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A floresta que cabral encontrou

Imponente e misteriosa, a Mata Atlântica deslumbrou os descobridores.

Maria Fernanda Vomero

Imagine-se na pele de um europeu que acaba de pisar na costa brasileira nos idos de 1500. À sua frente está uma floresta diferente de tudo o que você já viu. Árvores de todos os tamanhos, misturadas com orquídeas, cipós, samambaias, arbustos e ervas. No chão, sempre molhado, raízes e mudas disputam espaço. Sem falar nos enxames de insetos, no barulho dos pássaros e dos sapos, nos cheiros fortes, nos répteis e mamíferos que aparecem a cada passo dentro da selva, assustadoramente escura – pois apenas uns poucos raios de luz conseguem furar a cobertura cerrada de folhas, galhos e flores.

A Mata Atlântica foi a primeira paisagem que os colonizadores encontraram. Era exuberante e majestosa. Nada nela lembrava as florestas européias, nas quais as plantas são pouco variadas e se distribuem de modo bem-comportado. Um misto de assombro e fascínio tomou conta dos primeiros exploradores. Estariam diante do Éden? “Se o paraíso terrestre está localizado em alguma parte da Terra, julgo que não dista muito desta região”, escreveu em 1502, extasiado, o navegador italiano Américo Vespúcio (1454-1512), que teve seu nome eternizado no novo continente. O encantamento dos forasteiros durou pouco. Logo eles começariam a destruir aquela floresta aparentemente inesgotável, dando início a uma tragédia ambiental que se agravou ao longo dos séculos e prossegue até hoje.

“Todo o Brasil é um jardim em frescura e bosque e não se vê em todo o ano árvores nem erva seca. Os arvoredos, de admirável altura, se vão às nuvens. Muitos dão bons frutos e o que lhes dá graça é que há neles muitos passarinhos de grande formosura e variedade. Os bosques são tão frescos que os lindos e artificiais de Portugal ficam muito abaixo.

José de Anchieta, Informação da Província para Nosso Padre, de 1585

Vegetação esplendorosa, chão muito pobre

Quando os portugueses chegaram, a Mata Atlântica ocupava mais de 1 milhão de quilômetros quadrados, 12% do atual território brasileiro (veja mapa abaixo). Mas não era, nem é, uma paisagem única e homogênea. Ela varia de norte a sul conforme a temperatura e altitude, mas obedece a um mesmo regime de chuvas, influenciado pela proximidade com o mar. Uma combinação singular entre esses fatores naturais fez da Mata Atlântica uma das florestas mais ricas em biodiversidade no mundo inteiro. “No sul da Bahia, numa área equivalente a apenas um campo de futebol, podemos encontrar mais de 450 espécies de árvores”, afirma o arquiteto Clayton Lino, do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica.

Apesar dessa exuberância, o solo da floresta é incrivelmente pobre. Na maioria das regiões, a terra se esgota em menos de três anos, se usada para a agricultura. Pero Vaz de Caminha se enganou ao afirmar, em sua famosa carta ao rei de Portugal, que “nesta terra, em se plantando tudo dá”. “Os portugueses encararam aquelas árvores gigantescas como sinal de solo fértil”, comenta o ambientalista Paulo Nogueira Neto, da Fundação S Mata Atlântica. “Mas essa fecundidade é superficial. Sua razão não está na terra, e sim na reciclagem dos minerais do solo – que se recompõem à medida que os restos das plantas e animais mortos apodrecem.”

“A terra é algum tanto melancólica, regada de muitas águas, assim de rios caudais, como do céu, e chove muito nela, principalmente no inverno; é cheia de grandes arvoredos que todo o ano são verdes; é terra montuosa, principalmente nas fraldas do mar, e de Pernambuco até a Capitania do Espírito Santo se acha pouca pedra, mas dali até São Vicente são serras altíssimas, muito fragosas, de grandes penedias e rochedos.

Fernão Cardim (1540-1624), Tratados da Terra e Gente do Brasil

Salada de paisagens

A floresta mais variada do país tem desde campos ralos até matas regadas por aguaceiros.

Cenário de araucárias

As araucárias, que aparecem misturadas com árvores de folhagem mais densa, são a marca da floresta mista. Ela surge em grandes altitudes das regiões Sul e Sudeste, onde a temperatura é mais baixa.

No alto da montanha

Formados apenas por gramíneas e alguns arbustos esparsos, os campos de altitude aparecem a partir de 1 500 metros acima do nível do mar, bem no topo das serras. Chove menos e o solo é mais pedregoso, o que explica a pobreza da vegetação.

