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Rock: Não como nossos pais

Texto Sérgio Barbo

Em 1958, o rock não é mais apenas uma dança esquisita ou um motivo para quebra-quebras nos cinemas. Surgem nossos primeiros ídolos, programas de rádio e TV e até mesmo os nossos primeiros sucessos em português. Dali em diante, o rock brasileiro nunca mais seria ignorado.

Seria uma domingueira típica, dessas comuns antigamente, em bailinhos e clubes pelo país afora, regadas a muito bolero, samba-canção e baião. Entretanto, naquele final de tarde de um distante 1955, num dia quente na pacata Taubaté, interior de São Paulo, algo aconteceu. O crooner do Conjunto Ritmos OK, Sergio Benelli Campello, resolveu incrementar o repertório com um novíssimo estilo musical vindo dos Estados Unidos: o rock’n’roll.

Alguns segundos de olhares estranhos na platéia e logo dois casais da capital presentes tomaram a liderança e os outros namorados aderiram. Em pouco tempo, o baile pegou fogo. “Foi um escândalo: pernas para o ar e calcinhas ao luar”, recorda, com humor, o crooner, famoso com o nome de Tony Campello. “O diretor do Country Clube, gesticulando apavorado, mandou cortar o som, mas ninguém parou e o rock continuou. Acabamos suspensos por atentado à moral e aos bons costumes.”

Essa história, enriquecida de sabor nostálgico como só um de seus protagonistas tem o direito de fazer, deve ter ocorrido e se repetido inúmeras vezes pelo Brasil. O rock havia recém-nascido nos Estados Unidos; como pregavam os filmes sobre o gênero, não havia opção possível para nós, terráqueos, além de nos entregarmos totalmente a ele. Mas o estilo era visto mais como uma curiosidade do que como um gênero definido – confundido ainda com o “fox-trot”. Foi Alberto Borges de Barros, filho de Josué de Barros (o descobridor de Carmen Miranda), um dos primeiros a abraçar o rock como orientação estética e não apenas uma dança bizarra.

“Betinho é o verdadeiro precursor do rock brasileiro” – quem diz isso é o único possível reclamante do posto, Tony Campello. “Além de unir qualidades como músico, compositor e cantor, ele também tinha um grande visual. O topete dele não ficava nada a dever ao do Little Richard.” O grande sucesso de Betinho em 1957, “Enrolando o Rock”, com letra em português e guitarra evidente, é um dos marcos do rock nacional. A canção fez parte da trilha do filme Absolutamente Certo, de Anselmo Duarte. Esse rock dançante se somou ao fox “Neurastênico” (1954) entre os hits do cantor. Apesar da importância, Betinho teve uma trajetória relativamente curta – já nos anos 60, converteu-se à fé evangélica e abandonou o rock.

Na época, pelo volume de sucessos, um dos principais divulgadores do novo filão era o mineiro Carlos Gonzaga. Até 1957, ele cantava guarânias e boleros e abraçou o rock com convicção aos 31 anos. A balada “Meu Fingimento”, uma cover para “The Great Pretender”, dos Platters, foi sua primeira investida no gênero. Mas seu grande sucesso – e, por tabela, do nascente rock nacional – veio no ano seguinte com a versão de “Diana”, de Neil Sedaka. A música transformou o veterano em ídolo e fez do chamado “rock-balada”, por muitos anos, o principal gênero nas rádios.

Como ordenava Ao Balanço das Horas, Gonzaga e Betinho deixaram seus gêneros musicais “ultrapassados” e levaram o rock’n’roll às paradas de sucesso do Brasil. Mas ninguém ainda havia falado do emergir de uma nova geração, jovem e vibrante, com alegria e disposição para derrubar velhos valores. Esse papel coube a dois irmãos: Tony e Celly Campello.

Ídolos da juventude

Tony (o Sérgio, dos Ritmos OK) nasceu em São Paulo, mas morava em Taubaté desde os 4 anos de idade. Depois da epifania ocorrida no Country Club, voltou para a capital em 1957, onde arranjou um trabalho no conjunto de baile do acordeonista Mario Gennari Filho. Foi Gennari quem o colocou em estúdio pela primeira vez, para cantar duas composições de sua própria lavra – “Forgive Me” e “Handsome Boy”. Como a última tinha uma temática evidentemente feminina, Tony sugeriu convidar sua irmã de 15 anos, cujo currículo se resumia a um punhado de apresentações na rádio de Taubaté. A mocinha se chamava Célia.

