Protetoras de capivaras: conheça ONG que cuida dos animais do rio Pinheiros
Em São Paulo, a CAPA monitora os roedores e também resgata outros bichos que aparecem na marginal. Conheça a rotina do projeto.

Cachorros, garças, tartarugas e, claro, capivaras. Quem costuma passar pela Marginal Pinheiros, na cidade de São Paulo, já deve ter reparado nos inquilinos que fazem da margem e das águas do rio seu lar.
Quem corre ou anda de bicicleta pelo Parque Linear Bruno Covas também já deve ter, no mínimo, tirado uma foto dos bichinhos – ou prestado atenção nas placas que alertam da existência deles. Mas, afinal, será que alguém cuida desses animais?
Sim. Do outro lado da marginal, na ciclovia do Rio Pinheiros, fica o ponto de apoio do Projeto CAPA (Centro de Apoio e Proteção Animal). São eles os responsáveis pela preservação dos animais das várzeas e pelos bichos que aparecem por lá, como cães e gatos sem casa.

Na última semana, a Super foi conhecer o projeto. De cara, quando chegamos no espaço, tivemos um encontro com o Assustadinho, uma capivara macho que, como você deve imaginar, é meio medroso. Ele leva um machucado recém tratado, causado por algum material que ficou preso em seu corpo. Além disso, as biólogas do projeto, Mayara Oliveira e Rita de Cássia, mostraram fotos e vídeos de um Sabiá pequenininho que acabaram de salvar.
Difícil não se apaixonar logo de cara pelos animais ali tratados. Cinco anos atrás, porém, a realidade seria diferente – e provavelmente Assustadinho e cia. não teriam o resgate necessário.
Sobre o CAPA
O Projeto CAPA é o grupo responsável pelo acompanhamento de todos os animais, domésticos e silvestres, que aparecem ou moram na ciclovia e no parque, garantindo o cuidado e assistência necessária.
Ele atua por quase 45 km de extensão (22 km de cada lado do rio), com oito pontos de apoio e cuidando das mais de 60 espécies silvestres que fazem das margens seu lar. Dentre elas, ratões-do-banhado, preás, quero-queros, tartarugas, graças, cágados, lagartos e cobras são moradores garantidos. Já quando o assunto é capivara, as biólogas conhecem as quase 120 inquilinas pelo nome.
Mariana Aidar, presidente da ONG, conta que sempre teve uma paixão imensa por ajudar animais – afinal, fez carreira disso: há 25 anos atua na proteção de animais. Mas foi só quando a empresa Farah Service começou a ser a responsável pela gestão da Ciclovia do Rio Pinheiros e do Parque Bruno Covas, mais ou menos cinco anos atrás, que o amor por capivaras se tornou algo concreto – e o CAPA nasceu.
O dia da equipe começa cedo: as biólogas Mayara e Rita fazem rondas pela ciclovia, procurando por algum animal que precisa de cuidado imediato. Quem trabalha ou pedala pelas faixas encontra o número de contato da ONG nos oito pontos de apoio espalhados pela ciclovia e, quando encontram algum animal que precisa de assistência, entram em contato com as protetoras para que façam o resgate.
O que fere os animais?
“O ferimento é sempre o mesmo: o lixo que os humanos descartam incorretamente”, explica Aidar sobre os machucados. “O lixo prende no bico da ave, ela não consegue abrir o bico. O objeto se prende no dorso da capivara e o animal vai crescendo com aquilo vai rasgando seu couro.”
Alguns animais já foram tratados mais de uma vez por feridas resultantes do lixo. A presidente reparou uma queda no cuidado pelo rio nos últimos anos. “Uns cinco ou quatro anos atrás estava maravilhoso. A cada 100, 200 metros tinha uma barca desassoreando, tirando sujeira. Mas de um ano e meio, dois anos pra cá, esse rio está completamente abandonado de novo.”

