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A origem da era de Aquário no preciso relógio do céu

Ao medir a posição do Sol com relação às constelações, os povos da antiguidade descobriram a dimensão do tempo.

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h08 - Publicado em 29 fev 1992, 22h00

O ponto gama é um marco abstrato, que não coincide com nenhum astro — mas foi mais pesquisado que muitos deles. Desde quando o céu era medido com paus e pedras, gerações de astrônomos registraram sua posição até superar os limites do olho humano. Que importância, então, tem esse pequeno ponto na imensa abóbora celeste? Basicamente, o ponto gama assinala a posição do Sol durante o equinócio (veja página anterior). E isso permite calcular o tempo com notável precisão — até a casa dos milionésimos de segundo. Apenas com a advento dos relógios atômicos, na década de 60, tornou-se possível medir intervalos de tempo substancialmente mais curtos.

Assim, é fácil compreender o valor de tal conquista na antiguidade. Os povos da Mesopotâmia viam nele a porta por onde as energias do céu fluíam, e criavam, a cada ano, o mundo terreno. Pois quando o Sol, voltando para o norte, passava pela região do céu em que estava o ponto gama, retornava a primavera. Foi por isso que os babilônios criaram a Constelação do Touro: ela demarcava aquela área celeste (veja ilustração). Não porque enxergassem a figura do touro ligando as estrelas: sua imagem foi escolhida porque simbolizava a reprodução dos rebanhos. A mesma lógica determinou a designação das outras onze constelações do zodíaco, palavra que significa caminho dos animais. O Aquário, por exemplo, demarcava a aposição do Sol na época das chuvas. Para o exuberante Sol de verão, nada melhor que a imagem do Leão.

O zodíaco, assim, passou a ser lido como uma história em quadrinhos desenhada no céu e essa história permitia prever o que o meio ambiente teria a oferecer nos meses seguintes. Isso ajudou a aproveitar cada vez melhor a energia disponível e a obter colheitas e rebanhos mais abundantes. A espécie humana, como resultado, se expandiu em número, bem-estar e cultura. Ou seja, depois de mapeado, o “anel do tempo” representando o ano adquiriu uma componente linear — uma flecha apontando para o futuro. E apesar de o calendário já ser bastante preciso há 3000 anos, vários povos continuaram a buscar maio precisão.

Não há dúvida de que os rituais mágicos tiveram um papel importante nessa busca, já que por meio deles as pessoas procuravam “se alinhar” com os acontecimentos cósmicos. Mas outras fortes motivações foram a fome abstrata por conhecimento, ou empreendimentos como as longas viagens no mar. Não por acaso, grandes navegadores como gregos conheciam o ponto gama com extraordinária precisão. Tanto que, séculos antes de Cristo, Hiparco descobriu que nem esse ponto era fixo; em vez disso, dava uma volta completa no zodíaco a cada 26000 anos. No início da era cristã, ele já tinha passado por Áries e entrando em Peixes, e no ano 2600, de acordo com a União Astronômica Internacional, entrará em Aquário.

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Muita gente apregoa que já estamos sob influência dessa “era” de Aquário. Mas as águas já não se renovam na Mesopotâmia quando o Sol está em Aquário: o tempo demoliu este símbolo. Por outro lado, muitos outros pontos do céu, fora do zodíaco, se abriram em imensas portas do conhecimento. O futuro, definitivamente, não mais se lê nos desenhos que as estrelas formam no céu, mas sim nos reatores nucleares ocultos em suas entranhas.

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