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Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade.

Texto: Salvador Nogueira | Design: Estúdio Nono

Nunca uma viagem espacial foi tão importante ou acompanhada tão de perto pelos olhos do mundo todo. Após praticamente uma década de corrida acirrada entre as duas grandes superpotências do século 20, a Apollo 11 tentaria realizar o sonho ancestral do ser humano de pisar na superfície da Lua.

A missão, claro, começava muito antes da decolagem. Em 9 de janeiro de 1969, a Nasa anunciava formalmente a tripulação escalada: como comandante, Neil A. Armstrong; como piloto do módulo de comando, Michael Collins; e como piloto do módulo lunar, Edwin “Buzz” Aldrin. A escolha de Armstrong como comandante era sensata, mas o chefe dos astronautas Deke Slayton tinha dúvidas quanto ao temperamento de Aldrin, que havia criado problemas com alguns de seus colegas. Slayton chegou a propor a Armstrong que Aldrin fosse trocado por James Lovell, da Apollo 8, mas, após um dia de reflexão, o comandante decidiu ficar com Aldrin, com quem trabalhava bem, acreditando que Lovell merecia mais tarde ter seu próprio comando – o que de fato ocorreu, na Apollo 13.

Outra decisão que precisaria ser tomada era ao mesmo tempo prosaica e de um simbolismo ímpar: após uma alunissagem bem-sucedida, quem desceria do módulo lunar para se tornar o primeiro homem a pisar na Lua? Até então, em toda a história do programa espacial americano, a caminhada espacial nunca era feita pelo comandante da missão. Havia expectativa de que isso fosse mantido no programa Apollo e chegou a ser dito que Aldrin seria o primeiro a sair. Versões iniciais da lista de eventos nos treinamentos também previam a saída de Aldrin antes.

E então isso foi modificado. Por um lado, a própria estrutura interna do módulo lunar sugeria isso. Era mais fácil para o comandante sair primeiro do que para o piloto do módulo lunar, que teria que caminhar por trás dele num espaço apertado para alcançar a escotilha. De fato, Aldrin chegou a danificar o simulador numa tentativa de sair primeiro. Em abril, tornou-se oficial: Armstrong sairia primeiro.

Em 2016, em entrevista a este jornalista, Aldrin diria, em tom de frustração: “Para todo sempre na história, eu serei conhecido, não como o primeiro homem ou o último homem, mas como o segundo homem. Bem, eu gosto de prata, mas…”

Aldrin não gostou da decisão da Nasa, mas reconheceu que ela foi acertada. “Pensando nisso depois, não havia absolutamente nenhum jeito de que aquela missão estivesse correta com o Neil olhando pela janela e me vendo descer a escada e ser o primeiro. Isso não teria feito ninguém feliz, realmente. Porque sempre teria a pergunta: ‘Por que o Neil não foi antes?’ E aquela era a resposta certa.”

Enquanto Armstrong era compenetrado e de poucas palavras, Aldrin era espalhafatoso e provocador. Além de tudo, embora tivesse experiência militar, Armstrong era civil, e Aldrin, oficial da Força Aérea.

Na época, além das razões práticas que tornavam mais fácil o comandante sair primeiro, a agência espacial americana estava preocupada em ter alguém com o perfil certo para um momento solene e histórico.

Essa mesma solenidade foi solicitada dos astronautas na hora de batizar suas espaçonaves. Depois de Gumdrop, Spider, Charlie Brown e Snoopy, a Nasa queria uma sensibilidade maior na Apollo 11, o que levou Armstrong, Collins e Aldrin a batizarem seu módulo de comando e serviço de Columbia e o módulo lunar de Eagle. O primeiro era uma referência ao Columbiad, canhão fictício que propiciava uma viagem à Lua no clássico de Jules Verne de 1865, Da Terra à Lua, além de se referir também ao explorador genovês Cristóvão Colombo. Já o segundo, a Águia, remetia ao animal símbolo dos Estados Unidos, representado também no emblema da missão. Os astronautas decidiram não colocar os próprios nomes na figura, com o intuito de sinalizar que a humanidade toda estava representada pela Apollo 11.

Também coube à Nasa definir o local de pouso designado para a missão, a partir de cinco sítios previamente selecionados com imagens de satélite capturadas pelas missões não tripuladas. Da lista de possibilidades, acabou sendo escolhida a de número 2, no Mare Tranquilitatis, ou Mar da Tranquilidade, uma das bacias relativamente planas e pouco acidentadas do hemisfério próximo lunar. Em sua missão de “quase pouso”, a Apollo 10 sobrevoou a região a apenas 15 km de altitude e considerou o local adequado para a tentativa.

E então, às 9h32 (hora local) do dia 16 de julho de 1969, o Saturn V decolou da plataforma 39A do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, levando o trio de astronautas e a Apollo 11 até uma órbita terrestre baixa. Após uma volta e meia ao redor da Terra, o terceiro estágio do foguete, ainda acoplado à nave, disparou por 5 minutos e 48 segundos, colocando o conjunto a caminho da Lua.

