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Por que em algumas regiões do Brasil se fala mais “tu” do que “você”?

Com que pronome eu vou? As origens de "tu" e "você" no jeitinho de falar brasileiro

“Você” é um pronome evoluído. Começou como uma deferência da realeza em Portugal e, conforme a Coroa veio para o Brasil, o “vossa mercê” ou “sua graça” (“vossa”, do pronome “vos”, e “mercê, que significa “graça”) se popularizou para se referir a pessoas que não aceitariam ser chamadas por “tu”.

Ao longo desse processo, o pronome mudou diversas vezes: vossa mercê, vossemecê, vosmecê, vancê, você até chegar nos informais ocê e cê. É curioso notar que em outros idiomas latinos, os equivalentes à “vossa mercê” se transformaram em pronomes parecidos com o nosso “você”, como o “usted” do castelhano, o “vostè” catalão e o “vostede” galego.

Em teoria, o “tu” existe como um pronome exclusivamente informal. Mas, apesar de estar presente em várias regiões brasileiras, a questão de proximidade e hierarquia não é tão determinante quanto em outros idiomas – os franceses têm a regra do tutoiement e só usam a segunda pessoa do singular para conversar com familiares, crianças ou amigos íntimos, caso contrário o comportamento é considerado indelicado e desrespeitoso.

Eles levam os pronomes de tratamento tão a sério que um vídeo em que o presidente Emmanuel Macron aparece corrigindo um garoto que o chama de “Manu” viralizou no país no último mês. Na cena a seguir, um adolescente pergunta “Tudo bem, Manu?” e o político responde com uma lição de moral “Não, não, não. Tu estás aqui, em uma cerimônia oficial, tu te comporta corretamente. Me chama de “senhor presidente da república” ou “senhor.” Entendido?”

No Brasil, dificilmente um presidente se incomodaria com o apelido e, mais difícil ainda, seria reprender alguém conjugando o tu – a não ser que o suposto representante da nação fosse belenense ou ludovicense.  Isso porque Belém e São Luís do Maranhão são cidades onde a influência lusitana foi intensa, e os habitantes dos dois estados usam o tu e conjugam os verbos corretamente na segunda pessoa. Não à toa, a cantora Fafá de Belém canta “Tu te foste de mim” na canção “Foi Assim”.

Na capital catarinense, o tu faz parte do dia a dia, embora seja conjugado como se estivesse no subjuntivo (“tu fosse”em vez de “tu foste”). Os gaúchos também são entusiastas do tu, mas seguem mais a conjugação na terceira pessoa do singular (“tu foi”, “tu almoça”) que a forma falada por ludovicenses e belenenses. Devido à proximidade do espanhol rioplatense, o pronome já circulava na boca do povo da então Província de São Pedro antes das fronteiras do Estado serem como conhecemos hoje. Depois, os italianos que chegaram ao Rio Grande do Sul, por também terem tu em seu idioma materno, incorporaram o “tu” gaúcho com facilidade.

“Mané” é o gentílico extraoficial para quem mora em Florianópolis. Conheça mais sobre o sotaque da Ilha:

Como é a preferência por “tu” e “você” pelo Brasil

Porto Alegre: “tu” conjugado na terceira pessoa.
Florianópolis: “tu” conjugado na segunda pessoa, mas como se estivesse no subjuntivo.
Belém: “tu” conjugado na segunda pessoa.
Maranhão: “tu” conjugado na segunda pessoa.
Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Minas Gerais: não falam tu, mas “você”.
Demais estados: Usam tanto “tu” como “você”.

Fonte: Atlas Linguístico do Brasil