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A vassoura e o grimório

Para a Igreja, bruxas não existiam. Mas que havia, havia.

Por Tiago Cordeiro Atualizado em 7 Maio 2020, 17h59 - Publicado em 8 mar 2020, 12h26

A paranoia que se instalou na Europa e suas colônias levou milhares de inocentes à fogueira ao longo de séculos. Preparar uma garrafada medicinal, saber nadar, ter marcas de nascença na pele ou manter gatos em casa podia se tornar justificativa para cair nas garras da Inquisição católica ou das caçadas protestantes. Mas isso não foi na Idade Média. Foi depois. O auge da caça às bruxas e bruxos se deu no século 17. Pela maioria da Idade Média, bruxos e bruxas eram figuras queridas da população. Alguns, inclusive, prestaram serviços à Igreja.

O que não faltava era feiticeiro. Num cenário em que as lideranças religiosas (que orientavam as seculares) pregavam que o bem e o mal circulavam livremente, disputando os corpos e as almas dos humanos, não é de surpreender que muita gente tenha demonstrado interesse em contactar anjos e demônios ou manipular as forças da natureza. A imensa maioria passou longe da fogueira. Pelo contrário, chegaram a atuar como consultores de reis e nobres, até papas. Não se via contradição entre ser cristão e feiticeiro. No entendimento até o século 14, o feiticeiro só manipulava elementos tidos por reais, como um alquimista mexe com plantas e minerais.

Essa figura, que combinava astrologia, alquimia, ciências naturais, medicina e misticismo, era comum por todo o continente. Michael Scott era um deles. Foi ao mesmo tempo um dos matemáticos mais importantes da virada do século 12 para o 13 e o astrólogo oficial de Frederico 2o, imperador do Sacro Império Romano-Germânico, que governava a partir da Sicília.

Nascido em algum lugar da divisa entre as atuais Escócia e Inglaterra, ele dominava os idiomas latim, grego, árabe e hebraico. Traduziu estudos de matemática árabes ao mesmo tempo em que escreveu livros como De Chiromantia, um tratado que ensina fazer a leitura das mãos. Depois de sua morte, em 1232, as lendas sobre Scott se multiplicaram. Durante uma epidemia em Glenluce, na Escócia, ele teria dominado a doença e a prendido em um cofre. Também teria rompido as colinas de Eildon, que hoje formam um conjunto de três morros.

Nunca foi perseguido pela Igreja. E isso apesar de seu principal patrono, o rei Frederico 2º, ter cometido a façanha de ser excomungado duas vezes. Scott chegou a prestar consultoria para o papa Gregório 9º, que em duas ocasiões lhe ofereceu, sem sucesso, o cargo de arcebispo (ele havia sido ordenado padre na juventude).

Inimigos públicos número 1

As autoridades eclesiásticas estavam muito mais preocupadas com doutrina, com interpretações cristãs concorrentes. Feitiçaria, que nada dizia sobre teologia nem defendia a existência de deuses, não era uma delas. O foco estava nas heresias. Havia muitos grupos tidos como heréticos, que defendiam teses que batiam de frente com os dogmas estabelecidos ao longo de árduos debates entre os séculos 1 e 4. Os mais famosos foram os cátaros.

Em seu auge, durante o século 13, os cátaros representaram muito mais do que um grupo que apenas desafiava dogmas religiosos. Instalados no Languedoc, no sul da França, uma região especialmente próspera para os padrões medievais, eles ameaçaram criar uma nova tradição cristã a partir de um território que vinha se tornando independente das orientações vindas dos papas. Para eles, não havia Santíssima Trindade nem eram válidos os sacramentos, incluindo o batismo e a eucaristia, que eles substituíram por uma modesta partilha de pão entre os membros da comunidade. Mas, mais importante: os cátaros não reconheciam a autoridade de religiosos enviados pelo Vaticano.

