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Rock: Anos incríveis

Após o Rock in Rio exibir nosso público jovem em rede nacional, todo mundo virou fã do gênero. Em meio a uma boa fase econômica, começou aquilo que guardamos na memória como Rock Brasil: guitarras na televisão, novas bandas a cada minuto, canções que cantamos até hoje e um baita orgulho de ter menos de 30 anos

Nenhum período do rock nacional foi comparável aos anos 80. A fusão do gênero com a testosterona da nova juventude brasileira formatou uma geração sem precedentes. Roupas extravagantes, danceterias, cabelos fora do usual, prateleiras cheias de novidades, drogas. Todos os ingredientes fundamentais para criar o DNA de um movimento que via no topo das paradas nomes como Capital Inicial, Ultraje a Rigor, Legião Urbana e Paralamas do Sucesso. Das praias do Rio de Janeiro ao concreto de Brasília, passando pela solidão da taciturna São Paulo, não se consumia se nem falava de outra coisa.

Bastava uma guitarra em punhos e falar a linguagem dos jovens para ter suas músicas tocadas em alta rotação nas rádios. “Desenvolvemos uma linguagem pop brasileira fazendo uso do palavrão, recurso importante para quem cresceu sob a ditadura. E criamos uma ponte entre dois mundos”, diria Leo Jaime.

Eram tempos de vacas gordas. O RPM, com seu Rádio Pirata ao Vivo, vendeu mais de 2 milhões de discos. O sucesso do Rock in Rio, o carimbo da Rede Globo (com inúmeras aparições de novos artistas em sua grade), a série Armação Ilimitada e o surgimento do programa Mixto Quente projetaram o rock brasileiro aos céus.

Evandro Mesquita, da Blitz, um dos expoentes desse novo cenário, não economizava as palavras quando o assunto era a importância de sua geração. “Fomos revolucionários.” Paula Toller, do Kid Abelha, banda que vendeu 190 mil exemplares de dois compactos, com as canções “Pintura Íntima” e “Como Eu Quero”, em 1984, ressaltaria anos mais tarde: “Há necessidade de analisar e julgar a produção da época com mais isenção”.

Em 1986, o Capital Inicial, banda egressa da turma de Brasília, acabara de lançar seu primeiro LP, homônimo, com sucessos como “Música Urbana”, “Fátima” e “Veraneio Vascaína”. Superando as perspectivas da gravadora, o debute do Capital bateu os 240 mil discos vendidos um ano depois. A marca tinha um motivo. “Música Urbana” entrou na trilha da novela global Roda de Fogo.

Os Paralamas do Sucesso, banda também de Brasília, mas cooptada pela Cidade Maravilhosa, vinha de um álbum aclamado, O Passo do Lui. Na seqüência veio Selvagem?, rompendo com clichês da new wave e atingindo 700 mil cópias vendidas. Muito diferente dos primeiros tempos, em que precisavam encarar o autoritarismo das gravadoras. “Nos deixamos manipular pelas pessoas da EMI em nosso primeiro álbum, Cinema Mudo (1983)”, confessa Herbert. “Houve imposição de corais, teclados, aquele papo de ‘eu sei o que é bom pra vocês’.” Três anos depois, a banda impunha uma capa em que o irmão do baixista Bi aparecia seminu no meio do mato cobrindo a cintura com uma camiseta imunda. Sinal dos tempos.

Leo Jaime, outro bom vendedor de LPs, também passou por apuros nos estúdios. “Quando eu estava para lançar o segundo disco, Sessão da Tarde (1985), o cara da gravadora bateu lá em casa: ‘Tá uma m****, vamos apagar tudo e gravar outro!’. Eu não topei. Era meio cru, como eu queria. Ameaçaram rasgar o meu contrato, mas acabaram lançando o disco do jeito que estava.” Resultado: 140 mil exemplares nas mãos do seu público. Mais do que estética, essa geração trouxe consigo uma revolução tecnológica aplicada à música. “Houve um salto na técnica de produção, gravação e arranjo. Os artistas da MPB não se preocupavam com isso”, diria Carlos Beni, ex-Kid Abelha.

O Plano Cruzado, anunciado em 28 de fevereiro de 1986 pelo presidente José Sarney, foi de grande ajuda. Esse promoveu uma monstruosa injeção de novos consumidores no mercado. E o rock brasileiro foi tão alto que chegou a faltar vinil para suprir a demanda.

O legado dessa geração é até hoje perceptível. É só ligar o rádio a TV, se conectar à internet. Os anos 80 continuam mais vivos do que nunca.

