GABRILA65162183544miv_Superinteressante Created with Sketch.

A fúria nórdica

Novas pesquisas históricas revelam: os escandinavos que assolaram a Europa medieval eram refinados artistas, comerciantes arrojados e, provavelmente, foram os primeiros europeus a colocar os pés na América, 500 anos antes de Colombo.

Gisela Heymann

“Proteja-nos, Senhor, da fúria dos homens do Norte. Eles devastam nosso país, matam nossas mulheres, crianças e velhos.” A partir do século VIII todas as capelas da Inglaterra integraram essa nova prece a suas rezas. Os monastérios estavam em perigo e os reinos tornavam-se vulneráveis aos destemidos homens vindos do frio, que aterrorizavam com seus barcos ágeis e machados certeiros as tênues fronteiras do ocidente medieval. O mito viking, cruel e sanguinário, atravessou os tempos, acentuado pelo romantismo e pelo nacionalismo dos países escandinavos do século passado e chegou incólume aos nossos dias. Bárbaros, arrebatados, intratáveis e resolutos, os protegidos de Thor, o deus do raio, só hoje, à luz de uma Europa que não cessa de revisar sua história, encontram adjetivos mais amenos.

“Eles eram poetas eminentes, finos artesãos e negociantes habilidosos”, afirma o historiador Jean-Pierre Mohen, diretor do Museu Nacional de Antigüidades, de Saint-Germain-en-Laye, a 20 quilômetros de Paris. “A violência, aliás, não era exclusividade viking na Idade Média.” Mohen vai mais longe. Junto com outros estudiosos, ele quer desmistificar a história e revelar a “complexa e avançada organização escandinava, que durante cerca de 300 anos se espalhou da Rússia à América do Norte, integrando-se a paisagens e costumes os mais diversos”. Os temidos homens que conquistaram a Inglaterra, cercaram Paris e colonizaram a Islândia, tinham também outras vocações: comerciavam, desenvolveram técnicas navais inovadoras e, acima de tudo, eram donos de uma singular capacidade de adaptação.Vik, na antiga língua dos suecos, noruegueses e dinamarqueses, quer dizer ” expedição guerreira pelo mar”.

Viking qualifica o homem que toma parte nessa expedição, protagonista de uma era de incursões que levou seus barcos, os famosos knorr, a singrarem rios, lagos e mares de todo o mundo ocidental. Para os outros povos da Europa, uma era de terror, que começa em 8 de junho de 793 com o saque do monastério de Lindisfarne, na costa oriental inglesa alastra-se pela ilha britânica e finalmente chega avassaladora ao continente, devastando o reino franco de Carlos Magno (742-814) e cidades da Península Ibérica muçulmana como Lisboa, Sevilha e Valência. São muitas as hipóteses que tentam explicar essa marcha inexorável em direção à aventura. Uma delas é a de que, no começo do século IX, o clima nórdico tenha se tornado ameno, propiciando colheitas abundantes e diminuindo a mortalidade. Numa sociedade poligâmica como a viking, isso significou não só o aumento da população, mas também do número de despossuídos. Como entre os nórdicos a herança cabia somente ao filho mais velho, aos outros integrantes da prole restava a alternativa de procurar fortuna em terras distantes.

E só um havia um caminho a seguir: o mar.“É importante lembrar sua natureza marítimo”, argumenta Jean – Pierre Mohen. “Os escandinavos se habituaram ao deslocamento por barcos, pois o transporte terrestre em sua região era difícil.” Segundo Regis Boyer, diretor do Instituto de Línguas, Literatura e Civilização Escandinavas na Universidade de Paris – Sorbonne, seus barcos eram uma arma absoluta. “Ágeis e leves, os knorr permitiam ataques de surpresa e fugas ligeiras.” Com pouco mais de 20 metros de comprimento e 5 de largura, comportavam setenta tripulantes e deixavam perplexos os inimigos, que passaram a chamá-los de serpentes, tamanha a graça com que afrontavam os caprichos das águas. Apesar de seu peso de 9 toneladas vazio, ou 18 carregado, o knorr não mantinha mais do que 95 centímetros do casco submerso, detalhe importante para quem se serviu também de atalhos como rios rasos para penetrar profundamente o território europeu. Foi pelo Rio Sena, por exemplo, que em 885 uma esquadra de 700 knorr, manobrada por 30 000 dinamarqueses. cercou Paris, então uma pequena cidade fortificada, que resistiu miraculosamente durante meses graças à tenacidade heróica do marquês de Eudes, à frente de uma minguada cavalaria de 200 homens.

