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Rock in Rio: Todo mundo junto!

Texto Jaime Biaggio

Foram dez dias que colocaram o público jovem brasileiro na ordem do dia para gravadoras, rádios, jornais, emissoras de TV e revistas. O Rock in Rio es-palhou a música pop nacional por todo o país e atropelou o amadorismo do nos-so showbiz com uma superprodução para Queen, Iron Maiden, Ozzy e Yes nenhum botar defeito

Em Brasília, o dia 15 de janeiro de 1985 nasceu feliz. Pela manhã, no plenário do Congresso Nacional, transformado para a ocasião em “colégio eleitoral”, a escolha de Tancredo Neves como novo presidente da República pôs fim a mais de 20 anos de ditadura militar. Poucas horas depois, no Rio de Janeiro, um Cazuza ainda saudável se despedia do público do primeiro show do Barão Vermelho no Rock in Rio discursando em “Pro Dia Nascer Feliz”. “Que o dia nasça feliz amanhã pra todo mundo! Um Brasil novo… uma rapaziada ishsperrrtaaa!!”, gritava o cantor, em alto e bom baixo-leblonês. Era, então, o quinto dia do festival, que fora aberto no fim da tarde de 11 de janeiro pelo ex-Secos & Molhados Ney Matogrosso, cantando, sintomaticamente: “Despeeerta/ América do Sul!”.

O regime de fome do eleitor brasileiro, que por toda a década de 70 se limitou a votar para cargos legislativos, era o mesmo dos fãs de música pop, que, até janeiro de 1985, tinham de se contentar com um Kiss aqui, um Van Halen ali, um Police acolá. O movimento das Diretas Já, em 1984, não por acaso, bateu com a ebulição do pop brasileiro. Como conseqüência lógica de tudo isso, Tancredo Neves e o Rock in Rio chegaram juntos. “Nós, os Paralamas, o Barão, fazíamos a maior festa nos camarins. Sabíamos que era por nossa causa, pelo Circo Voador, que aquele megaevento estava acontecendo”, diz, orgulhosa, Paula Toller. O showbiz brasileiro também reconhece hoje uma divisória separando o antes e o depois do Rock in Rio. “Os artistas da MPB eram relapsos em relação à qualidade dos equipamentos. O Rock in Rio ajudou a mudar isso”, resume o baterista do Barão, Guto Goffi, ao que Paula completa: “Foi só depois dali que a gente virou profissional”.

Salvo pela rainha

“A fama do Brasil era péssima”, lembra o empresário e produtor Roberto Medina, que, em 1980, trouxera um desconfiado Frank Sinatra para cantar no Maracanã. “Em 1984, viajei para Los Angeles com vídeos, plantas, esquemas… Em 70 reuniões, ouvi 70 nãos. ‘Vocês roubam equipamento, não pagam cachê, não têm luz…’, eles diziam.” Nem dá para culpar os estrangeiros: as raríssimas visitas pop ao Brasil até então tinham, quase todas, terminado em barracos embaraçosos.

O projeto era um show de megalomania: 500 mil metros quadrados de área total, com helipontos, lanchonetes, bares e minisshoppings. O palco (na verdade uma base giratória comportando três palcos) tinha 80 metros de boca de cena, a maior do mundo. Jim Beach, manager do Queen, acabou convencido, depois de Ozzy Osbourne dar o o.k. O aval do Queen, habituado a aparatos gigantescos de produção, tornou outros artistas mais receptivos.

Mostra tua cara

Entre os brasileiros, a meta era estar no festival, custasse o que custasse. “Forçamos a mão para estar lá”, admite o paralama João Barone, cuja banda atendia então por “revelação”. “Nosso empresário ligava todo dia para o Medina”, resume Herbert Vianna. Cachê, óbvio, nem estava em discussão.

Com o início do festival, na tarde de 11 de janeiro de 1985, confirmou-se a grande jogada que fora o investimento no heavy metal: a apresentação única do Iron Maiden arrastou centenas de “metaleiros” para a Cidade do Rock. Por outro ângulo, a organização foi forçada a perceber a burrada que tinha feito ao programar artistas de MPB, rock brasileiro, enfim, qualquer coisa para abrir os shows dos ídolos do metal. Ney Matogrosso, o primeiro da noite, sofreu, mas não perdeu a pose. “Eles jogavam coisas em mim, eu jogava neles de volta! Vão se f****!”, esbraveja Ney. O grande mártir do primeiro dia, porém, acabou sendo Erasmo Carlos, trajando um figurino de inspiração metaleira que só irritou mais as hordas. “Nunca imaginei que fossem reagir dessa forma”, lembra Erasmo. “Eles acreditavam que o Ozzy comia rato, estavam motivados por aquilo.”

Àquela altura não restava muito a fazer a não ser agüentar a pemba. Na estréia de Scorpions e AC/DC, no mítico 15 de janeiro, a “festa da democracia” foi manchada pela chuva de copos de papel e pedregulhos com que os metaleiros recepcionaram os brasileiros, em particular o Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens e Eduardo Dusek. “Tirou o humor e a concentração”, lembra Paula Toller. “Pior foi fingir para a TV que tudo tinha sido ótimo.”

