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Shang-Chi: os esforços da Marvel para conquistar a China

"Shang-Chi: A Lenda dos Dez Anéis", que estreia em 2 de setembro, tem a missão de apresentar uma nova mitologia mística (e cheia de artes marciais) dentro do MCU. Mas o maior desafio do estúdio é outro: fazer dinheiro na China (sem correr o risco de acabar barrado pelo governo de lá).

Por Rafael Battaglia Atualizado em 19 ago 2021, 20h21 - Publicado em 19 ago 2021, 18h32

Em julho de 2019, o mundo ainda se recuperava da ressaca pós-Vingadores: Ultimato, lançado três meses antes. Mas Kevin Feige, presidente do Marvel Studios, não perdeu tempo: durante um painel da San Diego Comic-Con, ele anunciou uma série de novos projetos do MCU (o universo cinematográfico da Marvel) – deixando os fãs novamente em polvorosa.

Dentre os anúncios daquele dia estavam filmes como Viúva Negra, o próximo Doutor Estranho e a primeira leva de séries Marvel do Disney+: WandaVision, Falcão e o Soldado Invernal, Loki e What If… Mas uma das novidades chamou atenção por não ser lá muito conhecida: Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis

Criado em 1973, Shang-Chi (também chamado de Mestre do Kung-Fu nos quadrinhos) é filho de Zheng Zu, chefe de uma organização criminosa. Sem nenhum superpoder, o jovem chinês cresceu isolado do mundo, treinando diversas formas de combate. Quando virou adulto, decidiu não seguir os caminhos do pai – e enfrentá-lo.

  • Capa da HQ
    Marvel Comics/Reprodução

    Só tem um problema nessa história. Zu é baseado no Dr. Fu Manchu, criado no início do século 20 pelo escritor inglês Sax Rohmer e que inspirou diversos vilões, como o Imperador Ming (Flash Gordon) e o Mandarim (Homem de Ferro). Com o tempo, o seu arquétipo (chefão do crime, feiticeiro, bigode comprido) passou a ser visto como algo negativo, que reforça um estereótipo racista em relação aos chineses.

    O arquétipo do Dr. Fu Manchu faz parte de algo chamado Yellow Peril (“Perigo Amarelo”, em inglês) – a ideia de que os asiáticos são uma ameaça ao mundo ocidental. Nos EUA, imigrantes e descendentes asiáticos convivem com assédio e discriminação desde o século 19. Recentemente, o assunto voltou à tona após ondas de violência a essa parcela da população no país – em parte devido à Covid-19, já que os primeiros casos da doença surgiram na China.

    Ilustração de Fu Munchu.
    Domínio Público/Reprodução

    O mercado

    Para entrar na China, os filmes precisam passar pelo crivo dos censores. É por isso que, não raro, produções de Hollywood adicionam cenas (e cortam outras) para receber autorização do Partido Comunista Chinês.

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    Além de Shang-Chi, há um outro filme da Marvel que corre ainda mais risco de ser barrado: Eternos, que estreia em novembro. Motivo: a diretora Chloé Zhao virou persona non grata na China após declarações críticas ao seu país de origem. A sua vitória no Oscar deste ano por Nomadland nem repercutiu na censurada mídia local – e o longa sequer foi exibido por lá.

    Os rumores sobre Shang-Chi Eternos surgiram em maio, quando a revista Variety noticiou que eles ficaram de fora de uma lista de futuros lançamentos da Marvel do canal CCTV6 China Movie Channel. “A omissão pode parecer pequena, mas seu significado está em sua procedência: o canal está sob a jurisdição do poderoso departamento de propaganda da China, que tem a palavra final sobre a aprovação de filmes”, escreveu Rebecca Davis, editora da publicação.

    Até esta quinta-feira (19), Shang-Chi ainda não recebeu uma data de estreia na China. Para a Marvel, ser barrada seria um péssimo negócio, já que o país é o segundo maior mercado do estúdio – quase tão grande quanto o dos EUA:

    Gráfico mostrando a bilheteria dos três últimos Vingadores nos EUA, na China e no resto do mundo.
    Juliana Briani/Superinteressante

    A saída

    Para contornar o problema, a Marvel mesclou a história de alguns personagens do seu universo para criar uma nova origem para o pai de Shang-Chi, que se chamará Wenwu. Ele será uma mistura de Zheng Zu com o Mandarim dos quadrinhos. A expectativa, inclusive, é que o filme faça uma ponte com Homem de Ferro (2008), que introduziu (ainda que brevemente) a organização dos Dez Anéis no MCU. O ator Ben Kingsley, que apareceu em Homem de Ferro 3 (2013), foi confirmado em Shang-Chi, mas ainda não há detalhes sobre a sua participação.

    (Vale lembrar que essa não será a primeira mudança em um filme da Disney para se adequar à China: o live-action de Mulan deixou de fora o dragãozinho Mushu, criticado pelos chineses por banalizar um símbolo sagrado da cultura local.)

    Além dessa alteração, a Marvel tratou de escalar uma equipe que refletisse a diversidade e representatividade da história. O diretor Destin Daniel Cretton, que é também um dos roteiristas, nasceu no Havaí e é descendente de japoneses. O elenco possui nomes como Michelle Yeoh e Awkwafina, de Podres de Ricos (2018), e Tony Chiu-Wai Leung (Amor à Flor da Pele), celebrado ator de Hong Kong. Já o papel principal coube ao sino-canadense Simu Liu, mais conhecido pela sitcom A Loja da Família Kim, que, atualmente, não está disponível em nenhum serviço de streaming no Brasil.

    Recentemente, Liu se desentendeu com o CEO da Disney, Bob Chapek. Em uma reunião com investidores da empresa, Chapek disse que Shang-Chi será “um teste interessante para nós, porque ele terá uma janela de apenas 45 dias [entre o lançamento nos cinemas e no Disney+]”. O intervalo é considerado curto para os padrões de Hollywood – antes da pandemia, filmes costumavam demorar três meses para ir para plataformas on demand. Nas redes sociais, Liu rebateu: “Nós não somos um teste. (…) Somos uma celebração de cultura e alegria que vai perseverar após um ano sitiado”. Para Kevin Feige, tudo não passou de um “mal-entendido”.

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