Por medida de segurança, e a exemplo das missões Apollo 8 e 10, a trajetória inicial era de “retorno livre”. Ou seja, se algo desse errado no caminho e fosse impossível realizar qualquer outra manobra, a nave faria um oito ao redor da Lua e voltaria à Terra, por gravidade.

Uma vez na rota translunar, era preciso separar a nave do foguete. O módulo de comando e serviço Columbia se desacoplou, virou 180 graus e se encaixou ao módulo lunar, para realizar sua extração do terceiro estágio do foguete, onde viajou protegido por quatro painéis ejetáveis. (Poucas horas depois, a tripulação viu um objeto distante aparentemente acompanhando a Apollo 11 a caminho da Lua. O tal “óvni” era quase com certeza um desses painéis.)

Era comum que todas as missões espaciais americanas levassem vários experimentos a ser realizados no interior da cápsula pelos astronautas no ambiente de microgravidade. Mas não na Apollo 11. “Não queríamos distrações para os três dias em que fomos para a Lua”, disse Aldrin. “Então pedimos para não ter experimentos durante a ida.” Salvo por dois ajustes de curso no caminho, o principal trabalho era se preparar para pousar na Lua.

Em 18 de julho, Armstrong e Aldrin colocaram pela primeira vez seus trajes espaciais e testaram os sistemas do módulo lunar. Em 19 de julho, iniciou-se a manobra de inserção orbital lunar. Um disparo do motor do módulo de serviço por 357,5 segundos colocou a nave numa órbita elíptica, e um segundo disparo de 17 segundos circularizou a órbita com altitude em torno de 110 km.

Em 20 de julho, checagem final do Eagle e, 100 horas e 12 minutos após a partida (4 dias, 4 horas e 12 minutos), ele se desacoplou do módulo de comando Columbia. Na descida, Armstrong e Aldrin; em órbita lunar, Collins.

O módulo lunar disparou seus motores para frear e, com isso, guiar sua descida até a Lua com a ajuda da gravidade lunar. Até aí, tudo exatamente como executado na missão de ensaio, Apollo 10. A etapa final da descida, contudo, seria bastante tensa.

Após novas manobras e o uso do motor de descida para um pouso controlado, Armstrong e Aldrin notaram que o terreno sob a nave estava passando alguns segundos antes do esperado – eles pousariam além do sítio de pouso originalmente planejado.

Para ajudar, o limitado sistema de computador da nave estava sobrecarregado por dados e disparando alertas de falha constantes. Armstrong teve de controlar a descida final para evitar terreno pedregoso e consumiu 40 segundos a mais de combustível do que o previsto – e terminou com apenas mais 25 segundos estimados de reserva de combustível. Ele teve de evitar uma cratera para onde o sistema de pouso automático estava levando o Eagle, enquanto Aldrin freneticamente lia as informações do painel. E então, após alguns segundos de silêncio que pareceram uma eternidade no Centro de Controle, vieram as palavras de Armstrong: “Houston, Base Tranquilidade aqui… o Eagle pousou.”

Às 16h17 (hora da Flórida) do dia 20 de julho, com o pouso bem-sucedido, começava um período de atividades de pouco mais de 21 horas em solo lunar – mas, claro, de todo esse tempo, a maior parte gasta dentro do módulo mesmo.

Pouco depois do pouso, os astronautas tinham um período de descanso agendado, mas preferiram pular e iniciar imediatamente os procedimentos para a primeira caminhada sobre a Lua. Duas horas e meia após a descida, Buzz Aldrin realizou uma comunhão – a primeira cerimônia religiosa em solo lunar. Presbiteriano, o astronauta solicitou ao pastor de sua igreja um kit com cálice e hóstia, mas realizou o ato de forma privada. Isso porque a Nasa ainda estava enfrentando um processo judicial por supostamente fazer apologia religiosa com a leitura do Gênesis na Apollo 8.

Pouco mais de quatro horas após a alunissagem, Neil Armstrong estava pronto para iniciar a saída do módulo Eagle rumo à superfície da Lua.

Às 22h39 (na Flórida), o astronauta abriu a escotilha e vagarosamente iniciou a descida da escada à superfície. Dezessete minutos depois, colocou sua bota esquerda sobre o solo lunar. “Um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade.”

Transmitida pela televisão, graças a uma câmera instalada no próprio módulo lunar que Armstrong ativou ao descer a escada, a imagem fantasmagórica em preto e branco do primeiro homem na Lua foi vista ao vivo por cerca de 530 milhões de pessoas no mundo todo, batendo o recorde da transmissão da Apollo 8 na véspera de Natal de 1968.

