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Ideias

O meu direito de morrer

Eu sou jornalista e estava fazendo uma reportagem sobre doentes terminais. Até que descobri algo que mudaria para sempre minha própria vida.

Texto: Kevin Drum, da Califórnia | Fotos: Filipe Redondo | Design: Bruna Lora | Edição e Tradução: Bruno Garattoni


Toda história tem um começo. Esta começa em 2001, quando meu sogro quebrou três costelas. Harry era médico aposentado. Um exame detalhado, no qual ele insistiu, descobriu que sua densidade óssea estava severamente comprometida, sem razão aparente. Mais exames acabaram revelando o motivo: ele estava com mieloma múltiplo, um câncer na medula óssea.

O câncer de Harry foi descoberto cedo, e progrediu devagar. Mas, em 2007, havia dominado o corpo dele. No começo de 2008, ele parecia uma pessoa que está sentindo muita dor e tentando disfarçar isso – e olha que Harry estava tomando oxicodona, um forte analgésico opiáceo.

Ao longo da sua carreira de médico, que durou mais de três décadas, ele havia visto muitos pacientes sofrerem nos últimos meses de vida. Isso o convenceu de que, se um dia ele estivesse agonizando com uma doença terminal, iria tirar a própria vida. Agora, ele estava. Na noite de 29 de janeiro, Harry ficou tonto e caiu. E decidiu que sua hora havia chegado. Ele temia que, se esperasse mais um pouco, ficaria fisicamente incapaz de controlar o próprio destino. 

Isso era importante. Como Harry vivia na Califórnia, onde o suicídio assistido era ilegal, ele precisava ser capaz de tirar a própria vida sozinho, sem ajuda. Por causa disso, decidiu não avisar suas filhas sobre a decisão. Não queria correr o risco de que, por estarem junto ao pai em seus últimos momentos, ou simplesmente terem conhecimento do plano dele, elas fossem responsabilizadas [criminalmente] por sua morte.

Felizmente, minha esposa e a irmã dela não precisaram saber da morte do pai por meio de um telefonema. Um amigo convenceu Harry a avisá-las, e no dia 30 de janeiro fomos todos para Palm Springs nos despedir dele. Depois disso, Harry escreveu um bilhete dizendo que estava prestes a tirar a própria vida, e que ninguém o ajudaria nisso. Estava na hora. Ele nos proibiu de fazer qualquer coisa. Entrou no seu quarto, colocou um saco plástico sobre a cabeça e abriu um cilindro de gás inerte. Alguns minutos depois, estava morto. 

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(Foto: Filipe Redondo/Superinteressante)

Por que gás inerte? Por que o bilhete? Harry era um homem metódico e, quando decidiu que iria tirar a própria vida, naturalmente foi buscar informação. Encontrou na Hemlock Society (“sociedade da cicuta”, planta venenosa usada na Grécia antiga), organização fundada em 1980 para defender o suicídio assistido de pacientes terminais. 

Quando fomos olhar os papéis de Harry, depois da morte dele, encontramos um envelope com vários textos da Hemlock, guardados junto com papéis do banco, o testamento dele e seus registros médicos. Um dos textos aconselhava a escrever um bilhete deixando claro que você mesmo tinha tirado sua vida, sem ajuda de ninguém. Também havia vários textos com instruções de como tirar sua própria vida usando um “kit de capuz e gás inerte”. 

É uma forma relativamente simples e indolor de morrer – porque o seu corpo quer respirar, mas não se importa muito com o quê. Se você respirar gás inerte, não sente nenhuma sensação de sufocamento. Você simplesmente fica inconsciente depois de um minuto. Depois de alguns minutos, você morre. 

Na época da morte de Harry, a Hemlock Society – hoje conhecida como Compassion & Choices (“Compaixão e escolhas”, em inglês) – era uma das principais organizações de defesa do suicídio assistido. Mas ela não foi a primeira. Durante o século 19, conforme os analgésicos opiáceos [que podem ser usados em suicídios] se popularizaram, o assunto foi muito debatido.

