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Santos são pessoas que deram a vida pela fé ou praticaram milagres, como curas sobrenaturais. Mas como a Igreja determina se certa proeza é ou não um milagre? Consultando um pequeno grupo de médicos – que usam a ciência para investigar cada caso.

Texto Alexandre Carvalho Foto Tomás ArthuzziArte Bruna SanchesEdição Bruno Garattoni

“Um doutor inútil.”  A autodefinição do médico Alessandro de Franciscis é bem-humorada como ele, e diz respeito à atividade principal desse pediatra e epidemiologista: avaliar pacientes que já estão curados. Isso porque o italiano é um profissional da medicina especializado num exercício que parece estranho à ciência que o formou. Franciscis trabalha analisando supostos casos de cura milagrosa: pessoas que superaram doenças após se banhar nas águas do Santuário de Lourdes, na França – local onde, em 1858, uma menina camponesa, hoje Santa Bernardete, haveria tido 18 encontros com a Virgem Maria. Milhares de peregrinos dizem ter se curado após tomar banho nas piscinas do santuário. Como a italiana Danila Castelli, cujo caso extraordinário passou pela avaliação de Franciscis.

Aos 34 anos, Danila começou a ter crises graves de hipertensão, com direito a desmaios. Ela procurou um hospital, onde exames de ultrassom e raio X constataram anomalias no útero e no pâncreas – que precisaram ser extraídos em duas cirurgias. Mas os problemas continuaram, e no ano seguinte uma cintilografia chegou à raiz dos males: Danila tinha feocromocitoma, um tipo raro de tumor que ataca determinadas glândulas do organismo (e causa hipertensão como efeito colateral). O câncer já tinha se espalhado para a bexiga, o reto e a vagina, e a italiana passou por mais nove cirurgias para tentar eliminá-lo. Não adiantou, e o prognóstico era o pior possível. Mutilada e enfraquecida, Danila mal conseguia ficar de pé. Então ouviu uma resolução inesperada do marido: “vamos a Lourdes”. Era a última cartada de quem não via mais perspectivas na medicina. Surpreendentemente, assim que Danila se banhou nas águas, sentiu uma melhora imediata. Ela nunca mais teve hipertensão. E os tumores sumiram.

O suposto milagre aconteceu em 1989, quando Danila tinha 43 anos. Poucos meses depois, já com a saúde 100%, ela procurou o Bureau de Constatações Médicas, de Lourdes, para comunicar o estranho fenômeno.

É um grupo de médicos que avalia relatos de cura milagrosa. O estranho caso de Danila foi investigado por mais de cem especialistas, numa epopeia que levou mais de duas décadas. O dr. Alessandro de Franciscis, que desde 2009 dirige o Bureau, foi o responsável pelo veredito: “A cura não tem relação com os tratamentos e as cirurgias. Essa senhora foi curada do feocromocitoma de um modo que não pode ser explicado pelo conhecimento médico, científico, atual”.

O parecer foi transmitido, em sigilo, para o bispo da diocese onde a italiana mora, em Pavia. Em 2013, a Igreja reconheceu o caso como “um sinal da medicina que Jesus operava nos Evangelhos”. A cura de Danila Castelli foi classificada como o 69º “milagre de Lourdes” pela Igreja Católica. Hoje já são 70.

Pode parecer um número grande, mas não é. Desde a aparição de Nossa Senhora diante da pequena Bernardete, há um século e meio, mais de 7.200 alegações de cura milagrosa foram encaminhadas ao santuário. Se apenas 1% foi considerado milagre é porque, entre a fé e o anúncio de uma providência metafísica, Lourdes sempre teve um filtro: os médicos que tentam, usando todo o seu conhecimento científico, explicar racionalmente as curas misteriosas.

