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Puro rock·n·roll

O que é estar num palco diante de milhares de fãs? Será que as bandas de rock levam mesmo uma vida regada de sexo, drogas e transgressões?

Dagomir Marquezi

A cultura pop exerce grande fascínio sobre qualquer pessoa que tenha vindo ao mundo depois que Elvis Presley requebrou pela primeira vez os quadris, em cadeia nacional de televisão, no final dos anos 50. De lá para cá, o fenômeno extrapolou as fronteiras dos Estados Unidos e gerou ícones dentro e fora do universo da música – Marilyn Monroe, Os Flinstones, a latinha de sopa Campbell’s etc.

A cultura pop também inventou um novo tipo de culto, de obsessão e fanatismo. Transformou-se quase numa religião. No mundo da idolatria pop, muitas vezes, o que menos interessa é a arte em si. Em outras palavras: para se tornar um astro pop da música, a atitude costuma ser mais importante que a própria música. Estão aí o fenômeno do videoclipe e o enorme sucesso da MTV para comprovar: o fã não se importa se o seu ídolo se apresenta dublando um instrumento que não toca, desde que sua pose seja charmosa.

Tudo isso para dizer que eu me infiltrei como um falso músico numa banda pop de sucesso, o Jota Quest, em uma apresentação de verdade. Minha missão era ultrapassar o balcão que separa fãs e ídolos e ver como é o show bizz por dentro, na pele de um pop star. Duas condições possibilitaram essa empreitada. A primeira, como disse, é que a cultura pop permite que alguém que não toca passe por um instrumentista de verdade. A segunda foi a preciosa colaboração do Jota Quest. Eles, com o bom humor e com a segurança de serem, hoje, talvez a banda pop mais bem-sucedida do país, toparam oferecer o seu palco como laboratório para esta experiência jornalística inédita. Com isso, é claro, arriscaram o pescoço. Eu poderia produzir, ainda que involuntariamente, um erro desastroso para a apresentação. O Jota Quest merece, portanto, a nossa gratidão.

Eles são, para quem não lembra, autores de sucessos como “Encontrar Alguém” e “Fácil”. Eis a formação do conjunto: Rogério Flausino, vocal e guitarra; Marco Túlio – que todos chamam de Tatu –, guitarra; Paulinho Fonseca, bateria; PJ, baixo; e Márcio Buzelin, teclados. Subí ao palco na pele de um saxofonista. A um mês da sua primeira turnê no exterior, pela costa leste dos Estados Unidos, fiz um show com eles como o quarto integrante do trio de metais que acompanha a banda.

Encontrei-os num hotel no bairro dos Jardins, em São Paulo, logo depois do almoço de domingo. Hora de acordar para quem tinha feito show na cidade na noite anterior. Segundo a mitologia, pop stars estão sempre trancados em quartos, ou transando ou consumindo drogas ou as duas coisas ao mesmo tempo. Não subi aos quartos. O que posso dizer é que eles desceram ao saguão na hora combinada e de cara limpa. Foi ali que os conheci e, a partir daquele momento, fui tratado como um deles.

Pegamos a van que nos levaria ao local do show daquela noite, onde eu faria a minha estréia. A vida na estrada é a própria essência da mitologia pop: bandas transportadas por Boeings particulares, caravanas de ônibus e caminhões cruzando continentes, orgias a bordo de jatinhos no circuito entre as principais cidades do mundo, limusines em disparada na direção de estádios etc. Na van do Jota Quest, a coisa mais sacana que presenciei foi a banda arrumar um nome artístico para mim. Vá lá, “Dagomir” não é mesmo um nome pop. Virei “Dagoma”, o sensacional saxofonista que até ali jamais tinha empunhado um saxofone. Previamente avisado, Dagoma estava vestido com o uniforme do trio de metais: preto da cabeça aos pés. Apesar do estilo maneiro, não estávamos indo para o Hammersmith de Londres, nem para o Roxy em Los Angeles. O único show da minha vida como falso saxofonista iria acontecer numa feira agropecuária em Mogi-Guaçu, cidade que fica a 170 quilômetros de São Paulo.

No universo pop, qualquer aparição pública dos artistas pode provocar uma reação em cadeia e exigir intervenção policial. Faz parte do aspecto psicológico desse fanatismo que cada admirador considere seu ídolo como propriedade particular e tente conservar alguma prova do seu contato: um autógrafo, um pedaço da roupa, um tufo de cabelos. Por essa razão, a simples parada de um grupo pop famoso num restaurante de beira de estrada pode ter conseqüências imprevisíveis.

Paramos, descemos da van e eu, com vontade de fazer xixi, fui direto ao banheiro. Ninguém deu bola. Não tinha nenhuma fã esperando lá dentro para me agarrar. Antes de pegar a estrada de novo, os jotaquests ficaram vários minutos dando autógrafos a adolescentes que se aproximaram calmamente. Os mais visados: o cantor Rogério e Tatu, o guitarrista. Tudo muito civilizado e ordeiro, o pessoal da banda atendendo um a um, com um sorriso sincero na cara. E nada das mulheres histéricas rasgadoras de roupa.

