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Os heróis desconhecidos da escravidão

Não foi só Zumbi. Líderes negros lutaram e libertaram escravos por toda a América Latina muitos anos antes (e depois) de Palmares. Conheça seus nomes – e suas histórias.

Doze milhões de africanos imigraram à força entre o século 16 e o 20. Essa narrativa você conhece bem – no Brasil,  todo mundo aprende em sala de aula sobre todo o pesar e sofrimento pelo qual passaram os negros submetidos à escravidão. Finda a aula, no entanto, costuma ficar de fora o lado B dessa história.

Os primeiros afro-brasileiros – bem como negros em toda a América Latina – fizeram mais do que sofrer. Forjaram alianças, planejaram combates, usaram táticas de guerrilha e até implantaram modelos de governo inspirados em suas nações originais. Mas mesmo os líderes desses movimentos quase caíram no esquecimento – e não faz muito tempo que seus nomes voltaram à tona, graças a investigações profundas sobre esse passado. São esses os homens e mulheres que você vai conhecer a seguir.

Benkos Biohó

A Colômbia hospeda a segunda maior população negra da América do Sul, ficando atrás apenas do Brasil (são 14,5 milhões por aqui, segundo o IBGE, e 4,6 milhões de afro-colombianos segundo o DANE, o IBGE de lá). E o país também foi palco de uma das primeiras revoluções negras da história do continente. Seu protagonsta foi Benkos Biohó – de quem poucos brasileiros já ouviram falar. Ainda assim, sua vida impactou todo o nosso continente: graças a Benkos, foi fundado o primeiro quilombo das Américas.

Sua história começa no Arquipélago dos Bijagós, atual Guiné-Bissau. A presença de escravagistas no arquipélago levou ao aprisionamento da família inteira de Benkos em 1596. Mas sua vida como escravo duraria meros três anos.

3 anos: foi o tempo que Benkos passou como escravo até fundar o primeiro palenque das Américas.

Em 1599,  agora batizado e renomeado Domingos Biohó, ele liderou uma rebelião com 30 homens em Cartagena das Índias, norte da Colômbia. O grupo tomou conta de uma região elevada conhecida como Montes de María. A partir dali, formaram uma rede de inteligência que mantinha o exército de Benkos atualizado sobre o que ocorria na cidade. Assim, era possível organizar novas fugas de escravos para o palenque – o equivalente colombiano do quilombo brasileiro.

A terra dos negros liderados por Benkos ficou conhecida como Arcabuco, que quer dizer “lugar de arvoredos intrincados” – mata fechada e, por isso mesmo, difícil de invadir. Sem saber como derrotar os maroons, o termo para negros foragidos, o governador de Cartagena, Geronimo de Suazo e Casasola ofereceu um tratado de paz em 18 de julho de 1605 – que autorizava os habitantes a circular pela cidade.

O tratado foi violado em 1619, quando, andando desprotegido, Biohó foi surpreendido próximo à Muralha de Cartagena e aprisionado. Em 1621, Benkos foi enforcado – mas a localização estratégica do quilombo seguiu protegendo seu legado. Com o crescimento contínuo do quilombo, a coroa espanhola voltou a ceder, emitindo um decreto real no ano de 1691 que fundava, oficialmente, o Palenque de San Basilio. Desde 2005, ele é considerado Patrimônio Imaterial da Humanidade pela Unesco. E foi ali que os libertos de Benkos tornaram-se o primeiro povo negro livre das Américas.

Princesa Aqualtune

Enquanto os palenques se espalhavam por toda a Colômbia, no Brasil rebeldes se reuniam em torno dos quilombos – que têm como seu exemplo máximo Palmares, na liderança de Zumbi.

Antes de Zumbi, no entanto, houve Ganga Zumba – corruptela de Ganazumba, que quer dizer “grande senhor”.  Ele foi o primeiro líder de Palmares, entre 1670 e 1678. Mas sua história começa bem antes, no Reino do Congo, com a  Princesa Aqualtune.

