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Peter Singer – Uma jornada para estancar as dores do planeta

Entre ser o defensor dos animais ou o homem mais perigoso do mundo, Peter Singer escolheu o papel de arauto de uma ética contra o sofrimento.

eter Singer prega o veganismo contra os maus-tratos a animais, quer doações para combater a pobreza e estuda modos de diminuir a quantidade de sofrimento no mundo. Com essa definição, só falta dizer que o filósofo australiano é um fofo. Mas isso ele não é. Há quem o classifique como “o homem mais perigoso do mundo”, por sua defesa do aborto e da eutanásia.

Professor de bioética na Universidade de Princeton e professor laureado no Centro de Filosofia Aplicada e Ética Pública da Universidade de Melbourne, nos últimos 30 anos ele propõe uma nova postura ética, que viria para derrubar princípios que sustentam o tênue equilíbrio das sociedades.

Singer pega pesado. Seu arsenal de polêmicas questiona defesa dos animais, aborto, eutanásia, infanticídio, direitos dos deficientes físicos, dívidas dos países ricos com os pobres, discussões ambientais, desemprego… Tudo isso num discurso que passa longe de sutilezas.

É difícil ficar indiferente a declarações como esta: “Há uma diferença entre abortos precoces e tardios. Se você faz um aborto tardio, no qual o feto pode sentir dor, acho que você deve ter um bom motivo. Porque então você está causando dor. Ao longo do terceiro trimestre, você precisa ter motivos mais sérios para terminar uma gravidez.”

Singer questiona sistematicamente o caráter sagrado da vida humana. Provoca ao perguntar por que a vida de um homem tem sempre mais valor do que a vida de um cão ou de um macaco. “A noção de que a vida humana é sagrada apenas porque é humana é medieval”, afirma.

Singer é ateu e foi criado em uma família rica e que não seguia feriados judaicos. Ele estudou direito, história e filosofia na Universidade de Melbourne, obtendo em 1967 um diploma de bacharel em filosofia. Segundo ele, escolheu filosofia impulsionado por extensas e calorosas discussões com o namorado de sua irmã.

A provocação que iria caracterizar sua obra parecia já estar inserida no título de sua tese de mestrado: “Por que eu deveria ser moral?”.
Ele recebeu então uma bolsa para estudar na Universidade de Oxford, onde teria o que classificou de “provavelmente a experiência formativa decisiva da minha vida”.

Em 1971, Singer estava almoçando com o colega canadense Richard Keshen e, como de costume, travando debates intensos à mesa. Ficou surpreso quando Keshen preferiu comer uma salada depois de saber que o molho do espaguete continha carne. Singer, devorando o espaguete, perguntou ao amigo as razões de sua recusa do prato, e Keshen elencou suas objeções éticas ao tratamento dado aos animais na indústria alimentícia. “Eu nunca conheci um vegetariano que desse uma resposta tão direta que eu pudesse entender e me relacionar,” escreveu depois.

A perspectiva utilitária com que aborda questões éticas se sustenta há mais de 40 anos. O interesse em não provocar sofrimento foi escancarado em 1975, quando seu livro Libertação Animal foi praticamente uma antena a retransmitir de modo intenso e concentrado questionamentos sobre o tratamento ao que chamou de vidas não humanas, que estavam dispersos em discursos variados. Seus argumentos a favor do veganismo começaram a ganhar repercussão no mundo rapidamente.

“Na maioria dos países, é possível visitar zoológicos e ver animais entediados andando de um lado para o outro em gaiolas, sem nada a fazer senão esperar a próxima refeição. Os circos são lugares ainda piores para os animais. Suas condições de vida são deploráveis, especialmente em circos itinerantes, onde as gaiolas precisam ser pequenas para poderem sair na estrada.”

Singer agregou à discussão dos direitos dos animais alguns conceitos simples, mas que surpreendiam porque até então nunca tinham sido considerados importantes nesse debate. Ele apresentou critérios, como a ideia de que o ser humano teria um valor maior do que os animais pela capacidade de fazer planos para o futuro, relacionar-se e pensar sobre a própria existência. “Os seres que têm essa consciência perderão mais se forem mortos. Por isso, matar uma pessoa é, em geral, pior que matar uma galinha”, escreveu o filósofo.

Facilmente Singer passava do ato de causar uma sensação incômoda para a provocação radical que atraía opositores ferozes. A partir dessa comparação entre a vida de um homem e de uma galinha, ele começou a defender eticamente a eutanásia.

Defendeu que tirar a vida de um ser humano “normal” seria mais errado que tirar a de outro que não tem e nunca terá a capacidade de se ver como alguém existindo num período de tempo, relacionando seu passado com um possível futuro.

Singer se refere a alguém levado a um estado vegetativo por causa de lesão cerebral grave ou o avanço de uma doença degenerativa.
O primeiro grande movimento de Singer na direção de tratar a ética aplicada junto a cenários multidisciplinares foi com o livro Ética Prática de 1980. Às questões sobre direitos de animais, eutanásia e aborto, ele soma debates sobre comunicação global, ajuda humanitária internacional e, num enfoque que ganha hoje um espectro de premonição, discute de forma embrionária os problemas dos refugiados obrigados a deixar sua terra por um futuro incerto.

Singer voltaria às questões construídas sobre tensões internacionais em 2002, no livro Um Só Mundo: A Ética da Globalizacão. Ele trata no volume de quatro componentes distintos: alterações climáticas, intervenções com fins humanitários, ajuda externa e o desempenho da Organização Mundial do Comércio. Trata as relações entre países ricos e pobres sob uma ética alternativa.

“Se a pobreza extrema aumentar, ela dará origem a novos problemas, incluindo novas doenças que se espalharão de países que não podem oferecer assistência médica adequada àqueles que podem. A pobreza levará a que mais migrantes procurem se mudar, legalmente ou não, para os países ricos, de qualquer modo.”

Em 2009, Singer lançou outro livro de impacto, principalmente por tratar de modo prático uma discussão que perdura há tempos no campo das ideias. A Vida que Podemos Salvar: Agir Agora para Pôr Fim à Pobreza do Mundo é praticamente um manual destinado a incentivar e propor regulamentação de doações. Um dos argumentos que Singer mais utiliza em debates e palestras é a imagem de uma pessoa que não se importa de estragar seu par de sapatos novos para entrar num lago e salvar uma criança. Mas essa mesma pessoa não se dispõe a doar um valor equivalente ao preço de seus sapatos para salvar vidas de pessoas em situações de risco pelo planeta.

Nesse livro, Singer explica o altruísmo eficaz, o movimento social que incentiva as pessoas a encontrar formas mais eficientes para ajudar os outros. E o autor quer realizar isso com base em evidências concretas de melhora e ações racionais, em que a eficácia de resultados seja mais importante do que a recompensa moral de quem participa.

Peter Singer defende que levar uma vida ética minimamente aceitável implica utilizar uma parte substancial dos nossos recursos de sobra para fazer do mundo um lugar melhor; por outro lado, viver uma vida totalmente ética implica fazer o maior bem possível.

Ele amplia essa discussão para a questão do desemprego. Singer pode revisar esse mesmo argumento sob a ótica da globalização, numa graduação dos problemas econômicos seguindo padrões diferentes de um país para outro. “Sem minimizar de maneira alguma o golpe econômico e psicológico que as pessoas experimentam quando perdem seus empregos, os desempregados nos países ricos ainda têm uma rede de segurança, na forma de pagamentos da seguridade social, e geralmente assistência médica e educação gratuitas para seus filhos. Eles também têm saneamento e água potável.”