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Maquiavel: os fins justificam os meios

O caminho mais eficaz, ainda que nem sempre ético, para conquistar e manter o poder numa Europa fragmentada e violenta

Por Alexandre de Santi (edição: Bruno Garattoni) - Atualizado em 29 Maio 2019, 14h02 - Publicado em 9 dez 2015, 15h00

Livro: O Príncipe
Autor: Nicolau Maquiavel
Ano: 1532
Por que ler? Para entender a política – e por que algumas pessoas são o que são.

Filho do papa Alexandre 6º, César Bórgia nomeou Remirro De Orco para governar a província de Romanha. A missão dele era apaziguar a região. Mas o governador usara métodos violentos para conter os ânimos – com anuência do chefe. Depois da missão cumprida, Bórgia achou que a população se voltaria contra De Orco e, por tabela, contra ele. Resolveu se antecipar: Bórgia mandou matar o governador e expôs seu corpo partido em dois no meio de uma praça.

A população ficou surpresa com o recado ambíguo. Com o gesto, Bórgia mostrou que não compactuava com as ações de De Orco. Ao mesmo tempo, foi extremamente violento – o que intimidava qualquer oposição a ele. Entrou para a história temido e admirado pelo autor do clássico O Príncipe.

O florentino Nicolau Maquiavel via Bórgia como um líder virtuoso (mas sem sorte: adoeceu e, sem forças para se defender, acabou assassinado aos 31 anos). A atitude do nobre mostrava que ele não media esforços para manter a paz. Para Maquiavel, isso era bom mesmo que custasse algumas vidas. Numa época em que não havia democracia, a estabilidade era valor mais importante. Na verdade, era assim que a política funcionava na prática, só que ninguém admitia. O Príncipe operou uma revolução no pensamento político do século 16. Pela primeira vez na história, a política era pensada como algo à parte da religião e destituída de valores elevados, como justiça.

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Maquiavel usou sua própria experiência como diplomata e conselheiro político para construir o tratado enxuto, de cerca de cem páginas, em que o pragmatismo impera sobre a moral. O texto de O Príncipe é tão preto no branco que a sinceridade de Maquiavel causa calafrios até hoje. Também é uma das obras mais citadas em ciência política. Maquiavélico virou um adjetivo empregado como sinônimo de crueldade e frieza. Os admiradores da obra lamentam a leitura negativa do filósofo. Maquiavel foi preciso na sua análise realista do mundo político, onde nada é o que parece, e foi o primeiro a colocar a discussão ética em termos práticos, com exemplos da vida real.

Enquanto Michelângelo esculpia Davi e Da Vinci pintava a Mona Lisa, Maquiavel mostrava o outro lado da Itália Renascentista, uma região violenta e instável. A Itália estava dividida em províncias que se digladiavam entre si. É nesse contexto que o pensador concebe a ideia de uma estabilidade política que não emana de Deus, ou de sistemas políticos, mas de governantes que saibam se manter no poder num mundo de incertezas. Para isso, o pensador enalteceu duas qualidades caras a um líder: a virtú, uma mistura de firmeza e pragmatismo, e a fortuna, ou sorte. Um dos maiores estudiosos da obra do italiano, o historiador inglês Quentin Skinner afirma que virtú pode ser o nome de qualquer qualidade que efetivamente, em um mundo corrupto e falido, mantenha um líder no poder. Ou seja, não é um conceito fechado. Às vezes, virtú significa virtudes convencionais, como a generosidade e a empatia. Mas também pode ser o contrário delas. Para o filósofo, um soberano precisa ter liberdade para agir como bem entender a fim de garantir a segurança e a paz da população.

Não se afaste do bem, mas saiba valer-se do mal, se necessário.

Maquiavel inaugurou a ideia de valores políticos medidos pela prática e utilidade social – um discurso que pode ser apropriado por governantes que roubam mas fazem. Em O Príncipe, ele mostra que a quebra de promessas, a mentira, a dissimulação e até o assassinato de inimigos são intrínsecos à política, embora não recomende adotar a maldade como regra (apenas porque a maldade pode enfurecer o povo e trazer instabilidade, o que não é desejável). Os fins justificam os meios, frase que não consta no livro e que nunca foi escrita por Maquiavel, se tornou o melhor resumo do seu pensamento. Com um adendo importante: a política talvez seja um fim em si mesma.

O mais curioso é que muitos críticos leram O Príncipe como um manual, algo como um passo a passo da política, mas Maquiavel não dá instruções rígidas para sobreviver no poder. Pelo contrário: um político não pode usar uma receita fixa para conduzir um governo. Ele precisa aprender a se adaptar às circunstâncias, tomando decisões conforme o cenário se apresenta, uma máxima que continua atual meio milênio depois. Mas só Maquiavel teve a coragem de reconhecer que é assim que funciona.

O filósofo teve uma vida curta. Viveu 52 anos, trocando de cargos no alto escalão do principado florentino. Mas perdeu o posto quando a poderosa família Médici reassumiu o poder. Disposto a retomar a carreira de chanceler, escreveu O Príncipe como um agrado a Lourenço Médici, mas o estadista não entendeu o recado e Maquiavel passou seus últimos anos no campo. Morreu em 1517, cinco anos depois de ter finalizado sua obra mais conhecida.

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