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A história real por trás do episódio definidor da Bíblia

Como um pequeno grupo de escravos se aproveitou de um colapso no clima para fugir do cativeiro, dar origem à maior de todas as sagas do Velho Testamento e, sem fazer a menor ideia, mudar para sempre a história do Ocidente.

Por Alexandre Versignassi

O Êxodo foi tema de vários filmes, mas, se você quer entender mesmo a história real por trás da fuga dos hebreus do Egito, vale lembrar de uma obra que nada tem a ver com a Bíblia: “Interestelar”, de 2014. Porque ele fala do mesmíssimo fenômeno que motivou migrações em massa por volta de 1200 a.C., quando Moisés teria vivido.

O filme do Christopher Nolan começa num mundo assolado por uma mudança climática. Um mundo árido, onde, em se plantando, quase nada dá. A ação acontece num futuro distante, mas o cenário não tem nada de tecnológico. O que aparece ali é uma nova Idade Média. Uma civilização colapsada. E a única esperança de sobrevivência é encontrar um outro planeta para substituir a Terra.

É. Fora a parte interplanetária, foi o que aconteceu há 3 mil anos. Uma mudança no clima criou uma seca de proporções bíblicas, bagunçou a história da humanidade e marcou o início daquilo que os historiadores chamam de “Primeira Idade Média” – uma era das trevas que precedeu a Antiguidade clássica, a dos gregos e dos romanos.

Pois é: houve outra Idade Média além daquela que todo mundo conhece. Como a história teima em andar em círculos, o período imediatamente anterior a essa primeira Idade Média foi justamente uma época de pujança. Um tempo em que o início do comércio marítimo e a invenção da escrita engatilharam a primeira “globalização” da história.

Era uma globalização restrita às poucas áreas civilizadas que o mundo tinha na época, claro. Estamos falando de uma mancha no mapa que ia das ilhas gregas até a foz do Tigre e do Eufrates, na Mesopotâmia, onde hoje fica o sul do Iraque. No meio, o Egito, e ali pertinho a protagonista desta nossa história: Canaã, a terra que, segundo a Bíblia, Deus tinha prometido dar aos descendentes de Abraão – o homem que daria origem aos israelitas.

“O senhor disse a moisés: vá falar com o rei, pois eu fiz com que ele continuasse teimando, para que pudesse fazer esses milagres. E para que você pudesse contar a seus filhos e netos como zombei dos egípcios” –
Êxodo, capítulo 10, versículos 1 e 2

Seja como for, a história real por trás do Êxodo é bem diferente da que está na Bíblia. O Livro Sagrado diz que, por volta de 1600 a.C., todos os israelitas deixaram Canaã e  foram morar no Egito.  Na época, “todos os israelitas” eram só um grupo de pouco mais de cem pessoas: o velho patriarca Jacó, neto de Abraão e já rebatizado por Deus em pessoa com o nome de “Israel”, mais seus filhos, netos e as várias esposas de cada um.

Os descendentes de Jacó, segue a Bíblia, cresceram e se multiplicaram na terra dos egípcios. Tudo ia bem, até que um faraó xenófobo decide acabar com a brincadeira dos imigrantes: transforma todos os israelitas em escravos. Eles passam 400 anos debaixo de chicote, até que Moisés, um desses descendentes, liberta os israelitas, e leva todo mundo de volta para a velha Canaã, de onde o patriarca Jacó tinha saído.

Só que não. Ao contrário do que diz a Bíblia, os israelitas nunca foram escravos no Egito – pelo menos não o povo israelita inteiro. Mesmo assim, o episódio que entraria para a mitologia desse povo (e para a do resto da humanidade) como sendo uma fuga em massa do Egito pode ter sido até mais importante para o futuro dos israelitas (e do resto da humanidade!) do que qualquer um pode imaginar.

Bom, para entender o que realmente aconteceu lá atrás, temos que conhecer melhor um mundo perdido no tempo: o Oriente Médio de 3.200 anos atrás. É para lá que vamos agora.

