 2008 para tentar convencer o presidente Lula a implementar a meditação transcendental nas escolas.
Lynch no Brasil
Em 2005, o cineasta criou a Fundação David Lynch para Educação Baseada em Conscientização e Paz Mundial. A ideia do instituto era incentivar a meditação transcendental nas escolas, e depois foi ampliada para divulgar a prática para populações em risco, como pessoas em situação de rua, veteranos de guerra, prisioneiros e refugiados de guerra na África.
Em agosto de 2008, Lynch passou nove dias no Brasil em eventos para divulgar seu livro sobre meditação e a prática, por meio da Fundação David Lynch.
Uma notícia do jornal O Globo da época conta que um dos objetivos do cineasta para a viagem era conversar com o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre criar uma universidade no Brasil com todos os cursos normais e com duas seções de meditação transcendental por dia. Ele também queria incluir a prática em todas as escolas, para livrá-las do “estresse e toda a violência”.
Lynch não conseguiu encontrar com Lula, que estava de saída para a abertura das Olimpíadas de Pequim. O que ele conseguiu fazer foi discursar para mais de 5 mil crianças em Belo Horizonte e participar do programa de entrevistas Roda Viva, da TV Cultura. A Fundação David Lynch tem uma filial no Brasil, com escritório na Avenida Paulista em São Paulo.