Aqualtune fazia parte da nobreza do Reino do Congo – cuja relação com Portugal era problemática. A rivalidade entre as duas nações levou a uma série de conflitos a partir de 1620 – em alguns deles, a Holanda chegou a apoiar as tropas congolesas contra Portugal. Por mais de três décadas, os portugueses levaram a pior, perdendo territórios importantes para o Congo. O confronto chegou ao seu ápice em 1665, na Batalha de Mbwila. O rei congolês Nvita-a-Nkanga – ou Antonio 1º  – foi capturado e decapitado pelos portugueses. Mais de 5 mil congoleses morreram, e centenas de membros da nobreza foram presos. Entre eles, uma das guerreiras que liderara um batalhão em Mbwila: Aqualtune. Os cativos do Congo foram espalhados pelas colônias europeias nas Américas. E boa parte foi escravizada e comprada no Brasil. Nesse ponto, os registros se perdem. Aqualtune reaparece escrava na Capitania de Pernambuco – e já com um filho: Ganga Zumba. Motivada pelos corriqueiros estupros sofridos pelas escravas negras, Aqualtune decide tentar a sorte na fuga em direção à já conhecida região de Palmares, atual Alagoas que, na época, era  só um protótipo do quilombo que viria a ser.

Ganga Zumba

Aqualtune teria vivido em Palmares com três filhos: Sabina, Ganga Zona e Ganga Zumba. Esse último, ao assumir a liderança do Quilombo, organiza as estratégias de defesa do assentamento, com técnicas típicas de guerrilha, priorizando a mobilidade das tropas e evitando o confronto direto com possíveis oponentes.

Com vários grupos aderindo a Palmares, Zumba consolidou um conselho com outros chefes, reproduzindo a organização política de boa parte dos impérios africanos. Sua sede era o Cerro dos Macacos, o maior dos assentamentos que formavam o conglomerado de Palmares. As demais regiões eram lideradas, em geral, por seus descendentes – entre eles, seu sobrinho Zumbi, filho de Sabina.

Palmares, no seu ápice, reuniu cerca de 20 mil pessoas, entre negros, caboclos e índios, em uma comunidade próspera, na qual Zumba vivia como um verdadeiro monarca.

O conhecimento do terreno dava grandes vantagens estratégicas aos quilombolas – e, por isso, a coroa portuguesa penou em suas primeiras investidas contra Palmares. Aos poucos, porém, conforme os dois lados entendiam melhor a geografia da região, a vida em Palmares ficou mais perigosa. Um dos conflitos levou à captura de filhos de Zumba – e deixou o próprio líder ferido. A essa altura, o governador Pedro de Almeida propôs um tratado de paz, além de prometer devolver mulheres e filhos de negros que ainda estivessem cativos. No entanto, o tratado exigia que Palmares parasse de abrigar novos foragidos – e o pior, que mudasse de lugar. O novo endereço era o Vale do Cucaú (PE), área muito mais exposta.

Era uma grande furada – e boa parte dos chefes de Palmares se deram conta disso. O maior contraditor era Zumbi – que liderou um grupo que seguiu em Palmares, refugiado nas proximidades.

Quem foi para Cucaú enfrentou a vigilância acirrada do governo de Pernambuco. Há quem diga que, para pôr fim à cisão de Palmares, um dos seguidores de Zumbi teria envenenado Ganga Zumba. Fato é que, na altura de sua morte, em 1678, não faltavam pessoas insatisfeitas com o tratado assinado pelo Grande Senhor.

Zumbi seguiu desafiando o tratado. Sob sua regência, Palmares resistiria por mais 15 anos.

Zacimba Gaba

Em meados de 1690, chega ao Brasil  Zacimba Gaba,  vinda da nação Cabinda, hoje parte de Angola. Ela desembarcou no Espírito Santo e foi enviada para a Fazenda José Trancoso. De natureza rebelde, Zacimba teria sido exposta a uma série de castigos e violentada pelo dono da fazenda. A presença de Zacimba na Casa Grande, apesar da violência, lhe deu uma oportunidade de liberdade (ou, ao menos, de vingança). Ela passou a planejar um envenenamento com o chamado “pó de amansar sinhô”. O plano era administrar pequenas doses de veneno aos poucos, para não levantar suspeitas.

O escritor José Alípio Goulart, que compilou as técnicas mais usadas pelo escravos rebeldes, menciona um diagnóstico da época chamado “quebranto”: sintomas de fadiga e desânimo que se abatiam sobre senhores de escravos. Na maioria das vezes, diz o autor, o quebranto era resultado desse tipo de envenenamento de longo prazo.