Era 31 de março de 1958 e aquela gravação solidificaria suas carreiras e mudaria também o amadorístico mercado fonográfico brasileiro. Editado nos formatos 78 e 45 RPM (o primeiro da Odeon), com os dois lados sendo bem executados, o disco vendeu 38 mil cópias, uma ótima marca, sobretudo para artistas iniciantes. A recepção foi inesperada. “Entramos em estúdio como artistas convidados do Mário Gennari”, conta Tony. “Mas a diretoria da gravadora ouviu o disco, achou que nós deveríamos ser lançados como artistas-solo. Eles viram a possibilidade de sermos promovidos como cantores jovens, de sermos a cara e o espelho dos adolescentes da época.” Foi aí que Ismael Corrêa, um dos diretores da Odeon, escolheu o nome definitivo com que os irmãos seriam conhecidos no Brasil inteiro: Tony e Celly Campello.

O single entusiasmou tanto a Odeon que mereceu até um pôster promocional com a foto do casal, para lojas de discos. “Eu nunca tinha visto antes esse tipo de promoção com artistas de música”, lembra o roqueiro, que teve tempo de estruturar a carreira lançando mais dois singles até chegar ao álbum de estréia, Tony Campello, em 1959. O cantor tanto insistiu que a irmã Celly acabou ficando na capital e gravando discos. Logo em seu terceiro 78RPM, ela seria catapultada para o estrelato como jamais imaginara – “Estúpido Cupido”, de março de 1959, foi para o topo das paradas e vendeu mais de 120 mil exemplares, um fenômeno para os padrões da época. Depois daquela versão para o sucesso de Connie Francis, o rock brasileiro nunca mais seria ignorado.

Na sequência, veio o convite para os irmãos apresentarem um programa na TV Record, o primeiro totalmente voltado para a juventude. Crush em Hi-Fi apresentava astros e grupos da nascente cena roqueira nacional: Wilson Miranda, George Freedman, Sérgio Murilo, Demétrius, Ronnie Cord, The Jordans e muitos outros. O Brasil tinha, finalmente, seus próprios ídolos jovens.

Circuito roqueiro

Com tanta gente produzindo música jovem, a partir de 1959, rádios e TVs, revistas, gravadoras e até mesmo o cinema passaram a dar maior espaço para o estilo. Surgiram programas como Ritmos para a Juventude (na Rádio Nacional de São Paulo, com o radialista Antonio Aguillar), Clube do Rock (Rádio Tupi carioca, com Carlos Imperial) e Alô, Brotos! (TV Tupi, com os cantores Sônia Delfino e Sérgio Murilo).

A rejeição compreensível em relação àquele bando de jovens topetudos era inevitável, especialmente no período em que a bossa nova se firmava, entre 1958 e 1962. “O curioso é que apenas os bossa-novistas de ‘segundo escalão’ repudiavam o rock”, desconfia Tony. “Artistas como Cyro Monteiro, Tom Jobim, Tito Madi, Sílvia Telles gostavam da gente. O Cyro adorava ‘Índio Sabido’ da Celly.” E vai além: “Alguns DJs também não tocavam as nossas músicas. Por outro lado, existiam programas de rádio, como o do Enzo de Almeida Passos, do Carlos Alberto ‘Sossego’ e outros, que divulgavam bastante nosso trabalho. O cinema era um excelente meio, então fazíamos filmes com Mazzaropi, como Jeca Tatu e Zé do Periquito”.

Em 1960, até uma revista direcionada ao “brotos” surgiu, a Revista do Rock. Dali a pouco foi criada uma gravadora especializada em rock, a Young, organizada pelo DJ paulista Miguel Vaccaro Neto e pela Editora Musical Fermata. Foi a Young que lançou novos valores como a cantora Regiane (uma das primeiras rivais de Celly), Hamilton di Giorgio e os grupos The Rebels e The Avalons.

O principal astro do elenco da Young era o bonitão Demétrius. Em 1960, quando cantava músicas de Elvis Presley em uma festa de aniversário, foi convidado por Vaccaro Neto para gravar seu primeiro disco – Hold Me So Tight. A música foi bem executada nas rádios de São Paulo e sua carreira deslanchou. No ano seguinte, foi a vez de “Corinna, Corinna”, que logo transformou-se num dos maiores sucessos do cantor. Logo sucederam-se mais gravações de LPs e compactos, despontando hits antológicos como “Rock do Saci”. Sua carreira seguiria em curva ascendente até 1964, quando lançou “O Ritmo da Chuva”, versão para “Rhythm of the Rain” dos Cascades, que consagrou-o como um dos maiores ídolos da época.

Dentro dessa primeira dentição do rock brasileiro, o cantor e compositor Wilson Miranda é outro que merece destaque. Ele havia se lançado como crooner de jazz e passou a cantar rock-baladas no final dos anos 50, sob a desconfiança da crítica. A partir de 1958, com “Quando”, ele experimentou o sucesso comercial de músicas como “Bata Baby” (versão de “Long Tall Sally”, de Little Richard) e “Alguém É Sempre Bobo de Alguém”.

