GABRILA65162183544miv_Superinteressante Created with Sketch.

Paz amor e baioneta

Texto Fernando Rosa

“Houve uma vez um ‘Verão do Amor’. Então, uma nova cultura veio à luz, em meio à alucinação vertiginosa da anterior.” Era assim que Naomi Sunshine começava a falar sobre o bairro de Haight-Ashbury, em San Franscisco, espécie de “Terra Prometida” para hippies do mundo todo.

De fato, o ano de 1967 havia trazido o festival Monterey Pop e toda aquela explosão da música e cultura psicodélica. Já tinham se passado cinco anos (o texto de Naomi é de 1972, do jornal Rolling Stone brasileiro), e aquele vórtice cultural levou mesmo muita gente a buscar alternativas à sociedade “careta”. Muita loucura e muita frustração rolaram entre uma data e outra. A celebração popular daquele sonho hippie veio em 1969 com outro festival – o de Woodstock, no Estado de Nova York. Foram três dias de música que acabaram construindo uma espécie de comunidade hippie gigante e, via discos e filmes, espalharam o espírito do “drop out” (cair fora) pelo mundo. As tribos começaram a se formar em todo canto, reunindo jovens descontentes com a sociedade de consumo. Algumas delas apenas voltadas para a subsistência de seus membros. Muitas, especialmente nos EUA, dedicadas à resistência política contra a Guerra do Vietnã, e ainda outras, como a argentina La Confradia de la Flor Solar, dedicadas à produção musical.

Naquele mesmo ano de 1969, jovens paulistanos liderados pelo artista plástico Antonio Peticov tentaram promover o seu “happening”. O Festival Primavera estava agendado para os dias 15 e 16 de novembro de 1969, no Parque do Ibirapuera (São Paulo). Seria gratuito, com shows de Mutantes, Beat Boys, Beatniks, Som Beat, Gal Costa, Rogério Duprat, Os Leif’s e Tim Maia.

O festival, no entanto, não ocorreu. “Recebi um recado para ir à prefeitura e falar com um assessor. O cara me disse: ‘Seu hippie de merda, vocês tratem de suspender essa bagunça, porque quem for para lá vai ser recebido na ponta de baioneta!’ Curto e grosso!”, conta Peticov.

Diante da ameaça que, naquela fase da ditadura, certamente seria concretizada, o evento foi suspenso. “Saí correndo pra avisar todo mundo. Mas, mesmo assim, no dia foi muita gente”, lembra Peticov, que tem sua memória reforçada por Bogô (Beatniks): “Vieram de todo o Brasil, em alguns casos a pé. Pegamos uns violões e tocamos até o pessoal dispersar”.

No Brasil, a experiência de viver em comunidades também afastou muitos jovens, pelo menos por algum tempo, dos planos familiares de um futuro seguro, do diploma universitário e de uma profissão tradicional. Mas foi entre os músicos que o ideal de levar uma vida longe da pressão das grandes cidades prosperou com mais sucesso. A partir de 1970, diversos grupos transformaram em realidade o sonho de uma “casa no campo”, como bem traduziu Zé Rodrix em sua canção de 1971.

Talvez a comunidade mais famosa tenha sido a que reuniu os Mutantes na Serra da Cantareira, próxima à capital paulista. Por algum tempo, em uma casa com estrutura de som projetada pelo irmão Cláudio César, Arnaldo Baptista, Sérgio Dias, Rita Lee, Liminha e Dinho, e mais uma penca de malucos, viveram e produziram música. Alguns anos depois, Serginho repetiu a experiência com os reformulados Mutantes, dessa vez na serra fluminense de Petrópolis.

No Rio de Janeiro, outra comunidade fez de sua convivência um centro de produção musical. Em Jacarepaguá, no povoado de Moca do Mato, entre rodadas de som com direito à presença de João Gilberto e eventuais batidas da polícia, vivia a trupe dos Novos Baianos, banda formada em 1969, em Salvador. “Fomos obrigados a promover um sistema de administração que conseguisse manter as pessoas juntas, sem que se sentissem agredidas por normas e ordens”, diz Luiz Galvão, letrista do grupo, na biografia Anos 70, Novos e Baianos. “Tínhamos de fazer com que essa metodologia fosse assimilada por aquela juventude que considerava careta a informação do sistema.”

Ainda no Rio, no início dos anos 70, a Equipe Mercado instalou-se em uma casa em Santa Teresa. Ali, segundo o historiador Nélio Rodrigues, “ela formulava seu elixir psicodélico, o ingrediente surreal de suas músicas”. Com a Equipe, a juventude compartilhou as aventuras de “Mary K no Esgoto das Maravilhas”; se emaranhou no “Poesonscópio de Mil Novecentos e Quarenta e Quinze”; e fez macrobiótica nos “Campos de Arroz”.

Comunistas

Em meio à onda de “paz e amor”, músicos e cineastas de Nova Friburgo (RJ) mergulharam na produção do “primeiro filme hippie brasileiro”. Geração Bendita talvez seja o único registro de época da vida em uma comunidade. A trilha, de mesmo nome, foi gravada pelo Spectrum, formado por ex-membros da banda 2000 Volts. Porém, antes de seu lançamento, toda a equipe foi presa, com a alegação de que aquela montoeira de gente seria uma “célula comunista”. O filme foi lançado dois anos depois com o nome É Isso Aí, Bicho. Uma das obras de psicodelia mais procuradas, a trilha foi relançada na Europa em versão vinil 180 gramas e em digital.

No Recife, o mesmo espírito mobilizou músicos (Zé Ramalho, Lula Côrtes, Lailson) e bandas (Ave Sangria, Flaviola & o Bando do Sol). Nessa época, aconteceu a Feira Experimental de Música de Nova Jerusalém, uma espécie de Woodstock local, com dois dias de música na cidade-teatro de Nova Jerusalém (onde é realizado o espetáculo Paixão de Cristo). “Era a música pela música, a expressão criativa pelo prazer de criar e apresentar uma proposta original”, relembra Lailson, que coordenou o evento. Em produção artesanal, o grupo registrou suas experiências em obras como Paêbirú, O Caminho do Sol e Satwa