Tortura de acusada de bruxaria, gravura de 1870. Universal History Archive/Getty Images

A retaliação seguiu o padrão adotado ao longo de toda a Idade Média: a Igreja julgava, mas, oficialmente, não matava. Os inquisidores entregavam os condenados ao poder secular local, que sujava as mãos de sangue. “Ao longo de 201 dias entre primeiro de maio de 1245 e primeiro de agosto de 1246, mais de cinco mil moradores do Languedoc foram questionados em Toulouse a respeito da heresia”, relata Mark Gregory Pegg em The Corruption of Angels: The Great Inquisition of 1245-1246 (“A Corrupção dos Anjos: A Grande Inquisição de 1245-1246″).

“Nobres e adivinhos, açougueiros e monges, concubinas e médicos, ferreiros e meninas grávidas – em resumo, todos os homens de mais de 14 anos e mulheres acima de 12 – foram levados diante dos inquisidores dominicanos Bernart de Caux e Jean de Saint-Pierre.” Nem todos foram queimados: alguns acabaram afogados em barris. Ao longo de décadas de ações para eliminar os cátaros, a Igreja formou verdadeiras cruzadas, que cercavam as vilas onde os fiéis à mensagem cátara se escondiam.

Na Alemanha, um grupo derivado dos cátaros deu origem a uma seita realmente satanista. Eles se apoiavam num dogma desenvolvido pelos rebeldes franceses, para quem o mundo era formado por dois reinos, um deles invisível e dominado pelo bem e o outro material e controlado pelo Diabo – o que significa que a vida na terra era essencialmente má. Daí a transformar Satã no verdadeiro dono da existência, que deveria ser adorado e agradado, foi um passo. Os Luciferianos, como se chamavam, foram massacrados.

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O grande choque, que acabaria por mudar as percepções sobre feiticeiros, seria o julgamento dos Cavaleiros Templários. A ordem, fundada após a Primeira Cruzada para defender o Templo de Jerusalém, expulsa de lá por Saladino em 1187, havia se tornado uma megacorporação continental, atuando como banco. E isso levou à sua queda: o rei francês Filipe 4º devia muito dinheiro a eles. Em 1307, ordenou a prisão de todos os templários, e pressionou o papa, Clemente 5º, a destruí-los. Isso foi feito com uma encíclica, em 22 de novembro de 1307, ordenando a todos os reis prenderem e tomarem as posses dos templários.

O julgamento que se seguiu seria um escândalo continental: os templários confessariam, sob tortura, terem rituais homossexuais e seguirem a um demônio em forma de bode chamado Bafomet. Foram queimados. Em 1309, algo talvez ainda pior: o papa Clemente, por pressão do rei, fez um julgamento póstumo de seu antecessor e inimigo figadal do monarca, Bonifácio 8º. Conclusão: a Igreja já fora governada por um sodomita que fizera pacto com o Diabo.

O pânico satanista estava lançado. Mas não impediu, ao menos inicialmente, feiticeiros de continuar a andar por uma fronteira perigosa. Circulavam entre eles textos satânicos atribuídos a ninguém menos que outro papa: Honório. Ao menos é o que indicam duas obras atribuídas a esse nome, o Livro das Sombras de Honório e o Grimório do Papa Honório. Existiram quatro papas Honórios, que governaram o Vaticano em diferentes momentos nos séculos 7, 12 e 13, e é difícil especificar qual deles teria sido o autor – provavelmente nenhum e foi só uma forma de dar autoridade ao texto. Mas o fato é que ambas as obras são manuais de magia, que ensinam a conjurar e aprisionar demônios, para que eles façam as vontades da pessoa que os capturou. Também explicam as características de diferentes seguidores de Lúcifer e descrevem rituais de sacrifício animal capazes de acordar os mortos.

