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Casos de superação: o cerco de 872 dias

Há 70 anos, os habitantes de Leningrado descobriram como sobreviver e superar o mais fatal cerco da história, que matou de fome quase 1 milhão de pessoas

Texto: Marina Darmaros

Era verão de 1941. Depois da incursão pelas Repúblicas Bálticas Soviéticas, o exército nazista se aproximava. Em 4 de julho, já estava na cidade de Pskov, apenas 280 quilômetros a sudoeste de Leningrado – o nome que recebeu São Petersburgo depois da Revolução de 1917 para apagar um indício de influência germânica na então capital da Rússia czarista.

Como muitos dos episódios envolvendo a União Soviética na 2a Guerra, o cerco a Leningrado ficou mais marcado pelas mortes do que pela genialidade de suas estratégias. Nesse caso, a ideia foi erguer 175 quilômetros de edificações em volta da cidade pelas mãos de quase meio milhão de civis – principalmente mulheres e adolescentes, trabalhando dia e noite na obra, já que os homens estavam em batalha.

Quando os nazistas ocuparam a cidade de Shlisselburg, que dava acesso terrestre a Leningrado, iniciou-se um dos períodos de privação mais duros da história. A cidade, que tinha pouco mais de 3 milhões de habitantes em janeiro daquele ano, ficou cercada de 8 de setembro de 1941 a 27 de janeiro de 1944. Nessa estratégia, os alemães esperavam que Leningrado se desgastasse de fome antes de ocupá-la.

“Já tinha havido então dois ciclos grandes de fome na história da URSS: na guerra civil (1918-1921) e nos anos 30, quando começou a coletivização agrária. Por isso, a fome na cidade não era uma coisa completamente nova”, explica o historiador brasileiro Yuri Prestes. “Mas o fator mais crítico é que a situação era militar. Você tinha uma arma na mão ou tinha que correr para se salvar de bombardeios aéreos – tudo praticamente sem comer.”

Sobrou apenas uma saída para a cidade – o lago Ládoga. Mas em poucos dias ficou claro que ele não poderia dar conta do abastecimento de Leningrado. Também sob bombardeio, ele só era transitável em determinadas épocas. Durante o verão, era navegável, mas no inverno era necessário esperar até que a camada de gelo formada por suas águas – apropriadamente intitulada Doroga Jízni, ou “Caminho da Vida” – se tornasse espessa o suficiente para suportar o peso de pessoas ou de carros. Muitas vezes, isso não acontecia de maneira uniforme, e alguns veí-culos militares soviéticos eram tragados pelo lago. Dentro da cidade, até que houve pequena produção de hortaliças, mas apenas no verão, por causa do frio do inverno e de boa parte do outono e da primavera. No período, a mínima chegou a 40 ºC negativos.

Restavam os estoques. Mas ainda no início de setembro o Badaiévski Skládi, um dos principais armazéns da cidade, foi destruído durante um bombardeio. Enquanto milhares de produtos eram queimados pelas chamas e um rio de açúcar derretido escorria pelas ruas, a cidade aprendeu duas novas lições: camuflar sua estocagem e armazenar menores quantidades em diferentes locais.

Ninel Slivikina, 87, estudava no 10o ano da escola quando começou o cerco. Ela tinha 16 anos e relembra que costumava cozinhar um caldo negro de louro com cola de marceneiro que lhe provia a antiga proprietária da kommunalka – as grandes casas ou apartamentos que tinham cada cômodo ocupado por uma família durante o comunismo.

“Então as aulas foram suspensas e eu já não sabia o que fazer. Recebia uma ração diária de 125 gramas de pão. Sabe o que é isso? É uma fatia”, conta Ninel. Isso foi em novembro, quando houve um grande corte na cota. Em meses áureos como julho, pouco antes do cerco, a já instituída ração diária chegava aos 400 gramas para a criança com menos de 12 anos ou para o desempregado que apresentasse os cartões distribuídos para estabelecer o direito de cada um a seu quinhão.

Quem mais sofreu foi a população civil, porque o exército e os servidores públicos, mal ou bem, recebiam quotas de comida maiores. “Um dia, fui com minha amiga Lisa até o hospital onde minha mãe trabalhava, que era muito longe, do outro lado da cidade. Mas antes de chegar lá Lisa se sentiu mal e parou no caminho. Eu prossegui, mas quando estava chegando perto, desmaiei”, conta à SUPER Ninel, que não saiu da cidade até o final da guerra. “O pessoal do hospital me levou e me pôs para trabalhar lá. Foi assim que eu sobrevivi ao cerco. No hospital eu recebia pão e sopa de manhã e à noite. Não era muito, mas foi o suficiente.

