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O suicídio causa mais de 800 mil mortes a cada ano. O número é maior que o de todos homicídios e guerras no mundo. No Brasil, são quase 12 mil vítimas – mas podem ser bem mais. Entenda por quê.

Texto: Laura Lima e Ricardo Lacerda | Design: Estúdio Nono | Foto: Tomas Arthuzzi | Edição: Emanuel Neves


Beth entrou no ônibus em Parnamirim, região metropolitana de Natal. Minutos depois, desceu em uma das cabeceiras da Ponte Newton Navarro, que liga o centro à zona norte da capital potiguar. Aos 36 anos, ela já tinha tentado tirar a própria vida 12 vezes. Não suportava mais as idas e vindas da depressão. Naquele momento, sua ideia era uma só: pular sobre as águas do Rio Potengi de uma altura de 55 metros – equivalente a um prédio de 18 andares. Havia acabado de escurecer naquele 14 de janeiro, em 2016, quando ela saltou.

A Newton Navarro faz parte de uma realidade pouco discutida. Desde 2007, quando começou a funcionar, aconteceram ali centenas de suicídios – talvez milhares. Um deles, minutos antes de sua inauguração. Mas o fenômeno não é apenas local. No mundo, uma pessoa tenta se matar a cada três segundos. E alguém se suicida a cada 40 segundos, o tempo de leitura do parágrafo acima. Segundo a Organização Mundial da Saúde, ocorrem mais de 800 mil suicídios por ano. Eles matam mais gente, no mundo, do que todos os homicídios (aproximadamente 580 mil por ano, segundo dados da OMS) e as guerras (70 mil a 100 mil vítimas por ano) somadas. E o Brasil é o oitavo país com mais casos consumados.

Por aqui, o Ministério da Saúde registrou 11.433 suicídios em 2016. A média fica perto de seis mortes por 100 mil habitantes, a metade da média global – que é de 10,9 suicídios a cada 100 mil pessoas. Mas o dado é enganoso. Enquanto 83% dos países conseguiram reduzir suas taxas de 2002 a 2012, os números do Brasil quase dobraram nos últimos 20 anos, saindo de 6,7 mil suicídios em 1996 para os 11,4 mil de 2016. Como agravante, o fato de que a maioria deles poderia ter sido evitada.

Sacudir o tapete

Até pouco tempo atrás, era comum ouvir que o suicídio era uma epidemia silenciosa. Entretanto, dois fatos colocaram o assunto em evidência. Um deles foi a série 13 Reasons Why, lançada pela Netflix em 2017. A história tem como protagonista uma adolescente de 17 anos que sofre bullying, é estuprada e põe fim à própria vida. Antes, ela grava 13 fitas cassete explicando seus motivos. A cena da morte é polêmica, pois detalha o método (o que pode induzir suicidas a tentar repeti-lo) e submete o espectador a três minutos de sofrimento excruciante. Na mesma época, uma brincadeira online chegou ao Brasil desafiando adolescentes a provocar lesões no próprio corpo. O último ato do jogo, que ficou conhecido como Baleia Azul, seria o suicídio. Ninguém sabe se ele de fato existiu ou era uma lenda urbana – mas colocou as discussões sobre suicídio na ordem do dia.

“Por caminhos tortuosos, o comportamento suicida chegou à sala de visita das famílias. As pessoas têm que conversar mais, não se pode colocar esse assunto debaixo do tapete”, diz o psiquiatra Neury Botega, professor da Unicamp. A série e o jogo são voltados a adolescentes, um dos públicos mais vulneráveis. Autor de Crise Suicida e outros livros sobre o tema, Botega explica que o suicídio pode ter múltiplas causas, afetando pessoas de todas as idades e classes sociais. Sentimentos de desesperança, desamparo e desespero, além de impulsividade, costumam estar associados ao suicídio. No Brasil, a maior incidência é entre idosos, com 8,9 óbitos por 100 mil pessoas. As motivações envolvem restrições físicas, o ostracismo da aposentadoria e a solidão. Mas o maior crescimento das taxas de suicídio, por aqui, é entre jovens.

Os adolescentes do século 21 abusam da vida online. Com as redes sociais, qualquer exposição pode tomar proporções gigantescas. A expectativa por aprovação causa crises de ansiedade. Acrescente aí questões como uma sociedade mais agressiva e o excesso de proteção que os pais dão aos filhos. O resultado são crianças, adolescentes e jovens adultos menos preparados para as adversidades da vida. Como consequência, muitos não veem saída senão o suicídio. Outros buscam conforto nos danos autolesivos, uma forma nada saudável de amenizar dores psicológicas.