Eduardo Dusek, de figurino clown brega (terninho estampado com bandeiras de vários países), também virou alvo. “Foi o pior público do festival e eu tive de enfrentá-lo.” Ao contrário dos assustados abóboras-selvagens, Dusek revidou. “As pessoas que estão jogando coisas no palco têm mais é que ser linchadas”, gritava. “Não está a fim de escutar música? Fica em casa e se suicida!”

Para os artistas brasileiros, não ser hostilizado já estava bom. Na primeira noite, Pepeu Gomes passara incólume por ter percebido antecipadamente o vespeiro. “Mudei o repertório antes do show. Tava mais pop, levei para um lado instrumental. Foi o que me salvou da guilhotina”, brinca. O Barão Vermelho, no dia 15, também segurou firme, graças ao som cru e ao jeito desbocado de Cazuza.

Foi só no dia 16, que um grupo brasileiro conseguiria dar o troco. De todas as escalações estapafúrdias do festival, nenhuma batia aquela: Paralamas, Moraes Moreira, Rita Lee, Ozzy Osbourne e Rod Stewart. Claro que os metaleiros apareceram para ver Ozzy, porém, estavam em minoria. Herbert Vianna aproveitou o espaço: “Se não gostam de quem está tocando, fiquem em casa aprendendo a tocar. Quem sabe no próximo vocês não estão aqui em cima?” Surtiu efeito.

Abaixa o som

Muitos brasileiros se ofenderam com a potência inferior de som a que tinham direito. “Saí do palco, fui ao camarote do Medina e avisei: temos um problema sério”, se exalta Ney Matogrosso. “O som era insuficiente para aquele espaço.” Leoni, então baixista do Kid Abelha, confirma o privilégio em favor dos estrangeiros. “Só podíamos ficar meia hora na passagem de som, incluindo a montagem dos equipamentos. O AC/DC tinha horas só para o som da guitarra.”

“Os brasileiros não sabiam mexer na aparelhagem”, lembra Medina. “precisei deixar tudo na mão dos americanos, que sacaneavam mesmo.” Já em relação as ordens que os artistas nacionais receberam para sair do palco, o empresário se defende: “Eles não estavam habituados a respeitar cronogramas”. Em alguns casos, as cenas foram constrangedoras. O primeiro show de Lulu Santos terminou com o palco giratório se movendo e levando o cantor embora no meio de uma música.

Para os artistas nacionais, o Rock in Rio foi uma tremenda vitrine. Em 1984, a garotada do Brasil vivia um efeito retardado da new wave. Começava a lotar shows e adquirir o hábito regular de comprar discos das bandas nacionais. No Rock in Rio, a consagração dos Paralamas, somada aos eficientes shows do Barão, Kid Abelha e Lulu Santos, virou a maré para a praia do rock nacional. E até os ausentes no festival, como Ultraje, RPM e Legião Urbana, decolaram.

Reportagem publicada originalmente em janeiro de 2000 na revista Bizz.

1985

Janeiro

• O civil Tancredo Neves é eleito presidente do Brasil, pondo fim a mais de 20 anos de ditadura militar. Ele não assume, falecendo em 21 de abril e dando lugar a José Sarney.

• Lançamento do compacto We Are the World e do álbum U.S.A. for Africa, reunindo 45 astros da música americana.

• Ocorre o Rock in Rio.

Março

• Madonna alcança o estrelato com o LP Like a Virgin.

• O Ultraje a Rigor lança Nós Vamos Invadir Sua Praia, quebrando a hegemonia carioca no rock brasileiro.

• Mikhail Gorbachev é eleito secretário-geral do Partido Comunista e se torna líder da União Soviética, alterando radicalmente sua política externa.

Maio

• A dupla Wham! é a primeira banda de pop-rock do mundo a tocar na China.

Julho

• A Microsoft lança sua primeira versão do Windows.

• Lançamento do primeiro álbum, homônimo, da Legião Urbana.

• Ocorre o megaevento Live Aid, em dois shows simultâneos, nos Estados Unidos e na Inglaterra, para socorrer os pobres da Etiópia.

• Estréia nos Estados Unidos De Volta para o Futuro.

Agosto

• Ocorre a primeira edição do Free Jazz Festival em São Paulo (atual Tim Festival).

• Vai para as bancas de todo o país o número 1 da revista Bizz, aposta da Editora Abril no novo público jovem e no rock nacional.

• Cazuza deixa o Barão Vermelho e parte para carreira-solo.

Setembro

• Estréia no Rio o show Rádio Pirata, com um RPM dirigido por Ney Matogrosso.

• O TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo), um dos mais importantes centros de cultura alternativa dos anos 70, é incendiado.

Outubro

• Morre o ator Rock Hudson, vítima da aids, chamando a atenção da opinião pública para a doença.

Novembro

• O Congresso inicia os trabalhos de uma nova Constituição Brasileira.