A partir de 20 de novembro de 1941, a redução das cotas, associada à interrupção do transporte público e da limpeza da neve das ruas, tornou ainda mais difícil a sobrevivência. Andar 2 a 3 horas por dia para chegar ao trabalho por ruas entulhadas de neve levava os moradores a gastar mais calorias do que eles realmente podiam. Era comum então uma pessoa desmaiar e morrer em seguida, bem no meio da rua.

Nessas alturas, para fazer o pão render e economizar farinha, misturava-se de tudo à massa, desde malte e aveia até cascas e celulose. Quase metade do pão era uma massa intragável.

“Aí tem história de tudo: de gente que roubava e que tinha uma certa reserva, gente que guardava comida, que comia couro de sofá cozido, que arrancava casca de árvore… Desde essas coisas mais absurdas até comer cão, gato, rato”, diz Prestes. “Também teve bastante canibalismo. Desconheço histórias de matar para comer, mas de cadáveres de pessoas já mortas que eram usados na alimentação, isso teve bastante”, completa. Segundo dados não oficiais, mais de mil pessoas teriam sido condenadas pela prática só nos dois primeiros meses de 1942.

“De qualquer maneira, chegou a haver grupos de pessoas endinheiradas que conseguiam alimentos por outros modos. Tinha gente no hospital que roubava e depois revendia a preços muito altos pão e cereais”, afirma Ninel.

A eletricidade durante o período todo foi cortada, e só era fornecida praticamente às poucas fábricas que ainda funcionavam normalmente e à linha de trem que ligava a margem do lago Ládoga à estação de trem Finlândia.

“Não tinha energia, e isso era até bom porque dificultava os bombardeios noturnos. Todo mundo vivia com aquelas lamparinas de querosene, e o combustível era uma das coisas que mais armazenavam”, diz Prestes.

Para o aquecimento, os minifornos presentes em todo apartamento estavam queimando de tudo: desde livros a pernas de cadeiras ou até pedaços das próprias casas de madeira que eram sacrificados para virar calor.

O inverno entre 1941 e 1942 foi rigoroso. Os cadáveres de mortos de fome e frio, que no início do cerco eram recolhidos por um serviço funerário especialmente criado para isso, agora entulhavam as ruas sem parecer atrapalhar a população. Não exalavam cheiro, nem eram potenciais incubadores de doenças, já que o frio extremo os preservava da putrefação.

“Todas as vezes que eu ia para casa via gente sendo levada no trenó, gente morta, morta de fome. Na minha kommunalka umas 8 pessoas morreram de fome”, relembra Ninel.

O congelamento dos canos no mês de dezembro também dificultava o envio de água potável, que era difícil de ser transportada, racionada ou manuseada. Além disso, milhares de bombas incendiárias foram lançadas pelos alemães para gerar grandes incêndios na cidade. Como o inimigo parecia preferir locais específicos, era comum ver, em alguns pontos da cidade, placas onde se liam os dizeres: “Cidadão, em caso de bombardeio, este lado da rua é mais perigoso!” Algumas delas foram mantidas até os dias de hoje como memória desses tempos.

No primeiro mês do cerco, também foram instalados cerca de 1,5 mil alto-falantes pelas ruas da cidade para soar os alarmes de ataques aéreos e combates.

“Um dia, enquanto ainda tínhamos aulas, um menino da minha classe chamado Boris foi comigo passear e me deixou em casa. Ele morava a 5 minutos de mim, mas logo que saiu começou um bombardeio. Quando soaram os avisos de fim do ataque aéreo, eu fui ver se ele estava bem, mas havia se formado um vazio na rua. Ele tinha sido atingido, junto com toda a família. Dessas coisas não se esquece. Passam-se os anos e parece que as pessoas [que não viveram o cerco] esquecem um pouco, só se lembram quando há paradas, datas comemorativas”, relembra Ninel.

O número de mortos durante o cerco é incerto. Só no cemitério Pskariov – onde até hoje depositam-se sobre os túmulos não flores, mas pedacinhos de pão -, contam-se cerca de 600 mil.

“Mas o estado de emergência funcionou bem, tão bem quanto era possível. Foi ele que manteve os suprimentos de comida e de armas, a evacuação de soldados e civis, inclusive de quase todas as crianças, a ordem e o saneamento, e até as atividades industriais das fábricas. Alguns tipos de armamentos foram até exportados de Leningrado durante o cerco”, arremata Yuri Zuenko, 51, sobrinho de Liubov Polishtchuk, 82, uma das pessoas que, diferentemente de Ninel, conseguiu deixar Leningrado antes do final do cerco.

