GABRILA65162183544miv_Superinteressante Created with Sketch.

Slow: Elogio à lerdeza

Rodrigo Rezende

Bolsa de valores do Japão, 1990. Kamei Shuji resolve fazer hora extra e não volta para casa. O corretor que trabalhava 12 horas por dia, sem folgas, sofre um ataque cardíaco fulminante e é vítima de karoshi, ou “morte por excesso de trabalho”, causa mortis de cerca de 10 mil japoneses por ano. Semáforo da cidade de Ulm, Alemanha, 2002. Militantes do movimento Slow (“Devagar”, em inglês) convidam pedestres apressados a experimentar a sensação de atravessar a rua com um cágado na coleira. Se Shuji tivesse dado umas voltas em Ulm, talvez seu destino fosse outro. Shuji e o cágado estão em Devagar, do escocês Carl Honoré, ex-rushaholic (viciado em velocidade) que se converteu ao Slow no dia em que se pegou comprando um livro de histórias infantis de 1 minuto. O movimento que prega a desaceleração no cotidiano por meio de atitudes como refeições longas, horas de sexo e redução da jornada de trabalho tem ganho milhares de adeptos – o livro de Honoré é sucesso pelo mundo. Confira uma entrevista com o autor.

Por que as pessoas vivem apressadas?

Porque elas têm a ilusão de que a correria vai deixá-las mais produtivas e saudáveis. Não percebem que não estão vivendo a vida, mas sim atropelando-a.

Qual a principal dificuldade em pregar o Slow num mundo em velocidade frenética?

Enfrentar o tabu cultural associado à lentidão. Mas ao perceber como é bom desacelerar, que nos permite trabalhar, comer e fazer amor melhor, você coloca o tabu de lado e tem dó dos que vivem correndo.

O Slow não é uma espécie de retorno ao Ludismo, movimento antimáquinas do século 17?

Definitivamente não. Não acho que seja possível se livrar da tecnologia do mundo de hoje e voltar no tempo. O que devemos fazer é criar com as máquinas uma relação que não seja de escravidão.

É possível ser Slow no Brasil, onde temos urgência em resolver problemas sociais?

Sim. Slow não tem a ver com deixar compromissos sérios de lado e sim com valorizar mais a qualidade do trabalho que a quantidade. E isso traz benefícios a todos os países, inclusive ao Brasil.