Também chamada de cutting ou automutilação, a prática consiste, geralmente, em fazer pequenos cortes no corpo. No mundo, 20% dos adolescentes se automutilam, segundo a Fundação de Saúde Mental da Inglaterra. “Virou uma epidemia. É um dos comportamentos com maior taxa de contágio na comunidade escolar”, explica a psicóloga Karen Scavacini, diretora da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio (Abeps). Ainda que o cutting não seja exatamente um comportamento suicida, não há dúvidas de que se trata de um fator de risco.

Globalmente, o suicídio é a segunda causa de morte mais comum entre jovens de 15 a 29 anos. Fica atrás apenas dos acidentes de trânsito. No Japão, que reduziu seus índices gerais em quase 40% de 2003 a 2017, o suicídio de adolescentes andou na contramão, chegando ao maior nível em 30 anos. Na Inglaterra e no País de Gales, a situação também assusta: o número de jovens suicidas cresceu 67% de 2010 a 2017. Por isso, o governo criou um ministério para tratar a prevenção.

COMO AJUDAR QUEM PENSA EM SUICÍDIO

1. NÃO TENHA MEDO DE TOCAR NO ASSUNTO.
Diga à pessoa que ela parece diferente, mais triste, e que isso preocupa você. Mostre que ela não está sozinha.

2. EVITE CLICHÊS E FRASES PRONTAS.
Aborde o tema de modo respeitoso e afável. Não diga coisas como “amanhã é outro dia”, “eu já passei por isso e venci” ou “há pessoas em situação muito pior”. Frases assim desqualificam o sentimento, podendo inclusive agravar o quadro.

3. OUÇA A PESSOA.
Esteja disposto a ouvir tudo o que o outro tem a falar. Mantenha contato visual e responda sempre em tom gentil.

4. ENCAMINHE-A A UM TRATAMENTO
Mostre à pessoa que não há problema em buscar ajuda e que ela não deve ter vergonha. Se for o caso, você mesmo pode agendar uma consulta e acompanhá-la.

No Brasil, entre 2000 e 2015, houve aumento de 65% nos registros com meninos e meninas de 10 a 14 anos. A alta foi de 45% no grupo de 15 a 19 anos. Os dados são da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). Drogas e álcool estão entre os principais fatores que podem levar ao suicídio. “Adolescentes não deveriam, em hipótese alguma, usar essas substâncias”, diz Antônio Geraldo da Silva, diretor da ABP. No Brasil, também chama atenção a ocorrência de casos entre grupos mais específicos. Segundo um estudo da Universidade de Brasília (UnB) e do Ministério da Saúde, a mortalidade de jovens negros por suicídio aumentou 20% de 2012 a 2016. Já o índice entre jovens brancos ficou estável. O preconceito, a discriminação e o racismo institucionalizado fazem com que seja 45% mais provável um jovem negro se matar do que um branco.

Entre povos indígenas, a situação é ainda mais espantosa, com média 200% maior que a geral do País. De acordo com o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), vinculado à Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB), um índio se suicida a cada três dias – e a metade dessas mortes é de crianças ou adolescentes. A maioria dos casos acontecem no Amazonas e no Mato Grosso do Sul, onde há maior ocorrência de disputas por terras. Falta de perspectiva de vida, ausência de identidade e difícil acesso à sociedade moderna também influenciam.

“A morte de qualquer
homem me diminui,
porque eu sou parte da humanidade;
e, por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram,
eles dobram por ti.”

John Donne

O inglês John Donne viveu no século 17. Duzentos anos depois, Ernest Hemingway usou parte de um poema de Donne para nomear um romance,  , de 1940. A expressão remete ao som das torres das igrejas que anunciam uma morte – uma homenagem a quem se vai. Hemingway, a propósito, se matou em 1961, vencido pela depressão e o alcoolismo.

A reflexão sobre o sentido da existência é recorrente entre pessoas de comportamento suicida. Do alto da ponte, sobre o Rio Potengi, Beth questionava-se por que tanto sofrimento. Ela não se recorda do momento em que saltou. “Mas lembro-me exatamente de quando bati na água e meu corpo inteiro doeu. Naquele instante, comecei a valorizar minha vida.” Mesmo sem saber nadar, ela ficou na superfície, até ser resgatada por um pescador. Mais viva do que nunca, sem quebrar um só osso.