Na virada do século, o suicídio assistido havia sido banido em quase todos os Estados dos EUA. Em 1949, a Euthanasia Society of America conseguiu apoio de clérigos católicos e judaicos para tentar reverter a proibição. Graças às memórias ainda frescas da 2a Guerra Mundial (em que os nazistas criaram programas de “eutanásia forçada” para matar milhares de inválidos e doentes mentais), e à oposição da Igreja, a tentativa de legalização fracassou. 

Mesmo assim, o apoio para o suicídio assistido continuou a crescer devagar. De 37%, em 1947, chegou a 53% no começo da década de 1970, quando o movimento pelos direitos dos pacientes ajudou a chamar a atenção para questões de vida e morte. No final dos anos 1980, o apoio à prática tinha subido mais 12 pontos percentuais.

Em 1997, finalmente, o Oregon se tornou o primeiro Estado a legalizar o suicídio assistido por médicos. No ano seguinte, 24 pessoas receberam permissão para realizá-lo – e 16 o fizeram. Em 2014, foram 105, o equivalente a [apenas] 0,3% de todas as mortes no Estado. Hoje, dois terços dos americanos são a favor da prática. Mas isso ainda não se traduziu na liberação dela em todo o país. Por vários motivos.

O suicídio assistido tem um lado muito polêmico. Porque os doentes podem ser pressionados, pela família ou pelo plano de saúde, a aceitá-lo – e acabam se matando contra a própria vontade.

Historicamente, os pacientes que pertencem a minorias veem o sistema de saúde com receio. Há amplas evidências de que as pessoas de cor têm menos acesso a assistência médica do que os brancos – e, quando têm acesso, recebem menos tratamento. Se o sistema de saúde já os desampara durante a vida, não iria fazer isso também ao final dela, pressionando as pessoas a abrir mão de tratamentos caros? Esse medo faz com que os médicos evitem debater o suicídio assistido. “Meu medo é que os latinos e outras minorias sejam estimulados a optar pelo suicídio assistido”, disse um deles ao jornal Boston Globe. 

As pessoas muito doentes temem que, se o suicídio assistido se tornar comum, o direito de morrer possa se transformar no “dever de morrer”, e quem estiver muito debilitado acabe sofrendo pressão para acabar com a própria vida. Essa pressão poderia vir dos parentes, exaustos de cuidar de alguém doente. Poderia vir dos planos de saúde, porque o suicídio assistido é muito mais barato do que seis meses na UTI. Poderia vir do governo, de “comitês da morte” criados para conter custos de saúde. Ou poderia vir dos próprios doentes, preocupados em se tornar um peso emocional e financeiro para a família e os amigos.

Também existe o receio do exagero. Na Holanda, onde o suicídio assistido por médicos é permitido, 1 em cada 28 mortes acontece desse jeito. A prática cresceu 200% na última década, muito porque as regras são frouxas. Você só precisa alegar “sofrimento insuportável”, o que na prática pode significar que você só está cansado de viver. 

Na Califórnia, todas essas coisas (a grande população latina e católica, a oposição dos médicos, e preocupações reais com exageros e pressão sobre os pobres) impediram que o suicídio assistido fosse legalizado. Nos últimos 25 anos, os defensores da prática tentaram aprová-la em cinco plebiscitos. Fracassaram em todas. Até que Brittany Maynard apareceu.

Para os defensores do suicídio assistido, Brittany Maynard era perfeita: jovem, atraente, articulada, morrendo de câncer no cérebro – e defensora da causa. Ela foi chamada de “a nova cara do movimento”. 