Eu imaginava que qualquer espetáculo para um grande público envolvia estresse para os músicos. Pelo jeito, o único coração que começou a pulsar com mais força à medida que íamos nos aproximando da hora do show era o meu. De longe, passamos a enxergar o clarão do estádio e os grandes balões com propaganda dos patrocinadores do evento. Assim que desembarcamos da van, às portas do camarim, dezenas de garotas, espremidas nas arquibancadas ao longe passaram a dar gritinhos e acenar para nós com sofreguidão. Eu entrei no espírito e mandei um tchauzinho para elas. Na escada do camarim, um segurança me pára. Em seguida, percebe que eu sou uma das estrelas. Abre um sorrisão e me libera com dois tapinhas nas costas.

O camarim é outro território sagrado na mitologia pop. As lendas que o envolvem falam de manias, superstições, rituais de magia negra, ataques de estrelismo, socos trocados antes de entrar em cena e muito mais. Isso, sem falar – como sempre – de muita droga e sexo nos bastidores.

Em Mogi-Guaçu, o camarim era uma espécie de container, meio apertadinho. Dois sofás, uma geladeira e um banheiro ao fundo. Drogas? Na mesa, além de sanduíches e bolinhos, só um vinho nacional. Na geladeira, água mineral e refrigerante. Ao contrário da lenda, nenhuma fã nos atacou em busca de sexo relâmpago antes do show. No camarim, levei papos estritamente musicais: as influências de PJ, um excelente baixista, e a grande técnica do baterista Paulinho. Em seguida, encontro meus colegas de metais, que vieram no ônibus da banda, junto com os roadies (os sujeitos que montam e desmontam tudo). Serginho Trombone, o trompetista cubano Jorge Ceruto e meu mentor, o saxofonista baiano Rodrigo Bento. Eles me recebem sorrindo, apesar de saberem que represento uma potencial catástrofe à sua apresentação. Rodrigo Bento abre um case, tira um sax alto, improvisa um cordão de apoio para o pescoço e o entrega a mim.

Presto atenção ao seu curso completo de sax em 30 segundos: “Encaixe um polegar aqui, outro polegar aqui. Não deixe o sax solto pendurado no pescoço, segure pelo menos com uma mão. É isso. Em meia hora subimos ao palco”.

Ninguém sabe ao certo como vai se comportar uma platéia. Algumas são especialmente carinhosas, outras hostis, outras geladas. Os Beatles provocavam orgasmos coletivos. Um espectador ciumento empurrou Frank Zappa do palco num fosso de 4 metros porque Zappa estaria paquerando sua garota. O meio milhão de espectadores de Woodstock – o de 1969, claro! – aplaudia o nascimento de cada bebê nas barracas de atendimento médico. Os Rolling Stones, por sua vez, viram um espectador ser assassinado durante a célebre apresentação da banda em Altamont, na Califórnia.

Quinze minutos antes do show, tive a chance de sentir a força de uma multidão de fãs. Acabara o desfile de gado no picadeiro. Uma massa de jovens desceu das arquibancadas para a arena central. Um segurança me disse que a platéia é de mais ou menos 8 000 pessoas. No lado de fora do camarim, outro ritual tem início: pessoas conhecidas da cidade, repórteres locais, a Miss Simpatia da feira agropecuária, todos têm seu meio minuto para tirar uma foto com seus ídolos, pegar um autógrafo. E, no caso das meninas, dar um beijinho na bochecha dos rapazes. Faço de tudo para aparecer nas fotos e ganhar uns beijos. Um garoto (parecido com o Harry Potter) abre o caderno e pede meu autógrafo. Eu assino: “Dagoma”. Visitas encerradas, hora do show.

Muitos filmes e documentários mostraram o momento de magia que antecede a entrada no palco. Astros concentrados, atravessando corredores enquanto a multidão grita seus nomes lá fora. Em Mogi-Guaçu, os cinco jotaquests entraram primeiro, sem os metais. Todos aprovaram o meu visual. Mas Rogério notou que faltava alguma coisa no meu figurino de saxofonista metido a bluseiro. Ele me emprestou um de seus muitos óculos escuros baratos, estilo anos 70. Dagoma estava pronto para entrar no palco. Enquanto a banda abria o show com “Velocidade”, música do seu terceiro CD, Oxigênio, eu acertava os detalhes com o saxofonista Rodrigo. Ele, que deveria estar preocupado, me passava toda a calma e segurança do mundo. Dizia que ia me avisar previamente os movimentos e que tudo daria certo. O trombonista Serginho, ao perceber que estava sem cinto, arranjou uma corda para segurar as calças.

O trompetista Jorge não parava de rir. (Curioso: ele ri em espanhol.) Não havia tempo para mais nada. Rodrigo fez um sinal e começamos a subir a escada em direção ao palco.