Caça às bruxas na Holanda protestante, em 1607. Divulgação/Reprodução

New Age medieval

A heresia continuava. No século 12 e na Itália, Joaquim de Fiore havia traçado previsões apocalípticas. Para ele, a história se dividia em três períodos: a Era do Pai, que cobriria todo o período do Antigo Testamento bíblico, seguida pela Era do Filho, caracterizada por tudo o que havia acontecido desde o nascimento de Jesus. Estava para começar então a Era do Espírito Santo, um período de grande paz e tranquilidade.

Fiore se tornou tão popular que, quando atravessava a Europa a caminho da Terceira Cruzada, em 1189, o rei Ricardo Coração de Leão se consultou com ele, em busca de previsões e profecias. Nunca foi condenado, ainda que suas ideias fossem contestadas, em vida e depois de sua morte, por teólogos do porte de Tomás de Aquino. Mas Fiore deixou seguidores, que fundaram diferentes movimentos, como os amalcirianos, os dulcinianos e os Irmãos do Livre Espírito (esses últimos defendiam que a Era do Espírito Santo seria marcada por um período de busca da ascese mística por meio do sexo). Todos esses grupos foram condenados como heréticos pela Igreja Católica e seus líderes, excomungados, presos ou executados – o pregador andarilho Nicolau de Basel, por exemplo, acabou na fogueira, em 1395.

Quanto às bruxas… até o fim da Idade Média, não existiam. Ou pelo menos essa era a posição oficial da Igreja, independente do que o povo pensasse. Bruxas seriam crendices populares. Desde o século 5 os principais pensadores cristãos já afirmavam que acreditar em bruxa era um tipo de heresia. Isto é, quem insistisse demais em bruxas é que podia acabar complicado. Bruxaria era um problema para os teólogos porque seria atribuir a um ser humano poderes que pertenciam apenas a Deus. Daí os feiticeiros aceitos só “manipularem” forças, e jamais fazerem algo que partisse deles próprios, de seu próprio “poder”.

O que importava eram as consequências da magia, não a magia em si. Se eventualmente o trabalho desse errado e alguém morresse envenenado no processo, o mago ou bruxa podiam ser julgados por assassinato, e a pessoa que contratou até poderia ter que responder por heresia. Magia negra, supostos feitiços agressivos, também podiam render condenação. Mas a Inquisição não dava muita atenção para vovozinhas folclóricas – elas simplesmente não eram consideradas uma ameaça.

Maçons simulam templários adorando Bafomet, gravura de 1887. Leemage/Getty Images

Isso começou a mudar à medida que a Idade Média se aproximava do fim. A queda dos cátaros e dos templários trouxe à tona a ideia de que seria possível fazer pactos com o demônio, e que o poder partiria não do feiticeiro, o que seria heresia, mas dessas forças malignas, que imitavam de forma perversa o poder de Deus. A dificuldade encontrada pelas lideranças civis, especialmente na França, para eliminar a heresia cátara deixou claro que estava surgindo um inimigo poderoso, capaz de desafiar os mais consagrados dogmas cristãos.

E é por isso que, depois de séculos atuando com relativa tranquilidade, até mesmo dentro de mosteiros, de repente as bruxas e feiticeiros se tornaram alvo de uma ampla perseguição. Progressivamente, eles passaram a ser acusados de realizar rituais cada vez mais absurdos, que envolveriam refeições à base de corpos de recém-nascidos e orgias com demônios. Em 1428, no cantão suíço de Valais, foi realizada uma primeira série de julgamentos de bruxaria. Para cada pessoa detida, novos nomes eram arrancados à força. Centenas morreram na fogueira ou sob tortura.

Para cada suposta bruxa que confessava ter o poder de voar, ou de matar o gado e eliminar as plantações, ou de fornicar com o demônio, a paranoia crescia, e os tribunais em busca de atividades de bruxaria se multiplicavam. Foi nesse clima que surgiu o best-seller Malleus Maleficarum (“O Martelo das Feiticeiras”), escrito em 1486 pelo dominicano Heinrich Kramer. Apesar de renegado pelos católicos, os protestantes adotaram o livro e tiveram sua febre de caça às bruxas entre os séculos 16 e 17.

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