Brittany foi diagnosticada em 1o de janeiro de 2014. Fez uma cirurgia para remover o tumor, mas em abril ele havia voltado, pior ainda. Alguns meses depois, Brittany se mudou de São Francisco para o Oregon e gravou um vídeo explicando por que queria o direito de escolher o momento e o meio da própria morte. O vídeo foi visto 12 milhões de vezes. Em outubro, ela foi capa da revista People, uma das maiores dos EUA. Em 1o de novembro, cometeu suicídio assistido – tomando os comprimidos que havia recebido de seu médico.

Essa história fez a causa deslanchar na Califórnia. Dois meses depois da morte dela, um projeto de lei foi apresentado – com uma série de mecanismos de segurança. Para ter acesso ao suicídio assistido, o paciente deve ser adulto e estar lúcido, sem distúrbios mentais. Dois médicos precisam certificar que ele tem menos de seis meses de vida. Os médicos devem conversar em particular com o paciente, para garantir que ele não está sendo coagido.

O paciente deve fazer dois pedidos, oralmente e com intervalo de 15 dias entre eles, mais um pedido por escrito. Só o médico responsável pelo paciente, no hospital onde ele está internado, pode prescrever as drogas que serão usadas. O próprio paciente deve administrá-las. A lei foi aprovada e sancionada pelo governador, e começa a valer em novembro de 2016 – quando o suicídio assistido, finalmente, será permitido na Califórnia. 

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(Foto: Filipe Redondo/Superinteressante)

Toda história tem um final. Esta ainda não terminou, mas o começo do fim foi em 2014, quando eu também quebrei um osso. No meu caso, foi um osso da coluna e quando acordei, na manhã de 18 de outubro, não conseguia me mexer. Minha esposa ligou para o 911, e alguns minutos depois uma equipe de bombeiros fortões me colocou numa maca e desceu as escadas me carregando até uma ambulância. No pronto-socorro, a primeira coisa que fizeram foi um raio-X.

Algumas horas depois, um médico me deu a notícia de forma sóbria e neutra. Haviam encontrado lesões líticas por todo o meu corpo – nas minhas pernas, no meu crânio, meus quadris, meus braços. Seria necessário fazer mais exames para confirmar o diagnóstico, mas só existe uma coisa que poderia ter causado aquilo. Como Harry, eu tinha mieloma múltiplo. Essa é a má notícia. 

A boa é que a empresa onde eu trabalho fornece um excelente plano de saúde aos funcionários. Fiquei uma semana no hospital, onde passei por uma cifoplastia [injeção de preenchimento sintético] para reparar os ossos e comecei a primeira fase de quimioterapia. Depois de quatro meses, o nível de células cancerosas na minha medula óssea caiu de 50% para 5%, o que me qualificou para a próxima etapa do tratamento: o transplante de células-tronco. 

Em algum momento, o meu câncer começará a progredir depressa. Não haverá mais o que fazer. E eu não quero morrer com dor.

No papel, é um procedimento simples. Primeiro, eu passei alguns dias tendo células de medula óssea coletadas do meu sangue e guardadas em um freezer. Algumas semanas depois, recebi uma dose enorme de uma forte droga quimioterápica, que basicamente foi projetada para exterminar tudo o que vê pela frente – incluindo todas as células da minha medula.

Isso me mataria rapidamente, então no dia seguinte minhas células sadias foram descongeladas e injetadas de volta no meu corpo. É isso. Meu sistema imunológico foi completamente morto, e aí começou a se reconstruir. Depois de algumas semanas, tive alta e fui para casa. Dois meses depois, eu estava bem. 

Infelizmente, o procedimento não funcionou. Minha medula óssea ainda estava 5% cancerosa. Então agora eu estou na fase três, com outra droga de quimioterapia. Está funcionando, mas não tão bem. Meu último exame mostrou que a medula está 4% cancerosa, o que é um passo na direção certa, mas não com a intensidade necessária. Não existe nenhum tratamento capaz de colocar o meu câncer em remissão total, mas o objetivo é se aproximar de 0% de células tumorais. Não estou nem perto disso, por enquanto.

