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A ditadura do modernismo

Apesar de toda a diversidade social e cultural de suas regiões, a identidade nacional foi sendo moldada e alguns mitos foram sendo construídos como símbolos dessa unidade.

Luís Augusto Fischer

País imenso, o Brasil bem que poderia ter se fragmentado em diversos Estados – como, aliás, a Super especulou, no mês passado, na seção Superfantástico. No entanto, permaneceu unitário, provavelmente em conseqüência da escravidão, base da organização brasileira. Apesar de toda a diversidade social e cultural de suas regiões, a identidade nacional foi sendo moldada e alguns mitos foram sendo construídos como símbolos dessa unidade. Um desses mitos, que completou 80 anos no mês passado, foi a Semana de Arte Moderna de São Paulo, em 1922. Desde cedo, na escola, aprendemos que a literatura brasileira no século XX é um vasto campo composto de modernismo, modernismo e modernismo, tudo antecedido de pré-modernismo e vagamente seguido de pós-modernismo. Não é bacana, singelo e econômico?

É um pavor, do ponto de vista crítico. Fica parecendo que tudo o que vale na produção de literatura brasileira ou canta pela pauta modernista, ou pode tirar suas esperanças do sol – porque não entrará na escola, no vestibular, na compra de livros para a biblioteca. Traduzindo em miúdos: levando a sério a absoluta dominância modernista, só tem valor a literatura arrojada, de vanguarda, experimental em forma e em tema, que revire ou pareça revirar a identidade nacional eternamente pelo avesso e contradite tudo o que for ou parecer conservador. Se um autor escrever romance de feição tradicional, se compuser teatro não-agressivo, se sua poesia dialogar com a tradição clássica, se seu conto não fizer careta para a platéia, esquece.

Escritores que não rezam pela cartilha modernista e, ainda por cima, freqüentam tema local, fora de São Paulo e do Rio de Janeiro, padecem do estranho problema de escreverem e serem lidos, mas não recebem validação por parte de críticos e professores. De onde nasceu isso?

A história é longa e, como todas, pode ser contada de vários ângulos. Por exemplo, primeiro ato: a província de São Paulo se torna o ponto de partida da articulação do território brasileiro – empreendeu desde o século XVI a conquista do interior pelo Centro-Oeste e pelo Sul, integrando as partes do futuro Brasil, especialmente na época do ouro em Minas. Segundo: São Paulo cultiva o café em bases capitalistas e, na segunda metade do século XIX, dominará o cenário econômico brasileiro, passando à frente do Rio, cujo café é produzido por mão-de-obra escrava, já com seus dias contados.

São Paulo, assim, arranca para o futuro: produz mais e melhor que outras partes do país, numa dinâmica de mercado inédita por aqui. Terceiro ato: protagoniza a República, ultrapassando a condição de mera província para alcançar o mando do país. Quarto ato: em 1922, alguns artistas, em sua maior parte paulistas, afinados com certa moda européia (certa moda, não a única), aproveitando todo um clima tendente à modernização, encenam um festival modernista meio chinfrim mas cheio de elogios pela frente.

Quinto ato: na década de 1930, é fundada a primeira universidade moderna do país (USP), em São Paulo. Chegam professores sofisticados para formar uma elite científica nacional; nas humanidades tem início toda uma revisão das idéias sobre o país e a nação, agora tendo como epicentro São Paulo, não mais o Rio. No campo das letras, empreende-se igualmente uma revisão, que, nas décadas seguintes, consagrará aquela gritaria modernista de 22 como centro de referência e como unidade de medida de tudo o que se fez e se faria no país. De esquisitice ou mera festa jovem, a Semana virou ícone, parecendo hoje quase uma revelação divina, “finalmente o Brasil acompanhou o passo do Ocidente”. Bobagem. Para ficar apenas em um caso, veja-se Machado de Assis, cuja genialidade não deveu absolutamente nada à Semana (e sobre quem os modernistas silenciaram).

Último ato: os modernos meios de comunicação, como o rádio e a televisão, não apenas têm sede preferencial em São Paulo como igualmente dão voz a artistas afinados com a idéia paulista/modernista da eterna inovação. Adivinha onde é que os tropicalistas, em boa parte nordestinos de origem, encontraram lugar para suas saudáveis maluquices.

Um país deste tamanho tem uma riqueza imensa justamente em sua variedade musical, lingüística e literária também. Por isso é que precisamos passar em revista a supercentralidade do Modernismo paulista na descrição da nossa história cultural e, particularmente, na validação crítica da literatura – a favor de todas as vozes disponíveis, que não são ouvidas apenas porque nosso ouvido não aprendeu. Mas bem que pode.