Mapa exodo

Mapa exodo (Icaro Yuji/Superinteressante)

Livro dos Reis

Caso você tivesse o DeLorean de “De Volta Para o Futuro”, e digitasse “1400 a.C.” no painel, iria pousar num mundo relativamente familiar. O leste do Mediterrâneo estava congestionado de cargueiros (a remo, mas ainda assim cargueiros).

Mais para o Oriente, comerciantes subiam o Eufrates carregados de grãos e tecidos, e desciam com metais extraídos dos confins do mundo antigo – caso da cordilheira nevada de Elburz, no Irã de hoje, cheia de mineradoras de estanho. Era tanto movimento que no sul da Mesopotâmia, coração da Babilônia, 90% das pessoas viviam em cidades. É quase a mesma taxa de urbanização do Estado de São Paulo (94%).

No Egito, era parecido. Mas com as cidades um pouco mais espalhadas, pululando ao longo das margens férteis do Nilo – Mênfis, Tebas, Heliópolis. Do outro lado do mar onde o rio desemboca, ficava a civilização Micênica – que daria origem à cultura grega. Ali perto, onde hoje está a Turquia, reinava o império hitita.

Essas civilizações formavam o quarteto de ferro da Idade do Bronze. E fizeram dessa época uma era de ouro da economia mundial. Começou por volta de 3000 a.C., com a invenção do próprio bronze.

Antes disso, o único metal usado em larga escala para fazer armas era o cobre. Por dois motivos: ele é abundante e tem um ponto de fusão baixo. Derrete a 1.085 ºC – o dobro da temperatura de cruzeiro de um fogão comum de hoje. Era uma quantidade de calor não muito difícil de obter com tecnologia de 5 mil anos atrás.

Mas as armas de cobre não eram tudo isso, porque esse metal é maleável e quebradiço. Até funcionava para pontas de lanças e de flechas. Mas as espadas de cobre, as primeiras que a humanidade forjava, não eram confiáveis. Rompiam-se fácil.

Só que uma hora esse problema acabou. Alguns iluminados, mundo antigo afora, foram percebendo que se você colocasse outro metal para derreter junto com o cobre ele ficava duro que nem aço – não que alguém soubesse o que era aço na época, mas você entendeu.

Esse metal mágico era o estanho. Cobre + estanho = bronze, a liga metálica que mudou o mundo. Pronto. Graças ao bronze, passaram a produzir espadas maiores, mais resistentes, mais afiadas; capacetes seguros; escudos indestrutíveis – pelo menos para os padrões da época.

Um homem bem treinado com escudo, elmo e espada de bronze podia cometer uma chacina no meio de caras com armas de cobre. Imagina um exército carregado de bronze, então. Quem tinha muito bronze podia. Quem não tinha, se escafedia.

Foi uma revolução tão grande que marcou o início de uma era nova: antes da descoberta da liga de cobre com estanho, diz a historiografia clássica, estávamos na Idade da Pedra. Depois dela, começava a gloriosa Idade do Bronze.

Gloriosa do ponto de vista de quem não terminou a vida sob a lâmina de uma espada, claro. É que, com muito bronze e muita organização militar, babilônios, egípcios, micênicos e hititas mataram geral e dominaram suas vizinhanças, dando origem aos primeiros impérios de todos os tempos.

O Egito engolfou nossa amiga Canaã, que hoje abriga Israel e Palestina. Na época, Canãa era só o nome de uma terra mesmo. Não havia um “império cananeu” nem nada assim.

O que tinha eram vários povos dividindo aquele território um pouco maior que Alagoas: jebuseus, gesuritas, jebedeus… Cada um vivendo numa cidade-estado independente, com seu próprio rei. E cada rei, agora, era um vassalo do Egito, obrigado a fornecer súditos para trabalhar como escravos nas terras faraônicas.

