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Turma da Mônica: Laços – um dia nas gravações do filme

Nosso repórter acompanhou as filmagens da primeira adaptação em carne e osso dos personagens de Mauricio de Sousa. O longa estreia no dia 27 de junho.

O dia amanheceu ensolarado em 27 de julho de 2018. Há quase um ano, eu estava em um carro a caminho do Sítio Florentino, em Mairiporã, na região metropolitana de São Paulo.

Apesar de localizado a menos de uma hora da capital paulista, o sítio ficava em uma região com tudo o que se pode esperar de uma zona rural. A estrada de terra era cercada por uma alta vegetação, e as casas, de construção simples, tinham vista para um pedaço encantador da Serra da Cantareira.

Alguns elementos quebravam a paisagem: vans, carros com gerador de energia e muitos, muitos cabos. É que ali, naquela semana, Turma da Mônica: Laços estava sendo filmado.

O filme, que estreia no dia 27 de junho, é a primeira adaptação live action (com atores de carne e osso) dos personagens criados por Mauricio de Sousa. A SUPER foi a única revista a acompanhar um dia de filmagem, no qual conferimos a gravação de algumas cenas, além de bater um papo com o diretor, Daniel Rezende. Pegue a sua melancia e veja como foi.

 (Paris Filmes/Divulgação)

O quarteto principal

Cheguei no sítio no horário de almoço. Devia haver de 50 a 60 pessoas ali. Com toda essa gente, o refeitório não dava conta, e a equipe precisava se revezar para comer.

Espalhadas pelo local, algumas pessoas aproveitavam para descansar nas camas dos quartos mais próximos ou na grama mesmo. E no campinho de futebol, Mônica, Magali, Cebolinha e Cascão jogavam bola à todo vapor.

As quatro crianças corriam pelo campo, subiam no escorregador e brincavam com todos os que passavam por ali. Chegar no set e dar de cara com essa cena foi como ser transportando, ainda que muito brevemente, para dentro de um gibi.

Os atores mirins são: Giulia Benite (Mônica), Kevin Vechiatto (Cebolinha), Laura Rasco (Magali) e Gabriel Moreira (Cascão). Eles foram escolhidos em um longo processo que envolveu de 7 a 8 mil candidatos. “Eu assisti a mais ou menos 2 mil vídeos durante a seleção”, disse Daniel Rezende, diretor do longa.

Essa fase envolveu também dinâmicas e workshops presenciais, e a própria equipe da Mauricio de Sousa Produções participou da escolha final. Daniel conta que eles não procuravam por crianças experientes ou necessariamente parecidas com os personagens, mas que tivessem carisma e trouxessem algo diferente para o filme.

Bom, isso eles têm de sobra. Durante todo o dia, não houve sequer um momento em que eles não estivessem brincando, dançando ou sugerindo coisas para seus personagens. Nenhum dos quatro tem mais do que 13 anos, mas eles já contam com milhares de seguidores no Instagram e seus próprios canais no YouTube, ainda que o filme sequer tenha sido lançado.

“Um de nossas maiores preocupações foi cuidar dessas crianças que, do dia para a noite, iriam se tornar os personagens da Turma da Mônica”, disse Daniel. “Não queríamos que a fama subisse à cabeça deles, e sempre falamos que, apesar de ser um trabalho, todos precisam se divertir com isso”.

A cena do dia

Depois do almoço, era hora da cena mais complicada do dia. Pela manhã, a equipe havia gravado apenas algumas tomadas com Kevin, o Cebolinha. O menino é, dos quatro, o que tem um pouco mais de experiência, tendo já participado de uma novela do SBT, Cúmplices de um Resgate.

Peguei uma van junto com as crianças para chegar ao set, que ficava a poucos minutos de onde estávamos. A julgar pela empolgação delas, aquele papo de trabalho e diversão parece ter funcionado. Elas não paravam de falar sobre os hotéis em que estavam hospedados, a rotina de gravação e, vira e mexe, cantavam alguma letra de funk inventada na hora.

Mairiporã é a quinta cidade usada como locação pelo filme. Além dela, Laços tem cenas gravadas também em Poços de Caldas (MG), Holambra, Paulínia e Cubatão (estas últimas, no estado de São Paulo). Naquele dia, as crianças iriam filmar um dos momentos finais do longa no covil do vilão da história, o Homem do Saco (Ravel Cabral).

Para quem ainda não sabe, vale uma rápida contextualização: o filme será baseado em uma graphic novel escrita pelos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, que integra o selo de publicações “Graphic MSP”, no qual quadrinistas dão uma nova roupagem aos tradicionais personagens da Mauricio de Sousa.