Um dos modos de poupar a vida da população foi a evacuação, que começou já em 29 de junho de 1941. Em 3 ciclos, que duraram até outubro de 1942, foram retiradas da cidade cerca de 1,5 milhão de pessoas – a metade dos habitantes de Leningrado.

“A fome não era tão grande no começo, já que mamãe recebia o vale para a ração no trabalho. Tomar banho, sim, era um problema”, conta Liubov. “Davam-nos vales para usar os chuveiros. Eu já não tinha aulas e a mamãe tinha adoecido no inverno. Quando ela morreu e eu fui à casa de uma vizinha lhe dizer, ela me mandou embora. Os vizinhos não falavam comigo, pois não queriam se responsabilizar por uma órfã, e eu andava sozinha e faminta pelas ruas.”

Aos 13 anos de idade, quando morreu a mãe, Liubov caminhou por mais de um dia em busca do orfanato cujo endereço lhe deixaram, parando para dormir sobre o fogão ainda morno de um refeitório. Viveu por dois meses no orfanato, um pouco mais bem alimentada e cuidando das hortaliças, até que foi levada de ônibus com as outras crianças ao Ládoga e, de lá, evacuada numa lancha. Outra embarcação que fazia o mesmo percurso foi bombardeada. A sua, porém, foi bem-sucedida e as crianças sobreviventes foram enviadas para a Sibéria.

“Lá eles disseram: ‘a primeira coisa que notamos em vocês foram seus olhos tão grandes!'”, lembra. Mas não eram os olhos grandes, e sim os rostos demasiadamente magros. Em alguns destinos, os médicos levaram certo tempo para entender como cuidar daqueles desnutridos que chegavam. Doentes morriam depois de um grande prato de comida simplesmente porque tudo aquilo era pesado demais para um ser inane digerir.

“Todos que puderam deixar Leningrado fugiram. Mas, a partir de certo momento do cerco, ainda que se quisesse muito fugir, já não era mais possível”, conta Ninel Slivikina. Como a maioria dos evacuados era de crianças, o fim do cerco resultou na volta de 175 mil delas – muitas das quais tinham deixado a família em Leningrado e retornaram à cidade órfãs.

Liubov, por exemplo, teve que fugir do orfanato onde estava para voltar a Leningrado em 1945, quando a guerra terminou. Retornou à sua kommunalka, mas sequer lhe abriram a porta. No mesmo dia conseguiu um trabalho como professora e alojamento. Lecionou por 50 anos.

“Eu tenho a impressão, baseado nessa e em outras histórias, de que nem tantas pessoas mostraram uma coragem pesssoal, heroísmo ou nobreza nessas circunstâncias tão difíceis. Muitas delas simplesmente tentaram sobreviver. Pelo contrário, ouvi dezenas de histórias de ações realmente selvagens, horríveis e vergonhosas tomadas por pessoas durante o cerco a Leningrado”, diz o sobrinho de Liubov, Yuri Zuenko.

Mas, apesar das ações horrendas de gente como os vizinhos de Liubov – que viraram as costas para a menina duas vezes para não se verem responsáveis por ela -, a bravura da órfã e de outros tantos que não se deixaram abalar por toda a desgraça da fome, da escassez e da guerra levou-os a resistir até se restabelecerem. Uma dessas bravas foi Ninel Slivikina.

Quando o cerco se enfraqueceu, ela concluía seus estudos em um instituto de pedagogia e recebeu uma proposta de trabalho na área. Mas sem o diploma de ensino médio, nada feito.

Começou então uma saga em busca de 3 professores que, além ter sobrevivido, se dispusessem a assinar um boletim do último ano com notas que não havia tirado porque a escola estava fechada durante a maior parte do cerco. Conseguiu as assinaturas e tornou-se professora. Por fim, ela emigrou para Chicago para começar uma nova vida. “Dos que sobreviveram comigo ao cerco não há mais ninguém. Eu vivi mais que todos, não sei por quê, de onde vem essa missão. Hoje, quase não há quem tenha sobrevivido a todo o cerco”, diz Ninel.

Sua história, a de Liubov e a dos demais sobreviventes do cerco lembram o romance Hadji Murat, em que o escritor Lev Tolstói compara o guerreiro protagonista ao cardo, uma plantinha que, mesmo pisoteada, resiste e sobrevive. Assim foi o enfrentamento dos que subsistiram e reconstruíram Leningrado. Como centenas de milhares de cardos.