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Onde tudo começou

Lançado há mais de cem anos, a Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, popularizou tudo o que os ufólogos vêem no céu. Agora o clássico volta à cena em uma superprodução de Steven Spielberg

Leandro Steiw

Com a estréia nos cinemas de Guerra dos Mundos, do diretor Steven Spielberg, a mais importante obra de ficção científica dos nossos tempos volta a ser comentada em todo o planeta. Lançado em 1898, o romance homônimo do inglês Herbert George Wells tem versões em dez línguas, foi adaptado para o cinema três vezes, rendeu uma polêmica esquete de rádio de Orson Welles (veja na página 72) e ganhou diversas releituras em quadrinhos. Por que um livro exerce tanto fascínio mais de um século depois de publicado? Porque H. G. Wells foi o primeiro escritor a usar a ficção científica para criticar a sociedade de sua época. Quem decifrou a metáfora entendeu que tinha em mãos muito mais do que uma aventura de alienígenas e naves espaciais. A Guerra dos Mundos tornou-se um arrepiante relato da nossa fragilidade no Universo. Se hoje existe a ufologia, a largada foi dada por Wells.

Naquele final de século 19, a Inglaterra era a grande potência mundial. A rainha Victória enviava seus exércitos para a África e garantia a expansão do Império Britânico. Os marcianos que invadem a Terra, passando por cima de homens e mulheres, são os próprios ingleses tomando posse das terras dos africanos. Os humanos não compreendem tamanha brutalidade dos ETs. Eis o que diz Wells, já no primeiro capítulo de seu livro: “Antes de julgá-los com demasiada severidade, devemos nos lembrar das destruições totais e implacáveis que nossa própria espécie empreendeu, não apenas contra os animais, como os extintos bisões e dodôs, mas contra as raças humanas inferiores. Os tasmanianos, apesar de sua configuração humana, foram totalmente varridos da existência, num período de 50 anos, numa guerra de extermínio empreendida pelos imigrantes europeus. Somos por acaso tamanhos apóstolos da misericórdia para podermos nos queixar de que os marcianos tenham feito a guerra no mesmo espírito?”. Uma senhora patada no orgulho britânico.

A Guerra dos Mundos estreou como folhetim, publicado em nove partes entre abril e dezembro de 1897 na revista inglesa Pearson’s Magazine. Em maio do mesmo ano, a revista americana Cosmopolitan lançou o texto nos Estados Unidos. A história foi um sucesso de público e ganhou versão em livro em fevereiro do ano seguinte. O impacto foi tremendo. Numa época em que aviões, raio laser e viagens espaciais eram só promessas de cientistas sonhadores, os leitores ficaram arrepiados com a possibilidade de seres de outros mundos estarem mesmo de olho na Terra. A humanidade preparava-se para a virada do século, período em que costumam aparecer profetas do apocalipse. Embora não fosse essa a intenção de Wells, a destruição de A Guerra dos Mundos foi interpretada pelas pessoas mais assustadas como um relato perfeito do juízo final.

Os jornais dos Estados Unidos ficaram doidos com a história. Em janeiro de 1898, o New York Evening Journal publicou uma pretensa continuação da aventura de Wells, chamada Edison’s Conquest of Mars (A Conquista de Marte de Edison), escrita por Garrett P. Serviss. Nesse plágio escancarado de A Guerra dos Mundos, Thomas Edison – o mesmo que inventou a lâmpada elétrica – embarca numa nave espacial para se vingar dos marcianos que invadiram a Terra e foram mortos por nossas bactérias. Os terráqueos não falham e exterminam a raça alienígena do planeta vermelho.

TRAÇOS BRASILEIROS

A primeira edição de A Guerra dos Mundos foi ilustrada pelo inglês Warwick Goble, mas os desenhos preferidos de Wells foram de autoria de um brasileiro que morava na Bélgica, o carioca Henrique Alvim Corrêa. O artista viajou para Londres, em 1903, para apresentar rascunhos que fizera após ler a versão francesa do livro. Wells gostou tanto do trabalho que convidou Corrêa para ilustrar a edição de luxo lançada em 1906 pela editora belga L. Vandamme. São 31 gravuras que pertencem ao antiquário fluminense Sebo Fino e estão expostas temporariamente no Museu e Hall da Fama da Ficção Científica, nos Estados Unidos.