A escravidão, afinal, era a base da economia da época – só com um monte de escravos fazendo o trabalho pesado dava para manter um exército profissional, formado só por cidadãos do império. Colocar um cananeu para lutar contra outros cananeus nas guerras que aconteciam toda hora seria mau negócio – o próprio exército israelense usa essa lógica hoje: proíbe seus cidadãos árabes de se alistar, já que eles teriam obrigatoriamente de lutar contra árabes.

“Se um israelita, seja homem ou mulher, for vendido a você como escravo, ele será seu escravo seis anos; no sétimo você lhe dará liberdade (…). Lembre que você foi escravo no egito, e que o senhor, nosso deus, o tirou de lá. É por isso que estou dando essa ordem” – Deuteronômio, capítulo 15, versículos 12 e 15.

Bom, o clima era obviamente bélico. Não menos violento do que era na Idade da Pedra – ou que hoje. Mas a Idade do Bronze trouxe outra novidade, que exige ainda mais sangue frio que o campo de batalha: a diplomacia.

Arqueólogos descobriram ao longo do século 20 centenas de cartas oficiais trocadas entre autoridades da época. Eram tabletes de argila que eles mandavam uns para os outros num ritmo frenético, trocando informações comerciais e afagos interesseiros – o puxa-saquismo chegaria a níveis épicos.

Essa troca de e-mails com tabletes de argila no lugar da tela e mensageiros no lugar da banda larga era quase sempre em inglês. O inglês da época, claro, era o acádio, língua dos babilônios – provavelmente porque foi lá, na terra deles, que tinham inventado a escrita, um pouco antes de 3000 a.C.

Essa sofisticação toda era motivada por um problema da natureza: ela não dotou o mundo com estanho suficiente para a demanda da época. Trata-se de um metal raro. Para cada 25 toneladas de cobre no mundo, existe só uma de estanho. O Egito e a Babilônia, por exemplo, nem tinham minas de estanho em seus domínios. Então dependiam do comércio internacional para fabricar suas armas de bronze, um artigo tão indispensável quanto comida.

Micênios (gregos), hititas (turcos) e outros povos menores da época, então, vendiam estanho para as potências em troca de ouro e, principalmente, grãos – mercadoria que abundava nas margens do Nilo, do Tigre e do Eufrates. Na prática, a economia da época girava em torno do metal.

“A importância estratégica do estanho na Idade do Bronze não era diferente da que o petróleo tem hoje”, diz a arqueóloga Carol Bell, do University College, em Londres. Na prática, era uma corrida armamentista alimentando uma certa paz. Bom para todas as partes.

Mas aí o tempo virou.  

NA BÍBLIA

Javé é o Deus único, cultuado pelos hebreus desde a aliança com Abraão, em 1700 a.C (nota: nas Bíblias em português, o nome “Javé” geralmente é substituído por “Senhor”) .

NA REALIDADE

Os israelitas cultuavam os deuses cananeus: El, Baal, Asherah… Javé provavelmente foi importado da atual Arábia Saudita por volta de 1100 a.C., e ganhou traços das personalidades de El e de Baal.

APOCALIPSE

O tempo virou literalmente. De uma hora para outra, todas as potências da Idade do Bronze entraram em decadência. Governos caíram, o comércio cessou. Populações começaram a morrer de fome. Invasões bárbaras, de povos sem pátria, viraram rotina nas fronteiras dos grandes impérios.

O motivo para esse colapso global era um mistério até outro dia. Mas agora as coisas estão mais claras: parece ter havido uma mudança climática profunda, que gerou anos seguidos de seca. Se falta de água hoje já é o caos, imagina há 3 mil anos.

A causa para a seca? Não existem certezas aí, só hipóteses. Uma delas é a de Brandon Lee Drake, especialista em paleoclima da Universidade do Novo México. Ele detectou que houve um resfriamento súbito das águas do Mediterrâneo nessa época. “Isso pode ter limitado o fluxo de umidade para a atmosfera, reduzindo a quantidade de chuvas”, diz.