Perdendo as folhas

Do lado da serra oposto à praia está a mata de interior. Ela não tem a exuberância das florestas da costa, que se mantêm sempre úmidas. “Suas árvores perdem as folhas no inverno”, diz a bióloga Giselda Durigan. “Falta água nessa época e a floresta reage derrubando parte das folhas para reduzir as perdas por transpiração.”

O coração da floresta

Nada se compara à imponência da floresta tropical úmida, com árvores que alcançam até 35 metros. A rica diversidade se explica pelo relevo. “As serras que se estendem do Espírito Santo até Santa Catarina impedem a passagem dos ventos úmidos vindos do oceano”, explica o ecólogo Waldir Mantovani, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. “Os ventos esfriam as nuvens, provocando chuva ou nevoeiros.” Chove o ano inteiro, o que impede a existência de uma estação seca. Esse tipo de mata densa e úmida também existe em outras regiões tropicais, como a costa africana e a própria Amazônia. Embora se pareçam com a Mata Atlântica, essas áreas têm espécies vegetais e animais diferentes.

Ao vaivém das marés

Com suas árvores e seus arbustos de raízes expostas, os mangues são o paraíso dos peixes, jacarés, caranguejos e camarões. Lamacentos, eles alagam nas marés cheias. Esse ecossistema, presente nas enseadas e nos estuários dos rios, aparece em todo o litoral brasileiro.

Entrando no matagal

Na planície litorânea aparece a mata de baixada. Densa, apresenta árvores de até 15 metros, com copas sobrepostas, arbustos e cipós. Sobre os troncos crescem orquídeas, bromélias e samambaias. Nas áreas mais úmidas, não é difícil achar palmiteiros.

Obra de 1 milhão de anos foi destruída em 5 séculos

A Mata Atlântica começou a desaparecer assim que os colonizadores puseram os pés no novo continente. “Um dos primeiros atos dos portugueses que alcançaram a costa brasileira no dia 22 de abril de 1500 foi abater uma árvore para montar a cruz da primeira missa”, lembra o historiador americano Warren Dean (1932-1994), no livro A Ferro e Fogo. Foi o prenúncio da devastação implacável que se seguiria. A exploração madeireira, o cultivo da cana-de-açúcar no Nordeste e a instalação de centros urbanos no litoral reduziram a 6% do tamanho original uma floresta que sobrevivera quase intacta aos primeiros 10 000 anos de presença humana na América do Sul.

Os primeiros inquilinos – os índios – quase não modificaram a floresta. A paisagem foi moldada pelos longos períodos glaciais do último milhão de anos, como em todas as regiões tropicais do planeta. Cada vez que as geleiras avançavam, a mata encolhia, cautelosa. Não chegava a congelar, mas sofria com a queda da temperatura. Parte do território virava deserto e apenas umas poucas ilhas de árvores resistiam. Depois, nos intervalos quentes e úmidos, voltavam a se expandir. Nem todos os animais e plantas sobreviveram ao impacto de mudanças tão radicais. “Ocorreram holocaustos de extinção”, diz a historiadora ambiental Jeanne Cordeiro, do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Mas, enquanto algumas espécies desapareciam, outras surgiam. Nos bolsões que restavam, a fauna e a flora continuavam a evoluir e cada espécie ia se diferenciando de suas “irmãs”. Por isso, o índice de endemismo – a existência de plantas e animais exclusivos de um ecossistema – é muito alto na Mata Atlântica.

“Há no Brasil grandíssimas matas de árvores agrestes, de madeiras fortíssimas para se poderem fazer delas fortíssimos galeões. Não menos são as madeiras do Brasil formosas que fortes, porque as há de todas as cores, brancas, negras, vermelhas, amarelas, roxas, rosadas e jaspeadas, porém, tirado o pau vermelho a que chamam brasil, e o amarelo chamado tataiúba, e o rosado araribá, os mais não dão tinta de suas cores.

Frei Vicente do Salvador (1564-1636)

Machado cruel

Os índios a chamavam de ibirapitanga – árvore vermelha, em tupi. Para os europeus, que já a conheciam da Índia, era pau-brasil. O nome vem da palavra bersil, que significava brasa no português da época. Tem a ver com a cor vermelha do cerne do tronco, do qual se extraía um corante usado para tingir tecidos e fabricar tintas de escrever. As árvores de pau-brasil, com cerca de 20 metros de altura, distribuíam-se em grande quantidade por todo o litoral. A exploração foi tanta que, um século após a chegada de Cabral, cerca de 2 milhões de árvores haviam sido derrubadas. Os índios, que antes levavam três horas para tombar uma árvore com o machadinho de pedra, gastavam só 15 minutos com os machados de ferro dos europeus. Hoje a árvore típica da Mata Atlântica está restrita a alguns dos trechos remanescentes da floresta.