O veneno escolhido por Zacimba foi provavelmente o “pó de preguiçosa”, veneno extraído de jararaca. Ele até podia ser ingerido poucas vezes sem causar mal, fato útil caso alguém desconfiasse do plano.

Quando o senhor finalmente caiu, Zacimba liderou uma fuga em grupo e fundou um quilombo às margens do Riacho Doce. Boa parte do seu tempo, no entanto, era dedicado à construção de canoas e à organização de ataques noturnos no porto próximo à aldeia de São Mateus (ES), libertando tantos negros recém-chegados quanto possível.

María Remedios del Valle

María Remedios del Valle nasceu em Buenos Aires em 1768, quase 90 anos antes da abolição da escravidão na Argentina. Na vida adulta, ela se viu envolvida na guerra pela independência do país contra a coroa espanhola.

De início, vivia entre os seguidores do acampamento do Exército do Norte – que pretendia libertar os territórios hoje pertencentes à Bolívia e ao Peru. María trabalhava como rabona, o termo usado para as mulheres que cozinhavam, lavavam e remendavam para os combatentes  – além de fazer bicos como enfermeiras.

Na batalha de San Miguel de Tucumán, María solicitou ao General Manuel Belgrano permissão para cuidar das tropas na linha de frente. O pedido foi negado – e a enfermeira foi mesmo assim. Entre os feridos teria surgido o apelido pelo qual é conhecida até hoje: Mãe da Pátria.

Na Batalha de Ayohuma, apenas um ano depois, María foi baleada e capturada, mas seguiu tratando feridos no cativeiro. Organizou várias fugas – e pagou caro pelas tentativas que falharam. Seu castigo mais lembrado foi uma sentença de nove dias consecutivos de açoites em público. Até que um de seus planos deu certo. María Remedios del Valle escapou e voltou ao exército, onde permaneceu até o fim da guerra em 1818. Em 1826, o pedido de María por uma pensão de veteranos de guerra foi negado, e ela passou a mendigar para sobreviver em Buenos Aires. Foi reconhecida dois anos depois, já com cerca de 60 anos, por um dos generais que combatera com ela. Pelo menos cinco oficiais se uniram para exigir do governo compensação a Del Valle – que foi concedido depois que,  em uma audiência oficial, ela mostrou suas cicatrizes  de tiros e golpes de espada.

O resgate da história de María no século 21 teve tanto impacto que a data de morte da Mãe da Pátria, 8 de novembro, foi escolhida para celebração do Dia Nacional dos Afro-argentinos, uma comemoração similar ao Dia da Consciência Negra.

Francisco José do Nascimento

No Brasil, em 1880 o sistema escravagista já dava sinais de falência. As revoltas seguiam e, no Nordeste, um dos ícones desse período foi Chico da Matilde – o apelido de Francisco José do Nascimento, líder descendente de escravos que trabalhava como jangadeiro e aderiu à luta abolicionista em 1881. A Sociedade Cearense Libertadora propôs em assembleia uma greve dos jangadeiros. Qualquer comércio que necessitasse de embarque e desembaque nas praias do Ceará dependia deles – inclusive o tráfico de escravos.

Foi quando Chico da Matilde assumiu a liderança do movimento. Há relatos de um protesto que impediu que duas escravas, de 12 e 42 anos, embarcassem para serem vendidas no Sudeste. Por sua participação, Chico foi demitido – o que só serviu para oficializar sua liderança à frente da resistência popular. Ele passou a ser conhecido como Dragão do Mar. Em 1884, a escravidão no Ceará começou a cair: primeiro no município hoje batizado de Redenção, e depois na província inteira. Quatro anos antes da Lei Áurea, o Ceará já tinha abolido a escravatura em todo o seu território.

Quando a lei que proibiu a escravidão em todo o Brasil foi finalmente assinada, boa parte dos escravos, na realidade, já estava livre. E muito disso deve-se à insurgência de heróis como os que você conheceu aqui – e de tantos outros cuja contribuição permanecerá para sempre anônima. Fazer História com H maiúsculo, afinal, depende de uma boa dose de rebeldia.