Três anos depois, Elizabeth Ferreira de Araújo está prestes a se formar em Pedagogia. Faz questão de dizer seu nome completo e de falar sobre seu renascimento. Venceu o preconceito e pretende escrever um livro sobre sua história. “Suicídio nunca é a solução, não vale a pena”, aconselha. É difícil apontar uma única razão para que ela atentasse contra a própria vida 13 vezes. A primeira foi na adolescência. Na penúltima, tomou mais de cem comprimidos de remédio e teve uma parada cardíaca. A menina que cresceu indo à igreja casou, tentou ter filhos e ser feliz. Mas não conseguia. Desde a infância, convivia com uma angústia profunda, um conflito interno que só abrandou quando se aceitou homossexual, aos 31 anos. Mas a depressão exige uma luta constante, e teimava em reaparecer.

Assim como acontece com adolescentes, negros e índios, a comunidade LGBT é mais vulnerável ao suicídio. Jovens rejeitados pela família por serem gays têm até 8,4 vezes mais chances de tentar suicídio. A estimativa consta num relatório global divulgado em 2018 pela Transgender Europe, uma rede que congrega diferentes entidades ligadas às causas de gênero na Europa.

Discriminação, preconceito, bullying e frustrações potencializam o ideário suicida. Pensar em se matar, aliás, não é algo raro entre a população em geral. Uma pesquisa da Unicamp aponta que 17,1% das pessoas já pensaram seriamente em suicídio, e 4,8% fizeram planos. Outros 2,8% efetivamente tentaram (proporcionalmente, significaria 6 milhões de brasileiros). O estudo ouviu 515 pessoas, em Campinas, e concluiu que a prevalência de ideação suicida é maior entre mulheres, indivíduos de 30 a 44 anos e que moram sozinhos.

Assunto maldito

A OMS calcula que mais de 90% dos suicidas tenham algum problema mental, muitas vezes não diagnosticado. Mas isso não quer dizer que essas pessoas sejam malucas. “O estigma em torno de transtornos mentais e suicídio faz com que muitas pessoas que pensam em tirar suas próprias vidas ou já tentaram suicídio não procurem ajuda”, diz a psicóloga Catarina Dahl, consultora de saúde mental da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), da OMS. Esse preconceito tem nome: psicofobia. E existe até mesmo um projeto de lei para tipificá-lo como crime.

Entre as vítimas de psicofobia estão indivíduos com depressão (presente em 36% das vítimas de suicídio), dependência do álcool (23%), esquizofrenia (14%) e transtornos de personalidade (10%). Considerada “o mal do século” pela OMS, a depressão afeta hoje 320 milhões de pessoas. Estima-se que entre 10% e 15% delas irão atentar contra a própria vida. Daí a importância do atendimento psicossocial. Daí, também, a explicação mais plausível para a dura realidade brasileira, onde a população pode buscar ajuda nos Centros de Atendimento Psicossocial (CAPS). O problema é que são apenas 2,5 mil CAPS e mais de 5 mil cidades. Na opinião de Botega, o fechamento de manicômios nos anos 1980 foi uma decisão acertada, mas nada foi feito para substituí-los. “O paciente psiquiátrico exige muito cuidado. Nem mesmo a iniciativa privada cobre com um atendimento adequado.”

4 MITOS SOBRE SUICÍDIO

1. QUEM AMEAÇA SE MATAR NÃO VAI FAZER ISSO, SÓ QUER CHAMAR ATENÇÃO.
Grande parte dos suicidas fala ou dá sinais sobre seu ideário de morte. A maioria deles expressa, em dias ou semanas anteriores ao fato, suas intenções.

2. QUANDO UM INDIVÍDUO SOBREVIVE A UMA TENTATIVA DE SUICÍDIO, É SINAL DE QUE ELE ESTÁ FORA DE PERIGO.
Um dos períodos mais críticos é justamente quando a pessoa está se recuperando da tentativa ou mesmo hospitalizada. A semana seguinte à alta do hospital costuma ser o período de maior fragilidade.

3. A PESSOA ESTAVA DEPRIMIDA E PENSAVA EM SUICÍDIO, MAS DE REPENTE MELHOROU. SIGNIFICA QUE O PROBLEMA PASSOU.
Se alguém que pensa em suicídio parece melhorar do nada, é preciso redobrar a atenção: o alívio pode ser causado pela decisão e o planejamento de um eventual atentado contra a própria vida.

4. NÃO DEVEMOS FALAR SOBRE SUICÍDIO, POIS PODE AUMENTAR OS RISCOS.
Se você percebeu sinais de comportamento suicida em um amigo ou familiar, aborde o assunto. Mas tenha cuidado: não minimize a situação ou desmereça, de modo algum, o sentimento da pessoa.