Eu ainda posso chegar lá. E, se meu tratamento atual não funcionar, existem outros a tentar. Apesar disso, e apesar de eu me sentir ok, o fato lúgubre é que estou tendo uma resposta modesta à quimioterapia. 

Então, quanto tempo de vida eu tenho? Cinco anos? Dez anos? Dois? Ninguém sabe. Mas eu tenho 57 anos, e a morte já não parece distante a ponto de eu não pensar nela. As chances de eu conseguir me aposentar são pequenas. 

Em algum momento dos próximos anos, o câncer vai começar a progredir rapidamente, e não haverá mais tratamentos a tentar. Meus ossos vão ficar mais frágeis, e poderão quebrar ou acumular microfraturas. Meu sistema imunológico vai se deteriorar, e ficarei vulnerável a infecções oportunistas. Posso sofrer hemorragias ou falência dos rins. Meus ossos vão deixar de reter cálcio, que se acumulará na minha corrente sanguínea [gerando hipercalcemia, condição que causa forte sonolência e pode levar ao coma].

Eu poderei sentir muita dor – ou não. O mieloma múltiplo pode acabar de muitos jeitos diferentes. Mas uma coisa é certa: quando qualquer um desses sintomas se manifestar, eu estarei morto em algumas semanas ou meses.

Mas, como Harry, eu não pretendo deixar isso acontecer. Eu não tenho o menor interesse em dizer o que outras pessoas devem fazer à beira da morte, mas a minha escolha sempre foi clara: eu não quero morrer com dor, ou drogado por sedativos, plugado em tubos e respiradores num quarto de hospital. Quando o fim estiver próximo, eu quero tirar minha própria vida. 

Até o ano passado, isso me deixaria apenas duas opções. A primeira seria esperar até um momento em que minha esposa não estivesse em casa, e arranjar um cilindro de gás inerte. Assumindo que eu faça tudo certo, vou morrer rapidamente e sem dor – mas também sozinho. Eu não teria chance de me despedir dos amigos e da família, nem eles de mim. Minha esposa teria que passar pelo horror de achar meu cadáver quando chegasse em casa, e essa seria sua última memória de mim.

A segunda opção seria esperar tempo demais e ir parar num hospital. Eu acabaria com todos aqueles tubos e analgésicos que nunca quis, e nunca sairia de lá. Talvez eu ficasse uma semana, talvez alguns meses. Quem sabe? É o meu pior pesadelo. 

Mas agora eu tenho uma terceira opção. Quando estiver a seis meses da morte, posso pedir ao meu médico um sedativo que irá me matar quando e onde eu quiser. Irei usá-lo? Não sei. Suspeito que tirar a própria vida requer uma certa quantidade de coragem, que não sei se tenho. Provavelmente nenhum de nós tem, até que tenhamos de encarar isso. 

Mas, de toda forma, eu não precisarei morrer antes do que desejo, por medo de perder o controle sobre o meu próprio destino. Também não terei de morrer sozinho, por medo de que alguém seja preso pela polícia. Eu vou poder dizer a minha esposa que a amo, uma última vez. Vou poder pegá-la pela mão, e poderemos deitar juntos na nossa cama. E então, lenta e pacificamente, darei meus últimos suspiros.

Eu não quero morrer. Mas, se eu tiver que, é assim que eu quero que aconteça. Eu não quero uma “festa do suicídio”, mas também não quero sofrer à toa por meses. Também não quero causar mais dor aos outros do que o necessário. Eu quero ir embora tranquilo, com quem amo a meu lado. 

Quando assinou a lei que autoriza o suicídio assistido, o governador da Califórnia escreveu: “Não sei o que eu faria se estivesse morrendo, com dores prolongadas e excruciantes. Mas tenho certeza de que seria um conforto considerar as opções permitidas por esta lei. E eu não negaria esse direito a ninguém”.

Nem eu. 

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(Foto: Filipe Redondo/Superinteressante)