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O valor de Paulo Coelho

O escritor brasileiro, sucesso planetário com romances como Diário de um Mago e O Alquimista, é uma celebridade .

Leandro Sarmatz

É muito fácil não gostar de Paulo Coelho, o mais novo imortal da Academia Brasileira de Letras. O escritor brasileiro, sucesso planetário com romances como Diário de um Mago e O Alquimista, é uma celebridade brasileira 100% exportação. Uma espécie de Pelé, ou Gisele Bündchen, do mercado livreiro. O ex-presidente americano Bill Clinton gosta dele. Jacques Chirac, da França, idem. As obras de Paulo Coelho podem ser encontradas em qualquer livraria de São Paulo, Bruxelas ou Jerusalém. Versões piratas são vendidas aos magotes em árabe e chinês. Um sucesso que nem Jorge Amado em seus dias stalinistas, com tiragens superiores a um milhão de exemplares na finada URSS, logrou alcançar.

Ninguém precisa ser um crítico literário para detectar a pobreza franciscana dos textos de Paulo Coelho. Mesmo assim, a crítica insiste em malhá-lo impiedosamente. Enchendo os tubos de dinheiro e desfilando sua glória pop pelos cinco continentes, este carioca nascido em 1947 é enxovalhado nos suplementos culturais das maiores publicações brasileiras e alvo de desprezo acadêmico. Seus detratores chovem no molhado: a constatação de seus parcos recursos literários há muito deixou de ser notícia.

Esse ódio e esse desprezo ao escritor brasileiro de maior sucesso na atualidade têm qualquer coisa de intrigante. Mas para quem é atento para a relação entre cultura e sociedade, aí tudo muda de figura. Num país parcamente alfabetizado, com bibliotecas públicas desatualizadas e aos destroços, em que a leitura não costuma fazer parte do cotidiano e onde a televisão responde pela maior parcela de “esclarecimento” da população, é até uma boa notícia que um autor de livros de ficção seja tão avidamente consumido.

Além disso, os romances, a despeito da chorumela esotérica, tratam de assuntos que fazem parte do cotidiano da humanidade há milhares de anos: a eterna busca de um sentido para a vida, a conquista de uma existência construtiva, o valor da esperança para muitas pessoas. Quem torce o nariz para o autor de Brida deveria agradecê-lo por não fundar mais uma igreja caça-níqueis dessas que nos infestam. Seu negócio, por incrível que pareça, é apenas literatura. Paulo Coelho não parece ter vocação para camelô do credo alheio.

Grande parte de seus detratores, porém, odeiam-no justamente por um motivo que deveria ser ocasião para comemorar. Fora do ambiente universitário, a literatura em língua portuguesa sempre teve pouca divulgação no resto do mundo. E não é que um autor brasileiro consegue a façanha de, em pouco mais de uma década, dispor de um atento auditório planetário? Assim como ocorreu com Carmen Miranda, o sucesso de um brasileiro lá fora geralmente vem acompanhado de supremo desconforto em terras tupiniquins.

Dizem que odiamos o sucesso de um compatriota, e é verdade. Com seu “complexo de vira-lata” (como definiu Nelson Rodrigues), o brasileiro abomina a glória do vizinho. Talvez seja (mais) uma herança da Contra-Reforma, que desautorizava o lucro e fazia pouco caso para o êxito individual. Daí que o sucesso acabou sendo encarado como um pecado – ou, no mínimo, como uma forma pouco honrosa de conseguir as coisas no país do jeitinho e dos privilégios de família.

No caso da literatura, é um enigma que não tenhamos, com tanta gente escrevendo e publicando, um mercado forte de literatura. Vistos sem preconceito, best-sellers como os de Paulo Coelho ajudam, no mínimo, a capitalizar as editoras, possibilitando o surgimento de outros escritores e profissionalizando o mercado. (E foi justamente isso que aconteceu com as duas editoras – a antiga e a atual – de Paulo Coelho. Graças aos dividendos trazidos pelo autor brasileiro, sua atual editora pode se dar ao luxo de editar as obras de Harold Bloom, um dos maiores e mais refinados críticos literários da atualidade.)

Outra coisa: até a metade dos anos 80, os campeões de vendas nas livrarias brasileiras ostentavam sobrenomes como Benitez ou Steel. A explosão de Paulo Coelho desestabilizou a nosso favor a balança da literatura comercial brasileira. Literatura é um patrimônio universal, desconhece o conceito de nação, mas é um fato digno de atenção a existência de um autor brasileiro sendo desfrutado em dezenas de idiomas. Seria o momento certo de, a partir da consagração do nosso primeiro e único autor globalizado, divulgarmos com o devido alarde a literatura produzida no Brasil. Seja Machado de Assis, João Ubaldo Ribeiro ou mesmo Paulo Coelho. Embora, é claro, ele não precise mais desse empurrãozinho. Já é um sucesso.

Frase

“A glória do autor de Brida é incômoda porque o Brasil não tolera o sucesso”