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Os brasileiros que já foram indicados para o Nobel de Literatura

Você conhece Jorge Amado e Drummond. Mas já ouviu falar do esquecido Coelho Neto? Ou de Alceu Amoroso Lima?

Por Bruno Vaiano - 10 out 2019, 15h11

A Academia Sueca anunciou na manhã desta quinta-feira (9) que a polonesa Olga Tokarczuk e o austríaco Peter Handke ganharam respectivamente os Prêmios Nobel de Literatura de 2018 e 2019. O anuncio do prêmio de 2018 havia sido adiado após 18 mulheres relatarem ter sido estupradas pelo fotógrafo francês Jean-Claude Arnault, casado com uma das integrantes da Academia (o casal também vazou o nome dos vencedores do Nobel a casas de apostas de Paris em mais de uma ocasião). Arnault está preso.

Após o escândalo, a Academia Sueca não só reformou seus quadros como prometeu premiar com menos frequência homens da Europa ocidental, que evidentemente são a maioria dos laureados desde a instituição do Nobel, em 1901. Isso explica em partes porque a medalha de 2018 foi para a polonesa Olga Tokarczuk c que é best seller no leste europeu, venceu o prestigiado prêmio Booker britânico com seu sexto livro e dá alfinetadas frequentes na política de seu país natal. 

Por sua vez, o vencedor de 2019, Peter Handke, é um austríaco veterano do meio literário, que já fez incursões no teatro e no cinema e colaborou com nomes como Wim Wenders. Ele também é polêmico: foi apoiador incondicional (e chegou a discursar no funeral) do ex-presidente sérvio Slobodan Milosevic, que morreu na prisão após ordenar o genocídio de mais de 8 mil bósnios de religião muçulmana em 1995.

É impossível saber se algum autor brasileiro contemporâneo foi considerado para as láureas neste ano. Os suecos só liberam a lista de indicados (e quantos votos cada indicado recebeu) meio século após a entrega da medalha.

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Se essa lógica fosse seguida fielmente, no ano de 2019 a imprensa e o público em geral ganhariam acesso aos documentos referentes ao ano de 1969. Na prática, porém, o arquivo de nominees do Nobel de Literatura (que você pode acessar em inglês neste link) vai só até o ano de 1966. Melhor que o de Medicina, que parou em 1953. Não é má-vontade: dá trabalho fuçar nas gavetas lá em Estocolmo. O link é atualizado constantemente, de modo que surpresas podem aparecer a qualquer momento.

Carlos Drummond de Andrade. Wikimedia Commons/Wikimedia Commons

Os indicados de 1967 e 1968, embora não constem da página oficial, podem ser encontrados em dois documentos em sueco, disponíveis aqui e aqui. São justamente os papéis desses dois anos que contêm os concorrentes mais queridos do público brasileiro (e dos vestibulares, é claro). Em 1967, Jorge Amado e Carlos Drummond de Andrade aparecem no topo da página, o primeiro com cinco indicações, o segundo com uma. Em 1968, Amado continua lá, desta vez, com três indicações, e acompanhado do gaúcho Érico Veríssimo.

Poucos dos indicados brasileiros até 1960 entraram para o imaginário popular. Autores que já tinha experiência e reputação suficientes para concorrer ao prêmio na década 1960, como Guimarães Rosa, nunca foram considerados. Também é bom lembrar que geralmente há um descompasso entre o auge da obra do autor e sua indicação. Clarice Lispector, por exemplo, que publicou seus romances e contos mais famosos na década de 1960, talvez tenha sido nomeada na década de 1970 (ela morreu em 1974). Saberemos daqui alguns anos.

Jorge Amado Wikimedia Commons/Wikimedia Commons

Um dos brasileiros que passou mais perto de ganhar o prêmio foi um certo Coelho Neto, maranhense que recebeu três indicações em 1933. Embora hoje seja um ilustre desconhecido, fundou e ocupou a segunda cadeira da Academia Brasileira de Letras, e foi declarado pelo periódico O Malho em 1928 o Príncipe dos Prosadores Brasileiros. Que pompa. Infelizmente, ele morreu um ano depois, em 1934, e tanto seu possível Nobel (que não pode ser entregue após a morte) quanto toda sua carreira caíram no ostracismo. 

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De acordo com o crítico literário Alfredo Bosi, da USP, Coelho foi um figurão importante no vácuo entre a geração dos naturalistas (tipo Aluísio Azevedo, autor de O Cortiço) e a dos modernistas da Semana de 22 (como Mário e Oswald de Andrade), pelos quais foi muito criticado. Ele não tinha lá o estilo mais acessível do mundo a um leitor contemporâneo: pintava verdadeiros quadros com as palavras, cheios de adjetivos e advérbios. Veja um exemplo da obra Rei Negro (1914):

“Longínquos, com reboante fragor, tronavam trovões soturnos. (…) Cresceu a aflição das árvores, os bambuais vergavam-se em mesuras e o estrondo ribombava à fulguração sulfúrea dos relâmpagos.” Isso é que tempestade, rs.

Outro brasileiro famoso pero no mucho indicado em 1965 foi Alceu Amoroso Lima, que hoje dá nome a uma conhecida biblioteca no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Ele tem uma trajetória curiosa: converteu-se ao catolicismo em 1924, após um longo vários anos de atividade intelectual sem nenhuma ligação com a Igreja. Após o golpe de 1964, foi um dos religiosos de esquerda que encabeçaram o combate à Ditadura Militar.

Por sua vez, Flávio de Carvalho, cujo nome apareceu na lista em 1939, fazia de tudo um pouco. Expoente do movimento modernista, chegou ao Brasil de um curso de engenharia civil na Inglaterra pouco após a Semana de Arte Moderna de 1922. Ele atuou como arquiteto (seu projeto para o palácio do governo do estado de São Paulo, no bairro do Morumbi, ficou entre os finalistas), organizou exposições de artes plásticas ousadas e devidamente censuradas, e fez uma ponta de estilista saiu em passeata no centro de São Paulo usando um traje tropical com saia desenhado por si próprio. Um escândalo em 1956.

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