Aidar adverte que por mais que exista uma responsabilidade do Governo, o principal dever é do cidadão em descartar o lixo de maneira correta.
Além da poluição, os animais de várzeas são prejudicados com a abertura de pontos da ciclovia para a marginal e, em alguns trechos, para a linha do trem. Oliveira explica que as capivaras sofrem muito com esse acesso e que, anualmente, mais de 20 capivaras são atropeladas. Outro fator que machuca os animais são os grupos de ciclistas.
A presidente reconhece que a ciclovia é um paraíso para os amantes da bicicleta, porém as regras das faixas existem por uma razão. Primeiro, o limite de velocidade, 20 km/h, precisa ser respeitado, para que, caso um animal resolva atravessar a pista, exista a possibilidade de frear a bike a tempo de evitar a colisão.
Segundo, pedalar em grandes grupos também não é permitido e tem o mesmo efeito de vários carros cruzando a marginal: o atropelamento é certeiro, impossível de frear. O grupo também aconselha que os ciclistas prestem atenção por onde pedalam: abaixar a cabeça pode até ser uma técnica aerodinâmica para ganhar velocidade na pista, mas é um risco certo para os animais do rio.
Já no caso de animais domésticos, como cães ou gatos, a maioria chega na ciclovia por áreas abertas, provavelmente animais já moradores de rua ou que foram abandonados em algum local pela cidade. Atropelamento, grandes feridas e brigas com animais silvestres fazem parte da lista de consequências.
Como é feito o tratamento?
Os animais machucados podem ser tratados tanto no local em que são encontrados quanto levados para o CeMaCAS (Centro de Manejo e Conservação de Animais Silvestres), serviço da prefeitura onde são atendidos em casos mais urgentes.
Aidar explica que alguns casos são resolvidos com um bom banho de rio, já que a pele das capivaras especificamente se regenera bem rápido. “Alguns animais que a gente leva para lá até voltam para cá, no local onde a gente resgatou.”
(E essa foi a primeira vez que você leu que um tchibum no rio Pinheiros poderia curar alguém.)
Outra parte da rotina da equipe é fazer a coleta de carrapatos das capivaras. As três participantes da equipe pedem para que as pessoas não proliferem falsas informações sobre a febre maculosa (doença da bactéria que pega no carrapato e que as capivaras podem carregar), pois todos os animais são testados periodicamente para que não sejam portadores do carrapato contaminado.
Até hoje, nenhum caso foi vinculado aos animais do Rio Pinheiros. “Não é porque tem uma capivara que ela vai ter o carrapato que carrega a bactéria da febre”, diz Rita de Cássia.
“Já os animais domésticos a gente resgata quando estão feridos, é um caso pior do que o outro”, diz Aidar. “Os animais ficam internados um, dois, três meses às vezes. Depois recebem vacina, anti-pulgas, vermífugo, são castrados e vão para adoção.”
Para conferir quem são os bichinhos que precisam de casa é só entrar no site do Projeto CAPA.

Desafios
Não é só a poluição que assusta o Projeto. A falta de patrocínio e apoio também são grandes problemas para a instituição. Além do custo oferecido pela Farah, o CAPA tem outros três patrocinadores: a Elanco, que oferece um valor anual para arcar com os custos do trabalho que fazem, além dos medicamentos para os cães e gatos. A PremieR, que fornece ração para os animais domésticos, e o podcast Não Inviabilize, que contribui mensalmente também.
Muitos animais domésticos, porém, exigem mais do que os patrocínios cobrem, como cirurgias, tratamentos longos e hospedagem em hotéis para pets. Nesse caso, os custos saem dos bolsos da equipe.
Outro desafio que deve ser enfrentado é o crescimento demográfico da população de capivaras. Esses roedores gigantes são animais sociais e andam em grupos. Porém, a organização social deles só permite que um macho viva no bando. Por isso, é comum ver algumas capivaras macho machucadas por causa de brigas territoriais.
Há até uma rivalidade histórica entre dois machos do Pinheiros: Estrupiado e Bonitão. Eles se enfrentam constantemente – mas o vencedor é quase sempre o mesmo (os apelidos dão uma pista, rs).

Uma nova contagem de população deve acontecer em janeiro, mas Aidar já pensa na possibilidade da realização de um controle populacional feito através da esterilização de alguns bichanos – mas esse passo só ocorre com a permissão do Departamento de Fauna de SP.
O CAPA lida também com alguns projetos estruturais da ciclovia, caso do paredão de pedras de quase 18 km para contenção das margens. O projeto conseguiu tomar providências a tempo de evitar o crescimento das paredes e conseguiu que fossem criadas rampas de acesso ao rio, para que os animais pudessem entrar e sair da água.
Futuro do Projeto
Por ora, o CAPA realiza algumas assessorias para locais que querem saber lidar e conviver em paz e segurança com capivaras.
“Os humanos estão cada vez mais desabrigando esses animais, invadindo, destruindo suas casas. Então, vai ser mais comum você ver capivara, principalmente, em lugares que antes elas não habitavam”, disse Mayara Oliveira. “A gente já tem muita experiência, sabemos o que tem que fazer e como fazer.”
Sonhando longe, a presidente gostaria de que o projeto fosse expandido para todo o município de São Paulo, para que os animais que vivem no Rio Tietê também se beneficiassem da proteção. “Eu tenho essa vontade, porque eu sei que cada vez vai ser mais necessário, mas ainda não tem estrutura pra isso”, finaliza Aidar.