Para melhorar os indicadores, é preciso agir rápido, como fizeram britânicos e japoneses. Uma das maneiras de frear a escalada de suicídios é encarar doenças mentais como se faz com aids e câncer – ou seja, como algo sério e que deve ser combatido com rigor. Campanhas de prevenção são um ponto de partida. É o caso do Setembro Amarelo, uma ação realizada no Brasil desde 2015. Mas há um consenso de que se deve ir além. Inclusive melhorando o preparo dos profissionais da área. Isso porque seis de cada dez pessoas que se suicidaram já consultaram um psiquiatra ou um psicólogo. Karen Scavacini sabe como pode ser difícil enfrentar uma situação extrema sem o preparo adequado.

Duas décadas atrás, ela havia acabado de se formar em Psicologia quando uma paciente com diabetes grave entrou no consultório dizendo-se pronta para morrer, ali mesmo – a mulher tinha deixado de tomar seu medicamento de propósito. Scavacini contornou a situação, mas aprendeu uma lição. “Eu não tinha preparo nenhum. É um absurdo que a maioria das faculdades ainda não tenham aulas de prevenção em seus currículos.”

Nos EUA, um gigantesco estudo das universidades Harvard e da Flórida analisou os hábitos de saúde de 2 milhões de pessoas entre 1965 e 2014 e encontrou 3,2 mil suicídios. A conclusão foi de que não houve melhora na habilidade de médicos e psicólogos em prevenir essas mortes. Não é difícil entender por que o país ocupa o terceiro lugar em suicídios no mundo, atrás de Índia e China. Conforme o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA, de 1999 a 2017 os suicídios aumentaram em 33% no país – a pior média desde a Segunda Guerra. Com 14 casos por 100 mil habitantes, o país passou a considerar a situação uma urgência médica.

Números em xeque

Os dados trazidos até aqui são suficientes para disparar um alarme. Mas tudo leva a crer que a realidade é ainda pior. Entre as fontes ouvidas pela SUPER, há uma unanimidade de que os indicadores são subdimensionados. “Consideramos que o número de 12 mil suicídios ao ano no Brasil possa ser bem maior”, diz Silva, da ABP. O próprio Ministério da Saúde reconhece a dificuldade em lidar com números exatos, e calcula que eles sejam ao menos 20% maiores.

Por conta da psicofobia, do tabu e de questões de ordem prática (como receber o seguro de vida), muitas famílias não notificam o suicídio. Alguns são registrados como morte acidental, vítima de projétil, parada cardiorrespiratória ou causa indeterminada. Entre idosos, a OMS estima que o índice seja até 25% maior. Entre jovens e adultos, 12%. Karen Scavacini tem certeza de que o cenário é bem pior do que se imagina. Em grupos de apoio a familiares de suicidas, ela costuma perguntar quem tem suicídio registrado no atestado de óbito: apenas 10% levantam a mão.

Toda morte autoinfligida exige um inquérito policial. “Nunca se descarta a possibilidade de auxílio, indução ou instigação por terceiro”, explica a delegada Vanessa Pitrez de Aguiar Correa, diretora do Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DPHPP) do Rio Grande do Sul. Mesmo que a investigação indique ato voluntário, é necessário levantar prova pericial e encaminhar o corpo ao Instituto Médico Legal (IML). O perito médico, então, emite o atestado de óbito com a causa da morte – mas não diz se a pessoa se matou. “O que vai apontar se de fato é suicídio é a conclusão do inquérito policial, lastreado pelo conjunto de provas”, afirma Correa. Não é incomum o familiar pegar o atestado e a verdadeira causa não ser notificada.

Muitas vezes, quando um corpo é encontrado no Potengi, o registro é de afogamento, não de suicídio. Foi para chamar a atenção sobre a epidemia de suicídios na Newton Navarro que o pastor Rubens Medeiros instalou um acampamento na cabeceira da ponte, em 21 de abril. Munido de binóculos, rádios comunicadores e muita boa vontade, um grupo de 300 voluntários dedicou-se a evitar novas mortes no local por dois meses. “O pessoal que mora aqui sabe muito bem que havia pessoas pulando diariamente. Todo mundo conhece a história absurda dessa ponte”, diz o pastor. Segundo ele, um levantamento extraoficial feito por policiais e bombeiros indicava ali 413 suicídios entre o começo do ano e o dia 10 de abril. Equivale a quatro mortes por dia. Isso em um único local, em uma única capital. Se a tendência seguisse, não estaria errado prever 1,2 mil suicídios até o fim de 2019 somente na ponte. Daria 10% do total notificado no Brasil.

Dia 4 de maio, Beth foi novamente à Newton Navarro. Agora, ela estava animada, participando de um abraço coletivo na ponte, onde quase morreu. Os voluntários evitaram mais de 200 suicídios no local.