É preciso ter dois milagres reconhecidos pela Igreja para ser canonizado. E a grande maioria dos supostos milagres, nos currículos dos candidatos a santo, é de curas médicas inexplicáveis, que teriam contado com a intercessão de uma pessoa sagrada. (Para a Igreja, só Deus faz milagres. Os santos apenas intercedem em favor das súplicas). Como Irmã Dulce, que teve seu segundo milagre, curar a cegueira de um homem, reconhecido em 2019. Seu primeiro milagre, aceito pela Igreja em 2001, foi curar um caso gravíssimo de hemorragia pós-parto, que já durava 18 horas.

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(Tomás Artuzzi/Superinteressante)

Há dois locais, no universo católico, especializados em investigar as curas sobrenaturais: Lourdes e o próprio Vaticano, que também tem uma estrutura organizada para isso. Trata-se de um grupo chamado Consulta Romana, com mais de 80 médicos, em sua maioria italianos. Entre seis e sete pessoas, de especialidades variadas, costumam participar de cada investigação. Sua tarefa não é bater o carimbo em milagre nenhum. “Pedem a eles uma explicação para determinada cura”, diz o dinamarquês Niels Christian Hvidt, professor de Teologia na Universidade do Sul da Dinamarca. “Se os médicos não forem capazes de achar esse motivo, então a Igreja pode concluir que houve uma cura divina. A Igreja, não os médicos. O milagre permanece uma questão teológica, não científica”, ressalta Hvidt.

O fato de a santidade ser popular entre os religiosos, contribuindo para manter a fé no catolicismo, pode dar a entender que a Igreja pressionaria os médicos a abrir a porteira para milagres de todo tipo. Mas não é por aí. A instituição é rigorosa. Ela sabe que uma “cura milagrosa” desmentida colocaria por terra toda a credibilidade do processo – algo terrível para uma instituição que se alicerça nas crenças das pessoas. Por isso, a Igreja busca cercar-se de especialistas notórios da área médica, e que contem com tecnologia de ponta em suas avaliações. Num caso em que um tumor no cérebro desapareceu, por exemplo, os doutores ligados a Lourdes ou ao Vaticano precisam comparar tomografias de antes e depois de o câncer ter sumido, em como avaliar todo o histórico médico do paciente, eventuais remissões e a possibilidade de ele ter se recuperado não pela fé, mas pelo poder da quimioterapia. Além disso, o papa Francisco apertou mais a torneira: determinou que uma cura só pode ser considerada sem explicação científica se pelo menos dois terços dos médicos envolvidos chegarem a essa conclusão – antes bastava uma maioria simples no grupo.

Mas esse rigor não é de agora. As mudanças de Francisco são pequenos ajustes em regras que atravessam os séculos. Ainda hoje valem as exigências estabelecidas em 1734 pelo então cardeal Prospero Lambertini – que anos depois se tornaria o papa Bento 14

A Igreja adota sete critérios para o reconhecimento de uma cura extraordinária (veja quadro abaixo). Ela exige, por exemplo, que a doença seja gravíssima. Em um dos casos analisados, uma mulher curada de um câncer de mama agressivo não teve seu “milagre” aprovado porque, antes de recorrer ao santo de sua devoção, ela tinha 10% de chances de se curar. A exigência para “cura milagrosa” é um prognóstico com 0% de esperança. E as outras demandas são igualmente radicais. “Talvez o maior obstáculo seja a exigência de que não pode haver nenhum tratamento relacionado com a cura”, diz o escritor americano Michael O’Neill, especialista na pesquisa de milagres. Isso acaba descartando grande parte dos casos. Outra exigência da Igreja é que a enfermidade não pode voltar – o que às vezes torna o processo de investigação bastante longo (o que levou a análise da cura de Danila Castelli, hoje uma saudável septuagenária, a demorar tanto tempo).

Apesar de as entidades de Lourdes e do Vaticano terem seus próprios times, não é preciso fazer parte desses clubes para participar. Médicos locais, que tenham tratado do paciente, e especialistas de renome também costumam fazer parte dos processos. E não precisam ser católicos. Médicos ateus são bem-vindos, para confirmar a lisura das avaliações.

As regras da cura milagrosa

Na obra De servorum beatificatione et beatorum canonizatione (“A beatificação dos servos de Deus e a canonização dos beatos”), do século 18, o italiano Prospero Lambertini, futuro papa Bento 14, estabeleceu sete critérios.