Outro pesquisador, o arqueólogo Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv, jogou mais luz sobre essa questão. Em 2013, ele foi até o Mar da Galileia (o mesmo onde São Pedro, o apóstolo, pescava saint peters – tilápias, em português clássico). Finkelstein coletou amostras de lama do fundo do lago. Quanto mais fundo você cava, mais antiga a lama que você encontra.

Finkelstein foi até a camada que correspondia ao ano de 1250 a.C., com margem de erro de 40 anos, e viu algo surpreendente: a lama revelava que a vegetação estava toda esturricada naquela época. Dá para saber disso porque a camada de lama continha bem menos pólen fossilizado que o normal. Ou seja: havia menos flores para soltar pólen no lago. E, se havia menos flores, é porque a vegetação estava seca.

“Não tenho mais grãos nas minhas terras”, escreveu a rainha dos hititas para o faraó do Egito. O destinatário era Ramsés II, o provável faraó do Êxodo.

O primeiro registro de que alguma coisa estava fora da ordem no clima está gravado num daqueles tabletes diplomáticos: da rainha dos hititas para o faraó do Egito. “Não tenho mais grãos nas minhas terras”, ela informa, numa mensagem enviada justamente em 1250 a.C. O destinatário era Ramsés II, ninguém menos que o provável faraó do Êxodo.

É aí que a história da mudança climática começa a se cruzar com a da fuga dos escravos. Na Grécia, na Turquia e no Chipre, governantes abandonaram palácios. Em Canaã, várias cidades-estado acabaram desertas. Com o caos reinando, grupos armados até a medula embarcaram para saquear o lugar mais rico que havia por perto: o Egito.

Foram várias incursões. Os egípcios acabaram pegos tão de surpresa que nem sabiam como chamar os invasores – gregos? hititas? Os documentos que sobraram para contar história chamam esse pessoal de um nome genérico: “Povos do Mar”. Na prática, foram para esta primeira Idade Média, que começava a se instaurar, o que os vikings seriam para a segunda.

Se a coisa já estava feia com as secas, piorou depois dos Povos do Mar. Com eles atrapalhando o tráfego no Mediterrâneo, o comércio de estanho foi para as cucuias. Resultado: o Egito ficou militarmente mais fraco, e o resto do mundo, mais faminto. Mais dois motivos para continuar invadindo o Egito.

Os militares do império, então, tiveram de largar as fortificações em Canaã, na periferia do império, para defender suas próprias cidades dos Povos do Mar. Isso mais o colapso dos reinos cananeus abriu caminho para que um desses povos tomasse um pedaço da costa da Terra Prometida, bem onde hoje fica a Faixa de Gaza, e colonizasse o lugar.

O território acabou rebatizado como “Filístia”. E eles se tornariam os filisteus da Bíblia – o povo ancestral dos palestinos de hoje. O próprio nome “Palestina” é só a latinização de “Filístia”. Bom, mas não foi só para os filisteus que a porteira de Canaã tinha aberto. Agora chegava a hora de outro povo entrar na festa: os israelitas.

NA BÍBLIA

A Páscoa judaica comemora a “passagem” (pesach) do anjo da morte sobre o Egito: matando primogênitos locais, e poupando as crianças israelitas.

NA REALIDADE

A Páscoa surgiu como uma festa para comemorar a colheita da primavera. Só depois passou a ser associada ao Êxodo e, bem mais tarde, à ressurreição de Cristo.

GÊNESIS

Os israelitas tiveram uma origem bem diferente da que está na Bíblia. Os do Livro Sagrado eram uma família quando saíram de Canaã, certo? No cativeiro egípcio, teriam se multiplicado, se tornando uma nação de fato. Os da vida real, não.