A partir da reportagem de Pedro Só e Jaime Biaggio, revista Bizz de dezembro de 1998.

1986

Janeiro

• A espaçonave norte-americana Challenger explode no ar, matando seus sete astronautas, entre eles a professora voluntária Christa McAuliffe.

Fevereiro

• O presidente Sarney anuncia o Plano Cruzado, congelando os preços e salários e extinguindo a correção monetária.

Abril

• A explosão de um reator nuclear na usina soviética de Chernobyl provoca o maior acidente nuclear da história.

• A Terra recebe mais uma vez a visita do cometa Halley, dando início a uma enxurrada de produtos com a marca.

Junho

• A Sega lança o videogame Master System.

• Estréia na TV Globo o Xou da Xuxa.

Setembro

• Morre Cliff Burton, baixista original do Metallica.

1987

Março

• Morre Andy Warhol, responsável pela implosão das belas artes, aproximando-as das artes pop e da comunicação de massas.

• O Cure inicia sua primeira turnê pelo Brasil.

Abril

• Começa a primeira turnê do Echo & the Bunnymen pelo país.

• Prince lança o álbum Sign ’O’ The Times.

Agosto

• O guitarrista Johnny Marr deixa os Smiths e, algumas semanas depois, o grupo acaba.

• O Pink Floyd anuncia sua volta, dando início à longa batalha judicial entre Roger Waters e o trio remanescente pelo uso da marca.

Setembro

• Morre Peter Tosh, um dos maiores expoentes do reggae.

Outubro

• Crianças encontram uma cápsula de Césio 137 em um ferro-velho em Goiânia. Duas delas morrem, no pior incidente radioativo do Brasil.

• Quebra na Bolsa de Valores de Nova York.

As danceterias

Tudo o que a geração pré-Rock in Rio havia plantado colhia em dobro depois do festival. A identificação com os músicos fazia a horda de jovens configurar Lobão, Kid Abelha, Barão Vermelho etc. como ídolos exponenciais. Um dos grandes alicerces de toda a cena eram as danceterias. A febre se institucionalizou no Brasil em 1984. Nomes como Radar Tantã, Rádio Clube e Tífon, em São Paulo, e Mamute e Mamão com Açúcar, no Rio, poluíam o imaginário do jovem antenado.

Quem passava em frente à danceteria Rádio Clube, na noite de sexta-feira, notava um formidável tumulto. Na porta, cerca de mil pessoas insistiam em comprar ingressos – já esgotados pelas 1 500 que superlotavam a casa. Sob os refletores, quem animava a platéia era o grupo Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens. “Não gostamos de fazer show em teatro, queremos ver todo mundo dançando na frente do palco”, disse Paula Toller, a vocalista da banda, revelando um dos principais dogmas dessa turma. Um pré-requisito fundamental é que o conjunto toque rock, de qualquer tipo, mas sempre dançante. Ao seguir à risca esse receituário, o Kid Abelha transformou-se na maior sensação das danceterias. Seu primeiro LP, Seu Espião, lançado no início de junho de 1984, vendeu 21 mil cópias em duas semanas.

Disputando com o Kid Abelha o posto de grupo mais festejado nas danceterias estava o Barão Vermelho, cujo trunfo, já óbvio na época, era possuir um grande cantor e letrista – Cazuza – que falava para os jovens de forma original. O grupo havia recém-lançado um single com uma das melhores canções do Rock Brasil: “Bete Balanço”, trilha sonora do filme homônimo de Lael Rodrigues, e se integrou perfeitamente ao circuito das danceterias.

Entre as bandas formadas simultaneamente à explosão da cena, nenhuma chegou com tanto impacto quanto Lobão e Os Ronaldos. Entre os astros das danceterias, eles fazem o rock vigoroso no ritmo, mas recheado de filigranas eletrônicas – como pode ser comprovado em seu primeiro LP, Ronaldo Foi pra Guerra.

É evidente que esse tipo de local já entrou para geografia do rock brasileiro. Para os grupos iniciantes, as danceterias contam com uma grande vantagem sobre os teatros: a diversidade da platéia. “Dependendo da música”, explica Lobão, “o público conversa, dança ou ouve atentamente. Assim, podemos saber o que realmente agrada.”

Editado a partir de reportagem da revista Veja de julho de 1984.

O homem forte

Texto Marco Bezzi

Sírio naturalizado francês, André Midani é o nome que costurou grande parte do que conhecemos como Rock Brasil. Antes de instalar a gravadora Warner no país, em 1977, Midani bateu o cartão nas concorrentes Decca, Odeon e Philips, essas duas últimas em terras brasileiras, quando desembarcou, no ano de 1955.