O cinema não ficaria indiferente à história de Wells. O primeiro filme, dirigido por Byron Haskin, é considerado uma das melhores películas de ficção científica. Nessa versão de 1953, a produção ignorou boa parte das lições morais de Wells e transformou a história numa aventura tecnológica. O brilhante e charmoso doutor Clayton Forrester (vivido pelo ator Gene Barry) engata um discreto romance com a lindona Sylvia Van Buren (Ann Robinson). Fora a chegada dos marcianos e a vitória das bactérias, pouca coisa sobrou do texto original.

A versão de Steven Spielberg para A Guerra dos Mundos, lançada no final de junho, tem pelo menos um ponto em comum com o livro: trata-se da invasão da Terra sob o ponto de vista dos refugiados, particularmente do personagem de Tom Cruise. Com as novas invenções e as descobertas da ciência, o mundo mudou radicalmente nos últimos cem anos e o que assustava em 1898 não cola mais no século 21. Por isso, os alienígenas não são do inabitado planeta Marte, o poder de destruição extraterrestre cresceu e há muito mais gente correndo de um lado para o outro nas ruas. O cenário é contemporâneo.

O charme da história de Wells, pelo menos, está garantido em uma produção paralela do diretor Timothy Hines. A versão de Hines, a ser lançada também neste ano, é uma reprodução fiel do livro: a ação ocorre na Inglaterra vitoriana, os vilões vêm de Marte e eles acabam sendo aniquilados pelas bactérias terrestres.

Com tanta adrenalina que vem por aí, vai ser difícil ficar indiferente à Guerra dos Mundos em 2005. Leia o livro e assista aos filmes. É uma boa oportunidade para tentar entender como surgiu essa curiosidade humana pelo extraterreno. Se alguém merece culpa por enriquecer o imaginário popular, esta pessoa é H. G. Wells.

“Antes de julgá-los com demasiada severidade, devemos nos lembrar das destruições totais e implacáveis que nossa própria espécie empreendeu, não apenas contra os animais, como os extintos bisões e dodôs, mas contra as raças humanas inferiores”

trecho de a guerra dos mundos, de H. G. Wells

Ficção e realidade

Nossos vizinhos preferidos

Marte é um planeta árido, cheio de crateras e nunca esteve a menos de 56 milhões de quilômetros da Terra. Como é que um lugar sem graça desses inspirou tantas histórias de ficção científica? A explicação talvez remonte a 1877, quando o astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli observou uma rede de canais na superfície marciana, que foi interpretada por alguns cientistas como estruturas artificiais de irrigação. Com teorias desse tipo, que outro lugar poderia alimentar tanto a imaginação dos escritores? H. G. Wells não ficou indiferente e também brincou com os marcianos. Em 1897, quando publicou A Guerra dos Mundos na forma de folhetim, o planeta fervia com as recentes invenções do homem: o telefone (1876), a lâmpada elétrica (1879), o automóvel (1885), o rádio (1896). Wells era um sujeito antenado. Tudo o que os marcianos do seu livro possuíam na fictícia invasão da Terra seria inventado pelo homem nos anos seguintes: o segredo de voar (avião, em 1906), o raio de calor (raio laser, em 1960) e a máquina de manipular (robôs, em 1961). Mas Wells temia o uso destrutivo das novas invenções e viveu o suficiente para descobrir que tinha razão. Em 1915, a Alemanha usou armas químicas contra os franceses na Primeira Guerra Mundial. Em 1945, os Estados Unidos jogaram duas bombas atômicas sobre o Japão, no lance final da Segunda Guerra. A primeira frase do capítulo 6 do livro de Wells soa profética: “Ainda é motivo de espanto o modo como os marcianos são capazes de matar gente tão rápida e silenciosamente”. Quando morreu, em 1946, Wells já tinha perdido a confiança no ser humano.