Além de nunca terem migrado para o Egito, começaram a carreira não como uma família, mas como várias tribos nômades, que passavam o dia pastoreando nas montanhas de Canaã e dormiam em tendas. Elas viviam de vender carne e leite para as cidades-estado do lugar. Mais tarde, por volta de 950 a.C., essas tribos se uniriam sob uma única monarquia. Os povos vizinhos se referiam a esses nômades às vezes como “shasu”, às vezes como “apiru” – a palavra “hebreu”, inclusive, pode ter saído de “apiru” (a palavra “judeu”, que é outro sinônimo de “israelita”, só apareceu séculos depois, quando parte dos hebreus estava reunida sob o reino de Judá).

Por que dá para cravar que os 400 anos no Egito e a história do Êxodo são um mito? Primeiro, pela magnitude do evento. A Bíblia diz que  2 milhões  de hebreus fugiram do Egito. Um Réveillon de Copacabana, e o equivalente a 3% da população mundial da época, estimada em 70 milhões de almas. Some isso ao fato de os egípcios terem deixado sua história muito bem registrada. E não existe nada sobre essa eventual fuga. A única inscrição egípcia da Idade do Bronze que menciona a palavra “Israel” diz justamente que eles eram um povo nômade de Canaã.  

Bom, agora, com a seca, esses nômades tinham um problema. Os pastores israelitas vendiam carne de seus cabritos e leite de suas cabras para as cidades cananeias, em troca de grãos. Mas ei: a produção agrícola não tinha ido para o espaço? Pois é. “Agora as comunidades das terras baixas não tinham mais como suprir grãos, então eles tiveram de se assentar”, diz o arqueólogo Israel Finkelstein. 3 A vida tinha dado um limão para os israelitas, ao quebrar seu modo de vida. Mas eles produziram uma limonada dali em diante. Deram um jeito de plantar suas hortas, levantaram casas, formaram suas primeiras vilas. E, quando a secura acabou, os filhos de Jacó já estavam engatilhados para montar uma nação de verdade, com fronteiras, cidades, exército.

Só tem um detalhe. Esses primeiros israelitas não acreditavam em Deus. Não no Deus da Bíblia. Eles cultuavam as mesmas divindades dos seus vizinhos cananeus: Baal, Asherá e, acima de todos, El, o Altíssimo. O próprio nome do grupo carregava, e ainda carrega, o nome de “El”. “Israel” – que, segundo especialistas em hebraico antigo, quer dizer algo como “Sob o comando de El”, o que faz sentido para um grupo de pastores nômades que ainda não tinha se solidificado como uma nação – e que não tinha um rei propriamente dito.Mas esse El que os ancestrais dos judeus cultuavam era o chefe do panteão cananeu, uma divindade pagã. O Deus hebreu com “D” maiúsculo, que seria adotado pelos cristãos mais tarde, é outra entidade: Javé. Só que Javé ainda não existia no mundo israelita. De onde ele viria, então? Do Êxodo. Sigam-me os bons.

NA BÍBLIA

A abertura do Mar Vermelho está presente, com toda a pirotecnia a que tem direito, já nos trechos mais antigos do livro.

NA REALIDADE

O mito da travessia talvez reflita, com uma dose de espetáculo, a memória de uma época de seca, em que o nível de alguns lagos baixou drasticamente.

ÊXODO

A Bíblia aumenta, mas nem sempre inventa. Parte do que está no livro são fatos históricos mesmo – principalmente alguns textos sobre os futuros reis de Israel e de Judá. Então algo sobre a fuga do Egito pode ser verdade, sim. Além disso, o Êxodo é um momento importante demais da memória cultural judaica para simplesmente ter sido inventado. Imaginar que os hebreus tiraram tudo da cabeça deles, lá de Canaã, sem nunca ter pisado no Egito, é pedir demais.