André não queria lutar na guerra colonialista que os franceses travavam na Argélia e, mesmo sem saber falar português, optou pelo país. Na Odeon (atual EMI) e na Philips viu de perto o nascimento da MPB, da bossa nova e do tropicalismo, tendo atuação decisiva na carreira de artistas como João Gilberto, Tom Jobim, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Na Warner, o chefão Midani foi o responsável pelos lançamentos dos principais nomes do rock tupiniquim nos anos 80. Passaram pelas suas mãos Lulu Santos, Magazine, Ira!, Ultraje a Rigor, Titãs, Kid Abelha, Camisa de Vênus, entre outros.

Por todo seu histórico, quando chegou à Warner já era considerado um midas da música. Nesse período, se esforçou para compreender o novo mercado de cifras milionárias e artistas com menos discurso e atitude. Era o início dos anos 80 e a gravadora, sem ter um catálogo de artistas que a sustentasse, passava por grave crise. Ele, então, começou a pensar mais na música do que no próprio artista, investindo na cena musical. Foi assim que iniciou parceria com os produtores Pena Schmidt e Liminha.

De Pena, em 1983, “comprou” a idéia de uma nova cena efervescente em São Paulo, lançando os singles das principais bandas que varavam a madrugada entre as casas Madame Satã e Napalm. Com Liminha, apostou na mudança dos Titãs e montou o estúdio Nas Nuvens no Rio, um novo paradigma de gravação no país.

Em 1989, embarcou para os Estados Unidos e assumiu a divisão latino-americana da Warner, onde permaneceu até 2001. Hoje, atua em ONGs no Rio de Janeiro e, embora continue no topo dos “brasileiros” mais poderosos da indústria fonográfica mundial, nem pensa em voltar ao ramo.

O produtor: Liminha

O paulista Arnolpho Lima Filho, o Liminha, já fazia parte da história do rock brasileiro antes dos anos 80. Após deixar os Mutantes, em 1973, tocou baixo na banda de Raul Seixas e formou a famosa Companhia Paulista de Rock, que acompanhou Erasmo Carlos em festivais de rock pelo Brasil. Seu primeiro trabalho nos bastidores foi como assistente de produção do disco Maria Fumaça, da Banda Black Rio. Mas só pôde assinar como produtor ao trabalhar com as Frenéticas, em 1977 (coisa que ninguém mais queria assumir). O álbum foi disco de ouro. Na década de 80, durante as mixagens do disco Luar, de Gil, em Los Angeles, veio às mãos do produtor um livro de técnicas de composição que mudaram sua concepção de música pop. E foi a partir do trabalho com Lulu Santos, em o Ritmo do Momento, de 1983, que Liminha solidificou-se como o maior produtor da década. Ainda repetiu a parceria em Tudo Azul, álbum que virou paradigma da geração oitentista – com timbres e técnicas a ser copiadas. Para essa mesma geração, produziu clássicos como Seu Espião, do Kid Abelha, Nós Vamos Invadir Sua Praia, do Ultraje, Selvagem?, dos Paralamas, e Cabeça Dinossauro, dos Titãs. Em 1985, montou o lendário estúdio Nas Nuvens. Anos depois, se mudou para os Estados Unidos para (claro) estudar, trabalhar e aperfeiçoar-se como produtor.

O álbum

O ano de 1985 não tinha sido dos mais fáceis para os Titãs. A prisão de Arnaldo Antunes e Tony Bellotto por porte de heroína reverberou por todo aquele ano e encontrou o álbum Cabeça Dinossauro, do ano seguinte, como forma de catarse. Muito mais do que as polêmicas que rastejaram em torno do álbum (como a censura da faixa “Bichos Escrotos” e a rejeição por parte do público de “Igreja”), Cabeça é um marco do rock nacional. O álbum venceu uma eleição da revista Bizz de fevereiro de 1997 como o principal disco da história do pop rock de todos os tempos. Os integrantes da banda falaram sobre essa bomba sonora em entrevista de dezembro de 1989 para a revista Bizz.

Falem sobre a concepção do Cabeça Dinossauro.

Toni – O tom agressivo não aconteceu só por causa da prisão. É também fruto do despojamento que sempre tivemos. Fomos frustrados no desejo de fazer de Televisão um sucesso. Então pensamos: vamos fazer o que a gente quer. Se o disco não vender, f***-se.