O jogo de luzes no palco tem basicamente a função de mitificar o artista por meio da manipulação visual. Da platéia, a impressão é de que o palco é uma coisa onírica, inodora, super-humana. Isso, sem contar a névoa. (Máquina de fumaça? Que nada. Trata-se de um roadie com uma latinha de gelo seco e outro com um ventilador. Muito high- tech.) Entrei logo atrás do trio de metais, rumo ao canto do palco. A banda tocava “As Dores do Mundo”. Rodrigo me orientava sobre as frases musicais que íamos tocar. Pa-para-pa-para. Para os outros três, notas que seriam tocadas de verdade. Para mim, apenas o inflar de bochechas e claves apertadas ao acaso no sax. Não bastava tocar: um trio de metais que se preze também dança. Lembrava-me dos muitos shows do James Brown que assistira. “Um passo para a direita, junta os pés. Um passo para a esquerda, junta os pés.” Eu operava a coreografia e meus colegas de metais não se agüentavam de vontade de rir da minha picaretagem artística.

O baixista PJ e o tecladista Márcio Buzelin, entre risadas disfarçadas, também faziam sinais de que estava me saindo bem.

Para os leigos em música, tocar um instrumento é um ato quase milagroso. “Como esse cara faz isso?” é a pergunta que mais se faz na platéia. É daí que começa a nascer a idolatria. Em todo show, também, há o momento da apresentação da banda ao público, quando o vocalista anuncia os músicos um a um, para aplausos da platéia. É o momento de saber se você agradou. Ou pelo menos (no meu caso) se enganou bem.

Desde o momento em que pisei no palco, joguei o medo fora. Estabeleci uma espécie de filtro psicológico que me isolou da platéia. Eu mal via a multidão. E, com um fone de ouvido ligado ao nada, mal ouvia a banda. Me dediquei a fingir que era um tremendo saxofonista, cheio de experiência e moral. Mas as coisas começaram a complicar. O sax ficou cada vez mais pesado e escorregava das minhas mãos úmidas. Eu mal conseguia acertar as claves a serem apertadas. E o mais absurdo: comecei a perder o fôlego! Acompanhar os outros se tornou difícil, extremamente difícil. Felizmente, o trio de metais saía várias vezes do palco. Numa dessas saídas, o Rodrigo me avisou que chegara o momento da apresentação da banda. Cada jotaquest foi apresentado por Rogério. Então, chegou a hora do trio de metais. A regra era cada um, ao ser chamado, cumprimentar o público e esperar em frente à bateria.

“Agora nosso novo saxofonista… Dagoma!”

Atravessei o palco – que não é tão escuro quanto parece da platéia – e agradeci ao público que me aplaudia com entusiasmo. No microfone, Rogério perguntou há quanto tempo eu tocava sax. Menti descaradamente para 8 000 pessoas, dizendo que era um veterano do sopro e que estava feliz porque o público tinha compreendido minha técnica refinada. Mais aplausos. O trio de metais foi até a frente do palco e, na boca de cena, fez um solo em uníssono, um complicado fraseado que eu não decoraria nem em um mês. Fiz o que pude: disfarcei o mais possível o fato de não ter a mais vaga idéia do que eles tocavam.

O último ato é todos nós irmos até uma pequena plataforma em frente ao palco. O público aplaudia muito. Quando nos abaixamos para agradecer os aplausos, vi aos meus pés um mar de garotas. Lindas, excitadas, gritando, acenando, mandando beijinhos. Se um show de rock é como um ato sexual coletivo, seu final é feito de ídolos esgotados. Passamos rapidamente pelo camarim, na direção da van. As fãs mais exaltadas tentaram entrar lá. Não tinha o menor clima. Depois de um show, os músicos estão exaustos. E com a sensação do dever profissional cumprido. No estacionamento, tiramos fotos com fãs antes de nos aboletarmos na van. Quer dizer, elas tiravam fotos com os membros da banda e eu entrava de gaiato. Todos a bordo, encaramos a volta para São Paulo. Para minha surpresa, ninguém capotou. Ao contrário, ninguém parava de falar! Eu, que nem havia tocado, estava fatigado pela tensão da experiência.

Eles passaram a viagem contando piadas e lembrando os tempos em que nada dava certo para a banda. Ao chegarmos no hotel, minha vida de pop star esvaneceu como a carruagem da Cinderela. Os jotaquests subiram para os seus quartos e voltaram para as suas atribuladas vidas de artista. Eu voltei ao meu anônimo dia-a-dia de jornalista.

A síntese da experiência foi dada por um fã do Jota Quest, que vai a todos os shows e conhece cada detalhe das apresentações. Quando deixamos o palco em Mogi-Guaçu, ele disse a frase definitiva: “Muito legal vocês colocarem um sax a mais. Com quatro metais, o som ficou mais pesado!”