1 A doença tem de ser muito grave.

2 O diagnóstico deve ser certo e preciso.

3 A doença deve ser “física” (distúrbios mentais não entram).

4 Um eventual tratamento não pode ter ajudado na cura.

5 A cura deve ser repentina, inesperada e instantânea.

6 O paciente deve retomar a vida normal, e sem convalescência.

7 A cura deve ser duradoura, sem recaídas.

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(Tomás Artuzzi/Superinteressante)

Esse é o caso da hematologista canadense Jacalyn Duffin, que também é historiadora da medicina da Queen’s University, de Ontário. Em 1987, ela foi procurada por um colega para analisar amostras de medula óssea de uma mulher com leucemia mieloide aguda, um tipo superagressivo de câncer. Duffin não foi informada do porquê do trabalho. Achou que o sigilo tivesse a ver com algum processo jurídico, e por isso foi especialmente criteriosa em suas análises – afinal, talvez tivesse de explicar as conclusões num tribunal. Mas seu trabalho não foi encaminhado para a polícia ou advogados, e sim para o Vaticano. A análise fazia parte do processo de canonização de Marie Marguerite d’Youville, fundadora da Ordem das Irmãs da Caridade de Montreal. “Quando vi o estado da medula óssea e o diagnóstico, imaginei que a paciente já estivesse morta”, diz Duffin. Mas não. Na época, a mulher já estava com a medula perfeita – e permanece viva até hoje, mais de 30 anos depois.

Por mais que estudasse o caso, Jacalyn não encontrou explicação plausível. Com base no testemunho dela, a Igreja oficializou o segundo milagre realizado por intercessão de Marie Marguerite d’Youville. Canonizada pelo papa João Paulo 2º, em 1990, ela se tornou a primeira santa nascida no Canadá – padroeira das viúvas e dos casamentos complicados (seu marido era um alcoólatra abusivo). “Não acredito em Deus, mas meu testemunho foi aceito. O Vaticano está interessado no nosso conhecimento científico, não em nossas credenciais religiosas”, diz Jacalyn.

Ainda que o papel desses doutores nos processos religiosos se restrinja ao campo da medicina, é difícil fugir à impressão de que há uma contradição em sua atividade. Afinal, são homens de ciência trabalhando em prol de dogmas religiosos – mesmo que indiretamente. Mas o professor Niels Christian Hvidt discorda. “Eu não vejo um paradoxo. De uma perspectiva religiosa, se Deus abrange o Universo, a ciência também pode olhar para questões de fé.” A médica Duffin tem uma resposta mais secularizada a essa questão: “Nós não somos questionados, em nenhum momento, sobre a ocorrência de um milagre. Eu fui chamada para confirmar, com meu conhecimento científico, a alegação de uma paciente. Isso é papel de um médico. Por que eu diria não?”.

Como a esmagadora maioria das “curas milagrosas” é rejeitada pelos médicos, a hipótese de doutores convertidos para a causa da santidade parece não se sustentar. Na verdade, acontece o oposto. Cada vez mais, o catolicismo recorre a especialistas ateus e à tecnologia, para reduzir sua própria dependência do sobrenatural. Vaticanistas já apontam, inclusive, uma tendência: no futuro, ao decidir quem vai ser canonizado, a Igreja deverá preferir o critério de uma vida plena de virtudes (e não os supostos milagres daquela pessoa).

Lázaro, o ressuscitado por Jesus, poderia sofrer de narcolepsia ou catalepsia – quadros que o conhecimento de 2 mil anos atrás não teria como dissociar da morte. Os médicos dos grandes centros religiosos trabalham justamente para que recuperações de saúde “impossíveis” sejam invulneráveis ao escrutínio dos céticos no futuro – graças à excelência de uma investigação científica. Ainda que curas sem explicação, em tempos de medicina ultrassofisticada, já pareçam tão improváveis quanto alguém transformar água em vinho.