Arnaldo – Além da busca da unidade, alcançamos uma sonoridade que não havia anteriormente. O disco soa mais agressivo porque tem som, não só pela concepção. Faríamos um disco assim sem a prisão. Não é uma questão de causa e conseqüência.

Há quem considere o disco bem próximo do punk, principalmente em músicas como “Polícia” e “Igreja”.

Nando – É uma avaliação tendenciosa. Se cabe esse argumento acusatório, por outro lado, existem coisas que jamais haviam sido ditas em “Igreja”.

Fromer – Tem também a acusação de que os Titãs estariam se dando mal e então optaram pelo rock. Mas “Bichos Escrotos” já tocávamos em shows desde 1982.

Arnaldo – Fizemos algo que ninguém fez anteriormente, porque foram os Titãs que fizeram. Há uma diferença brutal entre o que fizemos e o que fizeram as Mercenárias e os Inocentes. Qual é a referência? Só porque tem o dado do punk? Mas o rock’n’ roll passou pelo punk. Nós temos a leitura de um monte de elementos. “Família” é um reggae, “O Que”, um funk…

Charles – Essa análise é também moralista. Baseia-se no seguinte fato: antes éramos uma coisa e depois viramos outra. Como se as bandas não tivessem o direito de mudar – o que nem é o nosso caso. Foi uma evolução.

Qual a importância da produção do Liminha?

Fromer – Costumávamos ouvir esse papo: “Gosto dos Titãs em show, mas em disco não”. Tocamos juntos, praticamente ao vivo. Era um disco anticomercial. A gravadora queria outra música de trabalho. Ao escolher, falamos: “Já que estamos com uma cara estranha, vamos forçar a barra. Vamos começar com ‘Aa Uu’”.

Entrevista Lorena Calábria

O guitarrista: Edgard Scandurra

Aos 13 anos, Edgard Scandurra, guitarrista do Ira!, decidiu que seu negócio era ser músico. Desde os 5 ele pegava emprestado o violão do irmão e tirava músicas dos discos de Jimi Hendrix, Beatles, Rolling Stones e Led Zeppelin. Esses grupos, e seu irmão, foram suas primeiras influências.

Autodidata e canhoto, Edgard é daqueles que optaram pelo violão ao contrário, sem inversão das cordas. Além disso, dispensa a palheta. A escola de Edgard foi o irmão, o ouvido e as guitarras de Jimmy Page e Pete Townshend. Em 1977, captou a explosão punk por meio do Sex Pistols e do Jam, uma das grandes influências. “Foi aí que mudei o meu jeito de tocar. Antes eu gostava mais de solar. Depois de ouvir o punk rock, deixei de lado.” Até ficar só no Ira!, Edgard tocou em várias bandas no começo dos anos 80 – Subúrbio, Ultraje a Rigor, Cabine C, Smack e Mercenárias (nessa, como baterista). Em cada uma delas, deixou sua marca herdada dos trabalhos de “antiguitarra” do pós-punk e do classic rock dos anos 60. Várias vezes premiado como melhor instrumentista brasileiro, Edgard atualmente milita também no universo da música eletrônica com o projeto Benzina. Afinal, ao contrário do que o visual retrô dos primórdios do Ira! pode sugerir, não tem o menor interesse em ficar nunca parado no tempo.

O Brasil se organiza

Texto Marco Bezzi

À margem da efervescência que ocorria nos grandes meios de comunicação, artistas de todas as partes do país se mobilizavam. Alguns no estilo “faça-você-mesmo”, como os baianos do Camisa de Vênus. Outros, estabelecendo comunidades para enfrentar o mercado, como o povo do Rio Grande do Sul, os garotos de Brasília e a massa alternativa de São Paulo.

Com a indústria do disco toda centralizada no Rio de Janeiro, São Paulo precisou de uma teia alternativa muito forte para desovar sua produção mais radical. Eram selos como a Baratos Afins e bandas como Akira S & As Garotas Que Erraram, Fellini ou Gueto. Sucessos vindos do circuito underground, como RPM e Zero, abriram os olhos do mercado para outras praças além de Ipanema.

No Planalto Central, a Plebe Rude conseguiu seu primeiro contrato com a ajuda de Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso. O músico, que já havia levado a Legião para a EMI, produziu o mini-LP O Concreto Já Rachou, em 1986, emplacando sucessos como “Proteção” e “Até Quando Esperar”. As letras e as atitudes da Plebe mitificaram ainda mais sua imagem. Receber o disco de ouro no bagunçado programa Perdidos na Noite (de Fausto Silva, na Rede Record e depois na Bandeirantes) em detrimento do campeão de audiência Chacrinha, era um exemplo do que atiçava o imaginário de seus asseclas.

