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Como um aparelho desenvolvido pela Nasa pode revelar os mistérios do mundo antigo

A nova Antiguidade

Em 1897, cientistas da Universidade de Oxford, Inglaterra, estavam revirando o lixo da extinta cidade egípcia de Oxyrhynchus quando encontraram uma coleção de 50 mil fragmentos de papiros escritos entre os séculos 2 a.C e 8 d.C. Foi uma surpresa quase tão grande quanto a decepção que se seguiu: a superfície do papiro, escurecida pela ação do tempo, tornava impossível a leitura.

Agora os cientistas finalmente estão decifrando o conteúdo, graças a um aparelho inventado pela Nasa para capturar imagens da superfície de planetas distantes. Ele foi adaptado na Universidade Brigham Young, de Utah, EUA, para fotografar os papiros em diferentes faixas do espectro de luz, do infravermelho ao ultravioleta. Em cada fragmento, os cientistas procuraram a freqüência que mais destacava a tinta.

O resultado foram textos inéditos dos gregos Sófocles, Homero, Eurípedes, Arquíloco e versões antigas da Bíblia, além de itens corriqueiros como cartas, recibos, receitas e horóscopos. O próximo passo é usar tecnologias parecidas para recuperar tudo o que não podia ser lido até então: de cópias de trabalhos de Arquimedes que haviam sido apagadas no século 12 até papiros romanos queimados pelo Vesúvio no século 1.

3 obras recém-descobertas


Livro das Revelações
O destaque é que, nessa versão dos séculos 3 e 4, o número da Besta não é o 666, mas sim o 616. “Esse número aparece em outras obras. A maioria das interpretações diz que 666 corresponde ao nome do imperador Nero em hebraico, e 616, ao nome de César em grego”, diz o padre Ramiro Mincato, da PUC-RS.

Epígono
São trechos de uma tragédia desconhecida do grego Sófocles (496-406 a.C) . “Autores antigos dizem que Sófocles escreveu 90 tragédias, mas só temos o texto de 7 delas. A descoberta dá credibilidade a eles e mostra que Sófocles já era importante na época”, diz o historiador André Chevitarese, da Unicamp.

Elegias
Relato do poeta-soldado Arquíloco (710-676 a.C) sobre um episódio da guerra de Tróia no qual os gregos se lançam contra a cidade errada. “Pouco provável. Era comum inventarem coisas para tornar a história mais interessante”, diz André.