Escola de samba vegetal

Mistura de árvores e flores assombrou aventureiros.

A parafernália vegetal instalada na superfície das árvores deu um nó na cabeça dos primeiros portugueses que viram a Mata Atlântica. Era como se flores e folhas completamente diferentes brotassem do mesmo tronco. As árvores européias hospedam, no máximo, camadas finas de liquens e musgos. Na Mata Atlântica, cada árvore parece uma escola de samba. As bromélias – desconhecidas até então – dividem democraticamente o espaço com orquídeas e samambaias. Uma minifloresta, com sua própria fauna, aloja-se na casca das árvores. As epífitas – plantas que crescem sobre outras em busca de luz, obtendo água e nutrientes por conta própria, sem prejudicar as hospedeiras – eram uma novidade e tanto.

Um viveiro de espécies

A maioria das bromélias mora nas árvores, embora também existam espécies terrestres. Suas folhas possuem concavidades que retêm a água da chuva, formando uma espécie de reservatório, rico em nutrientes. Nele se instala um diminuto ecossistema no qual convivem insetos, sapos, pererecas e lagartos, além de outras pequenas epífitas.

A flor de infinitas formas

Se só no Estado de São Paulo existem cerca de 750 espécies de orquídeas catalogadas, imagine na Mata Atlântica inteira. O fato é que ninguém ainda conseguiu contá-las. As terrestres preferem ambientes abertos e secos. Outras brotam em árvores e gostam mesmo é de umidade. Em uma única árvore pode haver dezenas de orquídeas diferentes. Elas sobrevivem dos nutrientes coletados da água da chuva, que escorre pelo tronco.

Bichos exóticos atiçaram a cobiça dos europeus

A fauna da Mata Atlântica impressionou tanto os portugueses que, nos três primeiros anos após o Descobrimento, o Brasil era chamado de Terra dos Papagaios. Nos mapas, o litoral vinha representado por um friso de araras enormes. Índios capturavam essas aves e outras, como papagaios e tucanos, e as trocavam pelas toucas vermelhas dos marujos. Muitos outros animais despertaram a cobiça dos europeus, pelo exotismo ou pelo dinheiro que poderiam render. Além do pau-brasil, as naus retornavam à Europa abarrotadas de macacos e pássaros vivos e peles de felinos e jacarés.

Conhecedores da fauna africana, os portugueses não estranharam a onça, parecida com o leopardo. Já a preguiça e o tamanduá os assombraram (veja quadro na página ao lado). O que mais chamava atenção era a variedade de bichos. “Não é possível estimar quantas espécies existiam em 1500”, diz o zoólogo Mario de Vivo, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. Algumas podem ter desaparecido antes de serem descritas pela Ciência. Outras contam com apenas uns poucos representantes, em regiões que escaparam à destruição.

A influência do homem sobre os hábitats varia de espécie para espécie. Muitos animais se adaptam às novas condições – ou então migram. Outros são mais frágeis. Acostumados ao ambiente de floresta, não toleram mudanças bruscas de temperatura, umidade e luz. Incapazes de viajar em busca de novos ambientes, tornam-se menos numerosos a cada geração, até desaparecerem. Conheça, nas páginas 46 e 47, algumas das espécies ameaçadas de extinção.

“Os papagaios nessa terra do Brasil são notáveis pela beleza da plumagem. Um intérprete presenteou-me com uma dessas aves, que havia três anos conservava em seu poder. Pronunciava ela tão perfeitamente as palavras da língua selvagem e da francesa, que não era possível distinguir a sua voz da de um homem.