Na história, Mônica, Magali, Cebolinha e Cascão se juntam para investigar o misterioso sumiço do cachorro Floquinho, em uma jornada que reforça a amizade dos quatro.

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O set da ocasião era um enorme casarão abandonado. O trabalho de cenografia começava logo na estradinha de terra que nos levava para a entrada do sobrado. Em um lugar que mais lembrava um ferro velho, pneus abandonados e barris enferrujados se misturavam com os cabos, câmeras e refletores da produção.

Dentro da casa, o que mais chamava a atenção era a “bagunça planejada”: tralhas para todos os lados e restos de comida (de mentirinha) jogados pela cozinha. Acompanhei a gravação em um quartinho logo ao lado da sala onde as crianças estavam. Além de mim, ali também se apertavam alguns técnicos de som e todo o resto das bugigangas usadas para compor o cenário.

Além da cena interna, as crianças gravaram algumas tomadas do lado de fora da casa. Nesse momento, a serenidade de Daniel ao lidar com os pequenos deu lugar a uma postura mais enfática do diretor: era preciso correr para aproveitar a luz natural. Do contrário, todo o cronograma teria de ser revisto.

“Em Laços, fizemos cenas com crianças, cachorros, à noite e até na floresta”, revela o diretor. “É um trabalho duro, mas muito prazeroso também”.  Depois de alguns retoques na prótese dentária, Giulia, que interpreta a Mônica, encerrou as filmagens com o clássico grito de “Cebolinha!”, em uma das poucas vezes em que todas as mais de 60 pessoas da equipe ficaram em silêncio. Quase me abaixei para não correr o risco de ser atingido por um Sansão perdido.

O dono da rua

Após o último “Corta!”, Daniel reuniu toda a equipe na entrada do casarão e agradeceu a todos pelo trabalho. Enquanto os equipamentos eram guardados, o diretor chamou as crianças para um abraço coletivo, algo feito ao final de cada dia.

Antes de sentar para falar comigo sobre o filme, ele checou se tudo estava certo: conversou com a equipe de som, iluminação e até com os adestradores de cães, que estavam ali naquele dia por causa do Floquinho e dos outros animais raptados pelo vilão do longa.

Aos 44 anos, Daniel tem uma carreira consagrada no cinema. Como editor, trabalhou em filmes como Tropa de Elite, Robocop, Diários de Motocicleta e chegou a ser indicado ao Oscar da categoria por Cidade de Deus, em 2003. Laços é o seu segundo trabalho como diretor  sua estreia neste cargo foi em Bingo: o Rei das Manhãs, em 2017.

“Eu sempre quis fazer um filme da Turma da Mônica e, quando li Laços, defini que era essa história que queria adaptar.” Mas o convite não veio de imediato. Quando o projeto de live action foi anunciado, em 2015, Daniel ainda não estava envolvido. Ele, então, conversou com a produtora responsável pelo longa, para saber se já haviam escolhido um diretor. Ao saber que não, Daniel se auto-convidou.

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“Meu objetivo é fazer um filme imaginando como seria se esses personagens existissem de verdade, mas mantendo toda a parte lúdica dos gibis”. A ideia, segundo ele, é trazer todo o colorido do original sem que nada fique cartunesco demais.

Para isso, foi preciso buscar outras referências além da graphic novel. “Fomos atrás da essência dos personagens em cada década de história, sempre prestando atenção para o fato de que as aventuras da turma refletem a realidade da época em que foram publicadas”. Em outras palavras, é melhor ficar atento para os easter eggs: Laços terá vários personagens e elementos do universo de Mauricio de Sousa.

O artista, aliás, é um dos parâmetros da produção. Daniel conta que a aprovação dele é um indicativo que a adaptação está no caminho certo. “De um jeito ou de outro, tudo passa por ele e, até agora, parece que estamos indo bem.”

O papo foi breve. Daniel ainda precisava acertar alguns detalhes para o dia seguinte, um dos últimos antes do fim das gravações. Apesar de cansado, o diretor não deixou de frisar sobre o prazer de poder explorar esse mundo.

“Todos no set se emocionam. A Turma da Mônica é algo que mexe com a memória afetiva de muitas gerações.” Não deu outra. No dia seguinte, já distante do tal Sítio Firmino, passei em uma banca e comprei alguns exemplares do Cebolinha, Cascão e cia., só para ficar mais um pouquinho dentro daquele universo.