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História

Os caçadores de fósseis

Conheça a incrível história dos homens e mulheres que construíram nosso conhecimento da nobre linhagem dos dinossauros.

Texto: Salvador Nogueira | Edição de Arte: Faz Faz Faz Design | Design: Andy Faria | Ilustração: Davi Augusto

O estudo dos dinossauros nasceu efetivamente no século 19. Sabemos que, com certeza, fósseis foram achados em períodos anteriores, causando assombro em seus descobridores, mas os primeiros estudos que podem ser chamados de científicos vieram justamente de onde menos se esperava.

Mary Anning (1799-1847) encontrou seu primeiro fóssil com apenas 11 anos de idade, quando seu irmão tropeçou em um crânio na praia em Dorset, na Inglaterra. Fascinada pela criatura, ela passou a colecionar achados similares e tentar reconstruí-los. Entre suas descobertas figuram ictiossauros e plesiossauros – répteis marinhos que viveram na mesma época em que seus primos terrestres famosos, os dinossauros.

Mulher e de origem humilde, de início ela não foi levada a sério pelos pomposos acadêmicos da época. Mas seus esforços para catalogar e anotar cuidadosamente novas descobertas, além de tentar projetar como eram essas criaturas jurássicas, acabaram por lhe trazer reconhecimento. Um dos que se apaixonaram pelas incríveis revelações de Anning foi um médico britânico chamado Gideon Mantell (1790-1852).

<strong>Fóssil de plessiossauro, descoberta de Mary Anning em 1830.</strong>
Fóssil de plessiossauro, descoberta de Mary Anning em 1830. Wikimedia Commons/Montagem sobre reprodução

Ele já colecionava seus próprios resquícios do passado biológico quando, em 1822, sua esposa encontrou nos campos de Sussex grandes dentes fossilizados. Gideon notou que eles eram similares aos de uma iguana, só que muito maiores. Pela primeira vez, um dinossauro foi percebido pelo que realmente era – um grande réptil extinto, que viveu entre 252 milhões e 65,5 milhões de anos atrás, uma era hoje conhecida como o Mesozoico. Os Mantells haviam encontrado o que sobrou de um iguanodonte.

Outros achados foram se somando até que, em 1842, o anatomista Sir Richard Owen (1804-1892) chegou a uma conclusão importante – criaturas aparentemente díspares como iguanodontes e megalossauros faziam parte de um único grupo, batizado de Dinosauria (algo como “réptil terrível”). Nascia a terminologia que usamos até hoje para descrever coletivamente esses animais.

<strong>Sir Richard Owen, o criador do termo “dinossauro”.</strong>
Sir Richard Owen, o criador do termo “dinossauro”. Wikimedia Commons/Montagem sobre reprodução

Sir Richard era uma figura controversa, que fez ao longo de sua carreira coisas pouco elogiosas, como diminuir o trabalho de gente como Mantell – e depois até tentar tomar o crédito para si por suas descobertas –, mas não há dúvida de que ele teve um grande impacto no estudo dos dinossauros, a começar por perceber sua natureza comum. Owen também nos deixou um grande legado, ao revolucionar a noção que temos dos museus, insistindo em que seu acervo deveria permanecer em exposição para todos que quisessem vê-lo.

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A guerra dos ossos

O frenesi dos recém-batizados dinossauros não tardaria a atravessar o Atlântico, e o que se viu nos Estados Unidos na segunda metade do século 19 foi uma intensa competição entre dois paleontólogos velozes e furiosos: Edward Drinker Cope e Othniel Charles Marsh.

Tudo começou com uma corrida para ver quem publicava a descoberta seguinte mais rápido que o rival. Mas logo a contenda se transformou num medonho show de trapaças, envolvendo roubo e destruição de fósseis, apropriação da pesquisa alheia, suborno e ataques ferozes de parte a parte nos meios acadêmicos. Foi um pega pra capar.

A pressa em publicar suas descobertas também induzia a erros, que ambos jamais admitiam. A disputa, que ficou conhecida como “Guerra dos Ossos” ou “Grande Corrida dos Dinossauros”, teve impactos diversos. “É justo dizer que o resultado em última análise foi um número extraordinário de achados espetaculares e um pesadelo de nomenclatura que consumiu a maior parte dos últimos cem anos para ser resolvido”, afirma David E. Fastovsky, da Universidade de Rhode Island, nos EUA.

Revelações e Revoluções

O século 20 testemunhou o surgimento de grandes caçadores de fósseis, como o legendário explorador americano Roy Chapman Andrews (1884-1960). Na década de 1920, ele fez grandes descobertas na Mongólia, até então terreno praticamente inexplorado por paleontólogos.

Com seu chapéu característico, a habilidade com armas de fogo e incrível conhecimento de línguas orientais, a figura cativante de Andrews teria inspirado a criação de um personagem muito famoso do cinema – ninguém menos que o arqueólogo Indiana Jones.

Contudo, o grande avanço no estudo dos dinossauros, que nos conduziria diretamente ao entendimento moderno que temos dessas criaturas, veio com o americano John Harold Ostrom (1928-2005). Durante a década de 1960, ele conduziu diversos trabalhos que sugeriam que os dinossauros provavelmente eram muito mais parecidos com as aves modernas do que com os répteis. Em 1976, uma análise do arqueoptérix – praticamente um “elo perdido” – confirmou essa hipótese de início controversa.

<strong>Roy Andrews, o protótipo de Indiana Jones.</strong>
Roy Andrews, o protótipo de Indiana Jones. Bettmann / Getty Images/Montagem sobre reprodução

Estudos filogenéticos modernos se concentram em decifrar com exatidão cada vez maior a árvore genealógica dos dinossauros. Um dos mais ativos paleontólogos a investigar isso hoje em dia é o americano Paul Sereno, da Universidade de Chicago, que combina trabalho de campo na busca por novos fósseis com esforços na produção de cladogramas (gráficos que detalham as relações evolutivas entre grupos de espécies).

“Eu vejo a paleontologia como ‘aventura com um propósito’”, diz Sereno. “Como mais descrever uma ciência que permite que você explore os mais remotos cantos do globo, ressuscitando criaturas gigantescas que nunca foram vistas antes? Você tem que ser capaz de ir aonde ninguém jamais esteve.”

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