Hino

Curiosamente, o maior hino do rock brasileiro pré-jovem guarda veio apenas em 1964. Era “Rua Augusta”, escrita por Hervê Cordovil (parceiro de Noel Rosa) e gravada por seu filho Ronaldo, que artisticamente atendia por Ronnie Cord. Com uma harmonia simples, como a maioria dos rocks de então, “Rua Augusta” trazia uma letra que captava com perfeição o espírito daqueles anos dourados: “Entrei na Rua Augusta a 120 por hora/ botei a turma toda do passeio pra fora/ fiz curva em duas rodas sem usar a buzina/ parei a quatro dedos da vitrina… Legal!”. Ronnie era paulista e já tinha feito o primeiro hit em 1960 com uma cover de “Itsie Bitsie Teenie Weenie Yellow Polkadot Bikini”, de Brian Hylland – quatro anos depois, curiosamente, ele retornou às paradas com uma versão em português da mesma canção: “Biquíni de Bolinha Amarelinha”. Outro clássico.

Era mesmo na cidade da Rua Augusta que o rock efervescia, com o aparecimento de diversos cantores, que, se não conseguiram êxito comercial, colaboraram em dar tamanho e variedade para a coisa. Alemão de nascimento, George Freedman surgiu cantanto em 1959 com “Hey Little Baby”. Mas sua música mais conhecida é a divertida “Advinhão” – assim como “Bata Baby”, também escrita por Baby Santiago. Um dos roqueiros mais radicais da época foi Albert Pavão, autor de uma interessante versão de “Twenty Flight Rock”, de Eddie Cochran, em 1963, que virou “Vigésimo Andar”. Essa gravação contém muitas curiosidades históricas, por contar com arranjo de Rogério Duprat (futuro maestro dos Mutantes) e guitarras de Boneca e Heraldo do Monte. Anos depois, Pavão especializou-se em jogar luz no período inicial do rock brasileiro, seja organizando coletâneas e relançamentos em CD, seja escrevendo sobre a época.

Enquanto isso, em Copacabana…

Sem redes de TV, o movimento paulistano era virtualmente desconhecido fora do estado. Assim, o Rio de Janeiro tinha seu próprio circuito roqueiro formado em volta de casas como o Blue Riviera e do sucesso televisivo de Sérgio Murilo e Sônia Delfino. Sérgio é o responsável por rocks antológicos como “Marcianita” , “Broto Legal” e “Rock de Morte” , que lhe renderam em 1961 o título de Rei do Rock pela Revista do Rock. Sônia, que dividia com ele o comando do programa Alô, Brotos!, era considerada a resposta carioca a Celly, com hits como “Diga Que Me Ama” e “Bimbombey”.

Rainha

Enquanto a turma do rock se organizava como uma verdadeira geração, Celly se destacava como o principal ídolo jovem do Brasil. Com aparência sadia, simpatia, carisma e voz afinada, ela era uma coqueluxe nacional. Os hits se acumulavam: “Banho de Lua”, “Lacinhos Cor-de-Rosa”, “Tunel do Amor”, versões de Fred Jorge para hits estrangeiros.

As propostas de merchandising não tardaram. Por convite do publicitário Miguel Gustavo (autor de “Rock and Roll em Copacabana”), Tony e Celly gravaram um jingle do achocolatado Toddy. O sucesso foi tamanho que os fãs pediam a trilha durante os shows. “Tudo o que fazíamos, principalmente a Celly, se tornava sucesso”, conta o cantor. E assim surgiram produtos como o chocolate Cupido (lançado pela Lacta), a boneca Celly (com a qual aparece na capa de seu LP A Bonequinha Que Canta, de 1960) e um cinto. “Se eu fosse mais esperta, teria me transformado na Xuxa dos anos 60”, declarou a cantora anos depois.

O superexposição e o cansaço das turnês foram certamente fatores que motivaram Celly a se afastar da carreira no auge de popularidade, logo após ser coroada Rainha do Rock pela Revista do Rock. Em maio de 1962, ela se casou com um namorado da adolescência, o contador José Eduardo Gomes Chacon. Sua retirada encerrou um ciclo. Dali alguns meses, Roberto Carlos inicaria nova fase no rock brasileiro. Tony Campello alcançou sucesso nos anos 60 com “Pobre de Mim” e “Boogie do Bebê”, mas passou a se interessar pela produção na medida que não conseguiu se adaptar à jovem guarda: “Eu era roqueiro, de topete, como eu ia usar aquelas roupas com gola apertada imitando ingleses?”, questiona o decano do rock’n’roll brasileiro. Tem sua lógica.

1957

Janeiro

• Carlos Imperial inaugura o Clube do Rock.

