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As 638 vezes em que a CIA tentou matar Fidel

Teve charuto explosivo, cápsula de veneno, sapato radioativo, fungo letal, spray alucinógeno...

Notório fumante, Fidel acende um charuto, que explode em sua cara. O plano é quase cômico – e real: o artefato até foi fabricado, mas nunca chegou perto do comandante. Fidel também gostava de mergulhar e praticar caça submarina. O hobby inspirou mais dois planos. Um era simples: contaminar uma roupa de mergulhador com um fungo letal. O outro envolvia criar um molusco falso, enchê-lo de explosivos e colocá-lo à vista num recife de coral. Essas e outras histórias foram contadas no livro 638 Ways to Kill Castro (não publicado no Brasil), de Fabián Escalante, que era responsável pelo serviço de contrainformação cubano e pela segurança pessoal do ditador. Todos esses planos foram arquitetados pela CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos. Como um assassinato convencional traria mais chances de o complô ser revelado, a CIA precisou desenvolver ideias mirabolantes que mantivessem o suposto distanciamento dos EUA.

 (Warren K. Leffler/Domínio Público)

Até atentados de efeito moral passaram pela cabeça dos agentes americanos. Contaminar os sapatos de Fidel com tálio, elemento químico altamente radioativo, faria cair os pelos da barba, minando a autoconfiança do líder cubano. Ou então espalhar um spray alucinógeno no estúdio de TV onde ele faria um pronunciamento à nação. Mas nada disso foi levado adiante.

Entre as tentativas de assassinato que ocorreram de fato, um dos casos mais famosos é o de uma antiga amante de Fidel contratada pela CIA. Ela deveria dar um jeito de fazê-lo engolir uma cápsula de veneno. Mas as pílulas que a mulher levava na bolsa derreteram, escondidas num pote de creme para o rosto. A última tentativa de matar Fidel ocorreu em 2000, em uma visita ao Panamá. Seus seguranças encontraram cerca de 90 kg de explosivos sob o palanque onde ele faria um discurso.

Uma das explicações para tantos planos de atentado é a longa permanência de Fidel no poder: 49 anos, de 1959 a 2008, quando seu irmão Raúl assumiu o governo oficialmente. As conspirações começaram logo após a revolução. Em 1961, o presidente americano, John Kennedy, demonstrou grande interesse nos planos da CIA para matar Fidel. Em março daquele ano, Richard Bissell, diretor de Operações Encobertas da agência, apresentou-lhe a ideia de invadir Cuba pela baía dos Porcos. Em abril, uma brigada de 1,4 mil exilados cubanos desembarcou na ilha. Novo fracasso.

Em novembro de 1961, Kennedy criou um comitê denominado Grupo Especial Ampliado e entregou a chefia ao irmão, Robert. Na prática, a missão era uma só: eliminar Fidel. “A CIA estava tão ocupada conduzindo aquelas ações que errou ao ver em Cuba uma ameaça crescente à segurança dos Estados Unidos”, escreveu o jornalista americano Tim Weiner em Legado de Cinzas: Uma História da CIA.

Máfia na jogada

Determinada a eliminar Fidel Castro, a agência se associou até à máfia. Em 1962, o gângster John Rosselli recebeu em Miami cápsulas com uma bactéria assassina. Elas deveriam ser dissolvidas no café ou no lenço do comandante. Só que o plano, para variar, não deu certo. No ano seguinte, a agência decidiu recrutar um ex-revolucionário para dar cabo do líder cubano. Rolando Cubela havia lutado ao lado de Fidel em Sierra Maestra e, àquela altura, ocupava um cargo no governo. Os agentes prometeram-lhe a arma que ele quisesse. Cubela escolheu um rifle com mira telescópica. Só que ele jamais receberia a encomenda.

Em 22 novembro de 1963, antes de o atentado ser consumado, Kennedy foi assassinado. Seu sucessor, Lyndon Johnson, não sabia dos planos da CIA. “Poucos sabiam”, segundo Weiner. Em 1967, o FBI, a polícia federal americana, entregou a Johnson um relatório que confirmava: a CIA planejou várias vezes a morte de Fidel e chegou a contratar a máfia para isso. O presidente teria comentado: “Kennedy queria pegar Castro, mas Castro pegou Kennedy primeiro”.