O consenso, então, é que algum grupo de escravos cananeus (não necessariamente hebreus), ou vários grupos, fugiram e encontraram abrigo entre os israelitas em Canaã. E, por serem grupos pequenos, não deixariam rastro arqueo- lógico. Faz todo o sentido. A época não podia ser mais propícia para fugas de escravos. Os soldados egípcios estavam ocupados lutando contra os Povos do Mar. Os fortes que o império mantinha em suas fronteiras tinham sido abandonados. Quem quisesse picar a mula de lá, picava sem ser incomodado. Provavelmente foi o que aconteceu de fato. E alguns desses fugitivos acabariam ganhando a “nacionalidade” israelita alguns anos depois de incorporarem-se a esse povo.

Esses ex-escravos teriam chegado contando histórias mirabolantes de fuga. Talvez tenham falado sobre ter atravessado a pé alguma região onde sabiam que antes havia só água – nesse caso, a teoria da mudança climática justificaria o mito da abertura do Mar Vermelho.

Seja como for, as histórias dos escravos fugidos acabaram entrando para o folclore do povo israelita. Chegou uma hora que todo mundo ali acreditava ter vindo do Egito, ainda que isso só fosse verdade para uma fração desse povo.

E fim de papo.

Ou não. Richard Freedman, historiador da Universidade da Califórnia, um dos especialistas mais célebres sobre o Velho Testamento, tem uma teoria mais radical. Ele imagina que o grupo vindo do Egito teria um papel bem mais importante que o de meros contadores de histórias mirabolantes. Eles se tornariam nada menos do que os principais autores da Bíblia.  

Para entender a teoria dele, precisamos lembrar que os pastores israelitas não formavam exatamente uma nação. A coisa era uma união de famílias extendidas. Cada uma dessas grandes famílias, com suas centenas de membros, formava uma tribo. Ok. Cada tribo era tida como descendente de um dos filhos de Jacó. Segundo a Bíblia, então, os israelitas do Egito já estavam divididos nesses clãs. O consenso entre os historiadores, porém, é que o grupo tenha criado a história de uma ancestralidade comum para unir seus laços.

Bom, o número de tribos segue a lógica torta dos Três Mosqueteiros, que eram quatro. A tradição sempre fala em 12 tribos. Mas eram 13. E o Dartagnan das tribos israelitas, assim como acontece no livro de Alexandre Dumas, era justamente a mais importante, pelo menos do ponto de vista religioso: a tribo de Levi, a dos sacerdotes que escreveram a maior parte da Bíblia.

NA BÍBLIA

As tábuas dos 10 Mandamentos foram ditadas por Javé para Moisés. Elas mais as 613 leis da Bíblia.

NA REALIDADE

O código de leis dos israelitas, finalizado no século 5 a.C., é herança dos babilônios, que tinham feito a primeira “Constituição” da Terra, em 1700 a.C.

LEVÍTICO

Os levitas não contavam como tribo (apesar de serem chamados de “tribo”) porque não tinham um território próprio. Eles formavam a  classe dos sacerdotes  – então podiam viver na tribo que quisessem. Segundo a Bíblia, Levi era um dos filhos de Jacó. Independentemente do fato de Jacó ter ou não existido, isso significaria que os levitas sempre estiveram entre os israelitas. Só que uma leitura mais atenta do Livro Sagrado coloca um caroço nesse angu: o trecho mais antigo da Bíblia toda é a Canção de Débora (Juízes, 5), um poema composto por volta de 1100 a.C. Ele cita dez tribos de Israel, não 13. E a ausência mais marcante é a dos levitas, dada a importância do grupo. Para Friedman, a justificativa da ausência é simples: “‘É que os levitas ainda não estavam em Israel. Quando a Canção de Débora foi escrita, eles ainda eram escravos no Egito”. 4

Outra evidência de que os escravos fugidos se tornariam os sacerdotes daquele povo é que só a tribo dos levitas tem membros com nomes egípcios: Fineias, Hofni, Moisés…

Sim, Moisés é retratado na Bíblia como um membro da tribo dos levitas – é a tribo da mãe israelita dele, a que teria colocado o bebê Moisés na cesta. Pelo ponto de vista de Friedman, isso acontece porque a própria Bíblia só começou a ser escrita de fato séculos depois desses eventos, quando os ex-escravos já tinham formado a tribo dos levitas. Então nada mais natural que descrever Moisés como membro dessa tribo na hora de colocar a história no papel.