Na Bahia, em 1982, o fã fervoroso de Chuck Berry, Little Richards e Raulzito & Os Panteras, Marcelo Nova, montou o Camisa de Vênus. O som: um híbrido de punk e rock das antigas com letras agressivas e espalhafatosas. O esporro sonoro, casado com apresentações intensas e inesquecíveis, fez do grupo um fenômeno de público totalmente à margem do showbiz da época.

No Rio Grande do Sul, em 1986, uma cena ultra-organizada recebeu o convite do selo Plug, da gravadora BMG, que lançou a coletânea Rock Grande do Sul, com bandas como TNT, De Falla, Engenheiros do Hawaii, Replicantes e Garotos da Rua. Mas desde antes disso a cena gaúcha já era auto-sustentável. Selos, casas de shows na capital e no interior, rádios e publicações traziam uma estrutura acima da média brasileira. Entre todos esses grupos, o Engenheiros do Hawaii, justamente o menos típico, foi o maior destaque do pacotão. Outro clássico foi o Replicantes, que cravou o hino dessa geração com “Surfista Calhorda”, do álbum O Futuro É Vortex, de 1986.

A gente somos inútil

Texto Marco Bezzi

“A gente não sabemos escolher presidente/ a gente não sabemos tomar conta da gente/ a gente não sabemos nem escovar os dente/ tem gringo pensando que nós é indigente.” O primeiro single dos paulistanos do Ultraje a Rigor se encaixou com perfeição no contexto da pátria que lhes pariu, em 1983. A música, que nasceu de pequenos fatos relacionados ao país (a primeira frase da canção foi inspirada numa frase de Pelé), ganhou cunho político e social quando o então mestre-de-cerimônias Osmar Santos tocou “Inútil” para 10 mil pessoas, no primeiro comício pré-eleição diretas, em São Paulo. A música, que estava proibida de ser veiculada pela Censura, tomou de assalto os formadores de opinião em todo o país.

Tendo como lado B “Mim Quer Tocar”, Inútil foi lançado no final de 1983. Num outro golpe de sorte e publicidade espontânea, o deputado Ulysses Guimarães chamou a atenção para a letra da canção em um discurso na Câmara Federal.

Foi o estopim para os olhos mais sagazes prestarem atenção dobrada ao grupo do carismático vocalista/guitarrista Roger Moreira. O Ultraje lançaria Nós Vamos Invadir Sua Praia em 1985, caindo na graça da crítica, rádio, TV e público. As quatro canções de sucesso que o antecederam lançadas em singles pesaram na escolha de “a nova aposta da gravadora”. O álbum vendeu 500 mil cópias, todas as suas faixas viraram hits radiofônicos. E o Brasil pós “Diretas Já” continuou tendo muito de “Inútil”.

Tesouros perdidos do rock dos anos 80

Gang 90 & As Absurdettes

Perdidos na Selva (Hot/WEA, 1982)

A pedra de tropeço do rock brasileiro. Eis a Gang em seu registro mais vívido e histórico.

Patife Band

Corredor Polonês (Warner, 1987)

Paulo Barnabé, irmão de Arrigo, laçou o tropicalismo, a vanguarda paulista e o punk no único disco de sua banda. Polirritmia e barra-pesada que assustou tanto roqueiros como emepebistas.

Rapazes de Vida Fácil

Adriana na Piscina/Má Reputação (Polydor, 1983)

Banda (ultra) new wave do atual letrista do Capital Inicial, Alvim L. Clássico das danceterias que o tempo esqueceu.

Picassos Falsos

Picassos Falsos (Plug-RCA, 1987)

Pouca gente ouviu, mas os Picassos avisaram que era possível misturar samba e rock sem estragar a festa.

Mulheres Negras

Música e Ciência (WEA, 1988)

Falso rigor científico e disfarce de pop. André Abujamra e Maurício Pereira atuaram como cientistas malucos do rock nacional.

Cascavelletes

Demo tape (1986)

Porno-garage-billy de Porto Alegre que influenciou toda uma geração. As demo tapes vendiam bastante por toda a região. O LP, lançado em 1987, emplacou “Nega Bom Bom”, mas fez água.

Blitz

Ela Quer Morar Comigo na Lua/ Cruel Cruel Esquizofrenético Blues (EMI, 1983)

Raríssimo single que finalmente trazia a público as faixas vetadas do LP. O rock vencia a censura.