Construídos em carvalho, no casco, e pinho nos remos e leme, os knorr tinham ainda outras particularidades. Para agilizar o desembarque, os remos podiam ser recolhidos de dentro do barco: os buracos por onde passavam eram desenhados com fendas, de maneira a encaixar as pás. O casco, de tábuas imbricadas como telhas num telhado e calafetadas com raízes embebidas em goma vegetal, era praticamente impermeável, enquanto o mastro, com 10 a 13 metros de altura, ficava fixado por uma trava de madeira maleável. Com isso, se curvava levemente com a vela, oferecendo menor resistência ao vento e tornando a embarcação menos vulnerável às tempestades.

Se a técnica era apurada, as instalações a bordo não eram propriamente confortáveis. Não havia convés e os homens eram obrigados a disputar cada centímetro com cavalos e até vacas. “Mesmo carregado, o knorr era extremamente prático”, explica Mohen. De fato, o barco escandinavo podia ser remado para a frente ou para trás sem fazer a volta e era muito veloz. Na proa e na popa, iam as cabeças de dragão removíveis — daí o nome drakkar, usado pelos franceses para defini-los. As cabeças eram instaladas para afugentar maus espíritos quando a frota chegava às nações inimigas. Já a caminho de casa, guardavam-se as armas contra o sobrenatural.As famosas sagas vikings — histórias heróicas transmitidas oralmente, de pai para filho, até a aparição da escrita latina, quando viraram literatura — testemunham o valor dos knorr. Eram necessárias associações de dois ou mais guerreiros para construí-los, pois custavam uma verdadeira fortuna. Os mais belos barcos eram temas de longos relatos, como na saga do rei Olavo Tryggvason e seu knorr, chamado Longa Serpente. Serviam também de túmulo para seus proprietários, reis e cidadãos eméritos, enterrados neles com seus pertences, jóias e, eventualmente, um escravo “voluntário” para acompanhá-lo ao Valhala — a Mansão dos Mortos —, onde os combatentes eram recebidos por amazonas chamadas valquírias.

A primeira metade do século IX foi marcada pela incursão de dinamarqueses, suecos e noruegueses pelo mundo até então conhecido. Os primeiros chegaram em 843 ao que hoje corresponde à França. As cidades de Rouen, Chartres e Tours, foram devastadas. Nem a diplomacia do rei Carlos II, o Calvo (823- 877), neto de Carlos Magno, nem os tributos pagos para que se retirassem lograram impedir o avanço dos vikings. Na Inglaterra, os dinamarqueses conquistaram cidades como Derby, Leicester, Lincoln, Stamford e Nottingham e fizeram delas quartéis – generais para suas infindáveis lutas contra ingleses e noruegueses, também pretendentes à ilha.Com o tempo, porém, o cristianismo se revelou uma eficiente arma para amainar a fúria nórdica. Principalmente depois que os vikings começaram a se estabelecer onde antes apenas saqueavam. O chefe norueguês Rolão só desistiu dos ataques ao território francês depois de seu batismo e a assinatura, em 911, do Tratado de Saint – Clair – sur – Epte, que legou a Nêustria, atual Normandia, no noroeste do país, a seus homens. “Como vassalos de Carlos, o Simples (879-929), eles provaram sua capacidade de adaptação. Tornaram- se agricultores, defenderam suas terras e em pouco tempo adotaram a língua e os hábitos da região”, explica Jean – Pierre Mohen.

A transformação, no entanto, foi bem mais profunda. Enquanto na Escandinávia as leis eram protegidas por uma assembléia do povo, conhecida por Thing, na França o poder tornou-se feudal e autoritário, e a antiga organização política, considerada hoje como a mais avançada da época, foi abandonada. “Este sistema, onde a monarquia coexiste com a democracia direta, ainda é a base da política atual dos países nórdicos”, completa Moben.Ao mesmo tempo, como numa frente de batalha do tamanho de um continente, outro povo escandinavo se apoderava do leste europeu — desta vez sem invasões. “O rus, como eram chamados os suecos, partiram em busca de rotas de comércio na direção leste”, conta Mohen. Os próprios eslavos, habitantes daquela região, teriam pedido aos suecos que reinassem em suas terras, dilapidadas por guerras internas. Eles não só aceitaram o convite como criaram uma das mais promissores teias comerciais da Europa Oriental, com rotas ligando o Mar do Norte tanto a Bizâncio quanto ao Mar Cáspio e às caravanas vindas de Bagdá.