Jean de Léry (1534-1611), Viagem à Terra do Brasil

Belos e assustadores

O que é, o que é? “Um grande, disforme e monstruoso animal”, com um “rabo cheio de cerdas, compridas como as de um cavalo”, uma “tromba comprida e pontuda e uma língua encorpada como a corda mais grossa de um violoncelo.” Pobre tamanduá. O bicho, que só faz mal às formigas, aparece nessas descrições de europeus do século XVI como um alien de ficção científica. À medida que os estrangeiros se enfiavam na mata, seu pasmo se renovava. Veja como a preguiça é descrita pelo príncipe holandês Maurício de Nassau, que governou Pernambuco de 1630 a 1644: “Mais vagarosa que um caracol, tem o corpo grande e cinzento; seu rosto parece o de uma mulher; tem os braços compridos, munidos de unhas também compridas e curvas, com que o dotou a natureza para poder trepar em certas árvores, no que gasta boa parte do dia”. Impossível era ficar indiferente à graça do beija-flor. “Seu bico, maior do que o corpo, é delgado como um alfinete”, escreveu o cronista Gabriel Soares de Sousa em 1587, “e ele anda sempre bailando no ar”. O padre José de Anchieta, de tão maravilhado, achou que o passarinho se alimentava “só de orvalho”. O bicho-pau foi visto por ele como “uma estranha criatura, parecida com um graveto quebrado. Quando se quer agarrá-lo, dá um salto para longe”. E havia moradores da terra que provocaram pavor. “O que direi das aranhas, cuja multidão não tem conta?”, assustou-se Anchieta. “Julgarias que são caranguejos, tal é o tamanho do seu corpo. São horríveis de ver-se, de maneira que só a sua vista parece trazer diante de si veneno.” Ao lado, uma delas, desenhada por um holandês anônimo.

Retratos da fauna agonizante

Os bichos que os viajantes viram estão ameaçados de extinção.

Quando começaram a registrar as maravilhas da Mata Atlântica, os europeus não imaginaram que, um dia, elas pudessem acabar. As aquarelas destas duas páginas fazem parte do legado dos artistas estrangeiros que documentaram a fauna e a flora do Brasil. A primeira leva veio a convite do príncipe Maurício de Nassau, que governou Pernambuco durante a ocupação holandesa no século XVII. Centenas de espécies foram desenhadas por holandeses anônimos. Um novo surto de interesse ocorreu no início do século XIX, com a expedição liderada pelo barão russo Langsdorff. Entre os artistas do grupo, destacaram-se o belga Johann Moritz Rugendas e os franceses Aimé-Adrien Taunay e Hercules Florence. A SUPER pesquisou os desenhos dos viajantes e detectou, entre os bichos retratados por eles, várias espécies que hoje sofrem ameaça de extinção. Esses animais estão entre os primeiros a atrair a atenção dos europeus.

Maracajá

O príncipe holandês Maurício de Nassau se referiu a ele como “um gato selvagem muito bonito e feroz”. Sua pele é bastante valorizada no mercado, o que atrai o interesse dos caçadores.

Jararaca

Desenhada por Florence em 1826, esta espécie (Bothrops moojeni) só foi descrita oficialmente pela Ciência em 1966.

Lobo-guará

Predador solitário e de hábitos noturnos, precisa de muito espaço para perambular em busca de comida.

Sagüi-da-serra-escuro

Menor primata das Américas, pesa apenas 350 gramas. Habitava toda a região Sudeste. Hoje sobrevive só em áreas protegidas, como o Parque da Bocaina. A pose escolhida por Rugendas, em 1812, é pouco verossímil.

Jacaré-do-papo-amarelo

A carne e o couro, muito apreciados, incentivam a caça excessiva. Sofre ainda os efeitos da poluição das lagoas e dos mangues.

Veado-campeiro

No relato de sua viagem pelo interior de São Paulo, Florence cita dois veados mortos pelo caçador da expedição, em agosto de 1826. Este é um deles.

Mutum-do-nordeste

Ave das matas litorâneas nordestinas, está extinta na natureza. Sua sobrevivência depende da reprodução em cativeiro.

Pintor-verdadeiro

Restrito ao litoral nordestino, sofre com a perseguição dos caçadores que abastecem o comércio clandestino de aves.

Bugio

O macaco retratado em aquarela de Taunay, de 1826, é conhecido pelos fortes urros que solta ao amanhecer e à tardinha.

Tatu-canastra

É o maior de todos os tatus e também o mais raro. Sua sobrevivência é complicada pelo fato de dificilmente resistir em cativeiro.

Jabuti-piranga

Muito frágil, é vítima da destruição do ambiente escuro e úmido da Mata Atlântica. Atinge até 30 centímetros de comprimento.

Onça-pintada

Maior felino das Américas, virou raridade. A aquarela holandesa pode ter tomado como modelo um exemplar levado vivo para a Europa.

Socó-boi

Sua voz grossa e profunda lembra um mugido – daí o nome. Este exemplar foi visto por Florence no Rio Tietê, em 1826.

Guará

Um dos pássaros mais belos do planeta, é típico dos manguezais, onde pesca caranguejos, moluscos e insetos. Sobrevive em pontos isolados, depois de ter habitado toda a costa. Esta aquarela é do holandês Albert Eckhout.