O Moisés bíblico, aliás, não é um militar. Esse Moisés do imaginário popular é um herói construído à imagem e semelhança de outro personagem bíblico, bem posterior: Davi – este sim um general de fato. O Moisés da Bíblia não tem nada disso. A única coisa violenta que ele fez enquanto jovem foi matar um egípcio que estava batendo num hebreu.

Por conta desse assassinato, Moisés entrou em pânico e fugiu do Egito. Então foi para Midian, uma região ao sul de Canaã, onde hoje fica a Arábia Saudita. Aí casou com uma midianita e passou a vida criando cabras por lá mesmo. A vida inteira, praticamente. No relato bíblico, Deus só convoca Moisés para tirar os escravos do Egito quando o nosso herói já está com 80 anos nas costas.

Mas o que interessa aqui não é a vida tediosa do Moisés bíblico. É a preocupação do texto em relacionar o profeta com a região de Midian.

Por causa do seguinte: os texto mais antigos da Bíblia não revelam apenas a ausência dos levitas no início da história de Israel. Eles também dizem que Javé é um deus que veio do Sul. Basicamente das vizinhanças de Midian.

Para Friedman, isso indica que Javé era o deus do povo de Midian antes de se tornar o do povo de Israel. E que quem trouxe a divindade para os israelitas foram justamente os levitas. Ou seja: o grupo de escravos fugidos.

A hipótese é que, na vida real, o pessoal vindo do Egito fez uma escala em Midian. Uma parada de alguns anos, talvez, na qual teriam incorporado a religião do lugar, que era justamente a crença em Javé. Então atribuíram a esse deus a graça por terem conseguido escapar do cativeiro. Depois rumaram para o Norte, chegando aos domínios israelitas.

Uma vez em Israel, como vimos aqui, eles assumiram o comando da religião. E transformaram os hebreus em seguidores de Javé – extirpando El e os outros deuses cananeus das crenças israelitas. “Os hebreus podiam ter inventado que Javé era filho de El, ou algo assim. Mas não: por algum motivo, preferiram assumir que os dois eram a mesma entidade”, diz Friedman. 5 E assim ficou na Bíblia: deus é chamado alternadamente de “El” (ou Elohim, uma derivação) e de “Javé”. Mas essa dupla personalidade divina acontece só até a primeira conversa de Deus com Moisés. O Senhor diz a ele que seu nome é Javé, e ponto final. E é sob essa alcunha que Deus segue sendo chamado no resto do Livro Sagrado. Pela teoria de Friedman, isso reflete o fato de que os israelitas só passaram a conhecer Javé depois da chegada dos levitas.

Levitas que, mais tarde, fariam a “primeira Constituição” de Israel. São leis que estão no Velho Testamento – e que vão bem mais longe do que os Dez Mandamentos. O código legal dos hebreus está mais para a Constituição do Brasil que para a dos EUA, famosa por ser enxuta: são 613 leis – no alto desta página segue uma delas.

No fundo, os levitas se tornaram os organizadores da nova nação. Uma nação pequena, pastoril, sempre espremida entre grandes potências. Com todos os ingredientes para ter se tornado irrelevante. Mas que soube contar histórias extraordinárias, tão inspiradoras que acabariam dando origem às duas maiores religiões do planeta: o cristianismo e o islamismo. E hoje dá para dizer que 3 bilhões de pessoas planeta afora têm algum traço de sua religião, de sua cultura, ligadas intimamente à pátria dos ancestrais dos judeus. Valeu, israelitas. E obrigado pelos filmes!