Centro de todo esse movimento, Kiev tornou-se uma das cidades mais ricas da Europa e serviu de base para o que, mais tarde, viria a se chamar Rússia.Do outro lado do globo, o terceiro tentáculo nórdico preparava, na mesma época, um dos mais importantes feitos da era viking — embora o reconhecimento só tenha vindo após dez séculos de história. Consagrados aventureiros, os noruegueses preferiam colonizar a conquistar. Instalaram-se nas terras vazias da Islândia, descobriram e povoaram a Groenlândia e, de lá, alcançaram, 500 anos antes de Colombo, o continente americano. A grande saga do islandês Eric, o Vermelho, detalha o caminho traçado por ele e confirmado pela presença de habitações nórdicas na ilha de Terra Nova, costa canadense. Condenado a três anos de exílio por assassinato, ele resolveu seguir os passos de um marinheiro que anos antes avistara uma terra estranha durante uma tempestade que o tirou de sua rota original.

Em 982, Eric deparou com os fiordes verdejantes da maior ilha do mundo, batizada por ele Groenland, a Terra Verde e ali se estabeleceu. Cumprida a pena, voltou à Islândia, onde recrutou colonos para povoar a Groenlândia. Quinhentos homens e mulheres, em 25 navios, partiram na primavera, mas só quinze naus chegaram ao destino para fundar pequenas aldeias e viver do comércio de peles e presas de morsa e narval com a Escandinávia e a Europa. Leifr, um dos filhos de Eric, costumava levar a mercadoria ao outro lado do oceano. Movidos pelo mais visceral dos ímpetos vikings — a aventura —, pai e filho prepararam cuidadosamente uma viagem conjunta rumo ao oeste.Como Eric tinha quebrado uma perna num tombo de cavalo, Leifr partiu sozinho. Primeiro, descobriu uma terra árida, varrida pelo vento: Helluland. Segundo o historiador Régis Boyer, poderia ter sido a península canadense do Labrador.

A esquadra seguiu para o sul até uma ilha de pastagens verdes e cheia de parreiras, o Vinland ou Terra da Vinha. De volta à Groenlândia, Leifr, que será conhecido como O Sortudo, tratou de arrebanhar colonos para ocupar o novo território. Provavelmente, se instalaram onde hoje fica o sitio arqueológico de Anse – aux – Meadows, no norte da Terra Nova. Descoberto em 1960, as escavações revelaram ruínas de oito casas, cada uma com cerca de 20 metros de comprimento, datadas, com análises de carbono -14, do ano 1000. Na época, esquimós e indígenas não construíam grandes habitações. Já os vikings, moravam em espécies de comunidades familiares, onde marido, esposa, concubinas e filhos dividiam o mesmo espaço.De acordo com a Saga de Eric, o Vermelho, porém, os noruegueses de Terra Nova tinham de afrontar os rigores das intermináveis travessias entre a América do Norte e a Groenlândia para vender suas mercadorias. Também depararam com a acolhida pouca calorosa da população local — os Skraelingar, ou “os horríveis” — nome usado indistintamente para índios e esquimós. “Eram homens negros e hediondos, de terrível cabeleira. Eles tinham grandes olhos e maçãs do rosto largas. Ficavam parados, olhando maravilhados as pessoas que estavam a sua frente.” Isolados e acuados, os colonizadores acabaram abandonando o Vinland. “Quando os últimos vikings partiram, estas viagens viraram lenda”, conta Jean – Pierre Mohen “Mas hoje estão mais que confirmadas e fazem parte da realidade.”A era dos grandes conquistadores do norte acabaria tão bruscamente como começou.

A Europa, passado o susto inicial e fortificada com o fim da disputa pelo poder que sucedeu a morte de Carlos Magno, tratou de criar defesas, enquanto os escandinavos se convertiam ao catolicismo em busca de alianças duradouras. Aos poucos, o norte passou a fazer parte da organização ocidental”, explica Mohen. “ A morte de Ingvar, o Viajante, na Síria, em 1041, marca o fim do domínio viking e o começo de um fantástico mito.” A antiga língua falada na Escandinávia, assim como as runas — caracteres de uma escrita germânica usada pelos nórdicos —, foram abandonados em favor da língua européia e do latim. Da aventura nórdica, restou um escrito, a Edda, poemas heróicos compostos no século XIII pelo historiador islandês Snorri Sturluson, que revelam 200 anos de glória. “Quando a aventura acabou, uma outra epopéia estava começando: a construção da Europa como a conhecemos hoje”, conclui Mohen.

Para saber mais:

Europa ano 1000

(SUPER número 12, ano 6)

Colombo, herói (ou vilão) do novo mundo?

(SUPER número 11, ano 5)