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Star Wars: como tudo começou

Saiba como George Lucas se livrou de fazer um remake de Flash Gordon para criar uma mitologia moderna e cativante

Era 1973, e George Lucas havia acabado de emplacar seu primeiro sucesso como cineasta: American Graffiti (Loucuras de Verão), um filme adolescente inspirado nos anos 1960, se tornou sucesso de público e crítica, permitindo que seu diretor ousasse tentar realizar sua maior ambição: um remake de Flash Gordon.

É isso aí. Lucas era absolutamente fascinado pelos seriais da década de 1930, com aquelas atuações exageradas, vilões pateticamente diabólicos e efeitos visuais de quinta categoria. “Claro que eu sabia quão toscos e mal executados eles eram… amando-os tanto sendo eles tão ruins, eu comecei a imaginar o que aconteceria se eles fossem realmente bem feitos.”

De início, o tio George não tentou reinventar a roda. Seu objetivo era meramente comprar os direitos sobre Flash Gordon e dar a ele nova roupagem. Não conseguiu. E aí falou: “Quer saber? Vou inventar a minha própria história.”

E assim nasceu Star Wars. Não com esse nome. No primeiro rascunho, de duas páginas apenas, o título era “Diário dos Whills”, e falava do treinamento do aprendiz CJ Thorpe como um “Jedi-Bendu” sob a liderança do lendário Mace Windy. A história era complicada para caramba, cheia de idas e voltas, o que levou Lucas a ir reescrevendo, refinando o conceito e afinando os personagens até… ele ser rejeitado pela United Artists, pela Universal Pictures e pela Disney (que, ironicamente, depois viria a comprar a Lucasfilm, e com ela Star Wars, por mais de US$ 4 bilhões).

No fim, quem topou encarar a aposta foi Alan Ladd Jr., chefe da 20th Century Fox, que fechou contrato com Lucas para que ele escrevesse e dirigisse o filme em junho de 1973. A ideia era fazer um filme de baixo orçamento – com jeitão de cinema B -, a um custo de US$ 8 milhões. Acabou saindo por US$ 11 milhões, para o desespero inicial dos executivos, que ameaçaram até mesmo cortar a produção.

Uma pergunta que muitos fãs têm é: George já tinha a história toda em mente, os seis episódios, quando começou? Como diria Obi-Wan Kenobi, “você vai descobrir que muitas das verdades em que nos agarramos dependem enormemente do nosso próprio ponto de vista”. Ou seja, sim e não.

É verdade que muitos dos elementos que apareceriam mais tarde na saga – os Sith, Anakin Skywalker (que de início tinha o sobrenome Starkiller), a luta entre ele e Obi-Wan Kenobi na beira de um vulcão, a origem de Darth Vader, a queda da República, o estilo de manipulação de Palpatine para construir o Império – surgiram nos primeiros rascunhos de Lucas, até que ele fechasse na história de Luke, Obi-Wan e a Estrela da Morte para o filme, originalmente batizado apenas como Star Wars.

Ele também tinha um desejo desde cedo de fazer uma série de filmes, a ponto de negociar com a Fox, de saída, os direitos sobre as continuações. Dizem que ele queria marcar com número de episódio já o primeiro filme, e foi impedido pelos executivos do estúdio, que não queriam se comprometer com uma sequência.

No entanto, não dá para dizer que o cineasta já sabia exatamente o começo, o meio e o fim da saga. Aliás, com certeza ele não sabia. Em meio a todos os escritos, por exemplo, não se encontra evidência de que Darth Vader e Anakin Skywalker fossem a mesma pessoa, até que a ideia surge quando Lucas começa a trabalhar em O Império Contra-Ataca. A propósito, nos primeiros rascunhos, a continuação era tratada como “Episódio II”. Só depois virou o V, e o primeiro se tornou o IV.

PRODUÇÃO ATRIBULADA

E não foi fácil levar o roteiro às telas. As filmagens na Tunísia, que serviu como dublê de Tatooine, foram infernizadas por tempestades de areia e um R2-D2 por controle remoto que não funcionava direito nem a pau.

Os efeitos especiais foram um problema à parte. Lucas descobriu que a Fox havia simplesmente desintegrado sua própria equipe e, para fazer coisas nunca antes vistas no cinema, tomou a corajosa decisão de criar sua própria empresa de efeitos visuais: a Industrial Light and Magic. Melhor coisa que ele poderia ter feito, mas deu muita dor de cabeça. Lucas teve de fazer marcação cerrada para eles entregarem as tomadas no prazo.

Para piorar, quase ninguém acreditava que aquela história maluca pudesse realmente fazer sucesso. Nem mesmo os atores. George estava determinado a escalar somente desconhecidos para o filme, mas, pressionado pelo estúdio, acabou dando o papel de Obi-Wan a um veterano com reconhecimento internacional: sir Alec Guinness. Aliás, de todo o elenco, ele era o único que acreditava no sucesso e apostou nisso: negociou seu contrato em troca de 2% dos royalties destinados a George Lucas. Ficou rico com a decisão.

De toda forma, o desgaste com a produção fez o criador de Star Wars pensar seriamente em não se envolver mais com sua criação e até se esconder num buraco qualquer no dia da estreia. Isso até ele ver filas de quarteirão se formando nas salas de cinema para ver sua versão atualizada de Flash Gordon. E aí ele teve a convicção de que aquele era só o começo da aventura.

Inspirações mitológicas

Lucas bebeu em duas fontes muito distintas para construir sua saga. A primeira, e mais óbvia, foi a ficção científica. Além dos seriais de Flash Gordon, a série literária John Carter e o livro Duna foram influências importantes. O cineasta também se inspirou nos filmes de samurai de Akira Kurosawa. Contudo, a referência mais impressionante foi um livro de não ficção: O Herói de Mil Faces, escrito pelo mitologista Joseph Campbell.

Na obra, o pesquisador detalha como diversas mitologias apresentam de forma recorrente uma certa estrutura narrativa em torno do herói arquetípico. Lucas modelou seu Luke Skywalker com base nessas pistas, o que o coloca lado a lado com personagens clássicos da mitologia grega, como Hércules, Perseu e Édipo.

Campbell resumia o que ele chamava de monomito da seguinte maneira: “O herói avança do mundo do cotidiano para uma região de maravilha sobrenatural. Forças fabulosas são encontradas lá e uma vitória decisiva é conquistada: o herói volta dessa misteriosa aventura com o poder para distribuir bênçãos para seus companheiros.”

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Comentários

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  1. Perkins Teodoro Moreira

    Alec Guinness não acreditava no filme, aliás o odiava e propôs a própria morte no enredo como escapatória. Os 2% foram negociados por seu agente, mas ninguém acreditava que o filme faria sucesso.

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