Na superfície lunar, os astronautas tinham como principal missão meramente sobreviver. Dados os riscos envolvidos na primeira tentativa de pouso, o planejamento de experimentos na superfície da Lua para a Apollo 11 foi bem limitado. De saída, Armstrong teria de simplesmente reportar o que estava vendo ao redor, avaliar o estado do módulo lunar e colher uma “amostra de contingência” – um punhado de pó, uma pedrinha ou outra, para trazer de volta caso uma emergência obrigasse a uma decolagem rápida.

Cerca de 20 minutos depois, Aldrin se juntou a Armstrong na superfície. Eles colheram amostras e instalaram um pacote de experimentos em solo, contendo poucos instrumentos: um sismógrafo que transmitiria dados à Terra, um coletor de partículas de vento solar, trazido de volta com eles, e um retrorrefletor projetado para rebater pulsos de laser e permitir uma medição precisa da distância entre a Terra e a Lua.

Durante os trabalhos, Armstrong e Aldrin fincaram a bandeira americana no solo lunar e receberam um telefonema do presidente Richard Nixon.

Além dos instrumentos científicos, eles deixariam na Lua também medalhas em homenagem aos astronautas e cosmonautas que deram suas vidas pela conquista da Lua. Também foram levadas mensagens de boa-fé de 73 líderes mundiais e um broche com um ramo de oliveira, um símbolo de paz.

Aldrin foi o primeiro a retornar ao módulo lunar, seguido por Armstrong cerca de 40 minutos depois. No total, as atividades extraveiculares duraram pouco mais de duas horas e meia. De volta ao módulo lunar, um período de descanso de sete horas, antes da decolagem. O módulo lunar era dividido em duas partes, os estágios de descida e ascensão, com o primeiro servindo de plataforma de lançamento para o segundo, onde ficava a cabine para os astronautas.

Mesmo depois do pouso bem-sucedido, ainda havia tensão para a inédita decolagem lunar. Nixon já tinha até um discurso preparado, caso houvesse fracasso na partida. Felizmente não foi preciso ler a funesta mensagem. A decolagem se deu no dia 21 de julho, e Aldrin notou pela janela que o jato de exaustão parecia ter derrubado a bandeira – o que de fato aconteceu e foi confirmado por imagens do local de pouso colhidas décadas mais tarde pela sonda Lunar Reconnaissance Orbiter.

Após a subida, o estágio de ascensão do Eagle tornou a acoplar com o Columbia. Com amostras (21,5 kg de rochas lunares) e astronautas transferidos ao módulo de comando, o Eagle é descartado, para cair no solo lunar, e o motor do módulo de serviço é acionado para colocar a nave no rumo de volta para a Terra. Em 24 de julho, a cápsula da Apollo 11 reentra na atmosfera terrestre, sendo recuperada no Oceano Pacífico pelo USS Hornet. Era o fim da mais ousada aventura já empreendida pelo ser humano. Mas a burocracia estava apenas no começo.

Os três astronautas tiveram de preencher formulários aduaneiros para entrar nos Estados Unidos e, antes de iniciarem uma turnê pelo mundo, ainda passariam 21 dias em quarentena, para que os médicos se certificassem de que eles não haviam sido contaminados por alguma infecção lunar (parece uma ideia maluca hoje, mas na época não dava para descartar).

As rochas trazidas pela Apollo 11 seriam catalogadas e estudadas num laboratório construído especialmente para esse fim, no Centro de Espaçonaves Tripuladas (hoje Centro Espacial Johnson), em Houston, e os Estados Unidos declarariam vitória definitiva na corrida espacial, cumprindo o desafio lançado pelo presidente Kennedy oito anos antes. Mas, para o programa Apollo, as coisas estavam apenas esquentando. O próximo voo seria em apenas quatro meses.

1930–2012

O mais famoso astronauta da história da exploração espacial nasceu em Wapakoneta, Ohio, e formou-se em engenharia aeronáutica pela Universidade de Purdue. Armstrong passou algum tempo como aviador na Marinha americana antes de deixar a carreira militar e se tornar piloto de teste para a Naca, organização aeronáutica precursora da Nasa. Nessa função, ele pilotou o avião-foguete X-15, capaz de realizar voos suborbitais, e foi selecionado para a Nasa na segunda turma de astronautas, em 1962.

1930- 

Nascido em Roma, Collins foi o segundo filho de um oficial do Exército americano estacionado na Itália. Interessado pela carreira militar, ele preferiu a Força Aérea para evitar acusações de nepotismo. Entrou para o grupo de astronautas com a terceira turma, de 1963. Chegou a ser escalado para a tripulação daquela que seria a Apollo 8, mas um problema cervical o tirou da missão.

1930- 

Nascido em Nova Jersey, Edwin Eugene Aldrin Jr. se formou na Academia Militar de West Point em 1951, como engenheiro mecânico. Na Força Aérea, realizou 66 missões de combate durante a Guerra da Coreia. Entre 1959 e 1963, fez doutorado em astronáutica pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts, na esperança de virar astronauta. Seu apelido favorito sempre foi “Buzz”, modo como a irmã mais nova o chamava. Hoje, seu nome é oficialmente Buzz Aldrin.