Março

• O soviético Sputnik é o primeiro satélite lançado ao espaço.

• Betinho & Seu Conjunto aparecem no filme Absolutamente Certo, de Anselmo Duarte.

Julho

• Paul McCartney é convidado por John Lennon para entrar no Quarry Men, grupo que anos depois seria rebatizado como The Beatles.

1958

Janeiro

• Os Estados Unidos anunciam a criação da Nasa.

• Toni Tornado aparece em um programa de TV dublando sucessos do rock.

• Little Richard emplaca “Long Tall Sally” e “Tutti- Frutti” simultaneamente.

• Cauby Peixoto é eleito o mais popular pela Revista do Rádio.

Maio

• Bill Haley se apresenta no Maracanãzinho

• A Odeon lança Forgive Me/ Handsome Boy, de Tony e Celly Campello.

• Elvis Presley lança “Jailhouse Rock”.

Junho

• Após desentendimento com Tim Maia, Roberto Carlos deixa o Sputniks.

• A Seleção Brasileira de Futebol conquista a Copa do Mundo da Suécia.

Julho

• Sérgio Murilo estréia no filme Alegria de Viver, de Watson Macedo.

• João Gilberto lança Chega de Saudade, marco inicial da bossa nova.

Agosto

• Roberto Carlos faz uma participação em Agüenta o Rojão, de Lívio Bruni, em que também aparecem Betinho e Carlos Imperial.

• Bolão & Seus Rockettes chegam às paradas com “Short Short”.

Outubro

• Roberto Carlos toca bossa nova no programa de Sônia Delfino, Alô, Brotos!, dirigido aos jovens.

1959

Janeiro

• Nasce o selo Young, dedicado exclusivamente a artistas jovens de rock.

Fevereiro

• Sérgio Murilo é contratado pela Columbia.

• Buddy Holly e Ritchie Valens morrem em um desastre aéreo (dia 3).

• Os irmãos Barros formam o Renato & Seus Blue Caps, o mais duradouro grupo do rock brasileiro.

Março

• Celly Campello faz sucesso com “Estúpido Cupido”, lado B de um compacto.

Maio

• Estréia o programa Crush em Hi-Fi na TV Record, apresentado por Tony e Celly Campello.

Junho

• O dinamarquês Knud Gregersen abre o primeiro estúdio de tatuagem elétrica no Brasil.

Julho

• Roberto Carlos estréia na Polydor com duas bossas de Carlos Imperial, “João e Maria” e “Fora do Tom”.

Outubro

• Sérgio Murilo grava seu maior clássico, “Marcianita”.

1960

Janeiro

• Ronnie Cord assina com a Copacabana e grava “Pretty Blue Eyes”, acompanhado de Betinho & Seu Conjunto.

Fevereiro

• Brasília, a nova capital federal do Brasil é inaugurada por Juscelino Kubitschek.

Abril

• Morre aos 21 anos, em um acidente de carro, o roqueiro Eddie Cochran.

• É lançada a pílula anticoncepcional, responsável em boa parte pela revolução sexual e pelo feminismo dos anos 60.

Outubro

• Jânio Quadros é eleito o novo presidente do Brasil, para renunciar dez meses depois.

Novembro

• Éder Jofre vence o mexicano Eloy Sanches e conquista o título mundial de boxe na categoria peso galo.

O personagem: Baby Santiago

O rock brasileiro é cheio de heróis sem o devido reconhecimento. Um deles, que deveria ser sempre reverenciado, é Baby Santiago, negro, paulista e um dos mais originais compositores do nascente rock nacional. O “Chuck Berry brasileiro” nas palavras do professor e maestro Theotônio Pavão, segundo o livro Rock Brasileiro 1955/1965, de Albert Pavão. A comparação se deve especialmente às suas letras, originais, sagazes e metricamente perfeitas. Nascido Fulgêncio Santiago, em São Paulo, em 17 de outubro de 1933, Baby surgiu com o sucesso de “Bata Baby”, versão de “Long Tall Sally” (Little Richard), que dividiu com o cantor Wilson Miranda em 1960.

Na contramão das versões, Baby Santiago destacou-se por escrever músicas originais, com letras talentosas e cheias de humor. É dele a clássica “Advinhão” (também em parceria com Miranda), gravada por George Freedman, em 1961. Outras duas pérolas nascidas da verve do gênio Santiago são “Rock do Saci” (1961) e “A Bruxa” (1964), sucessos com o cantor Demétrius. Mas, talvez as mais expressivas criações de Santiago sejam “Estou Louco” (1962) e “Boogie do Guarda” (1963), registradas por ele próprio em raros 78 RPM. Uma de suas canções mais controversas é “Lucifer”, gravada por Sérgio Murilo em 1965.