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Charlotte Corday:a dama e o facão

Charlotte Corday era uma simples jovem aristocrática, até matar afacadas o maior líder da França.

Clarissa Passos-Garcia

A jovem francesa Marie Anne Charlotte Corday D’Armont levava uma vida tranqüila para os padrões do século 18. Era de uma família aristocrática meio falida e foi educada em um convento. Provavelmente casaria e cuidaria da casa e dos filhos até o fim da vida. Isso se ela não houvesse decidido, aos 24 anos, viajar a Paris com uma missão: assassinar Jean-Paul Marat, um dos principais líderes da Revolução Francesa.

A revolução havia começado em 1789, submetendo o rei Luís 14 a uma assembléia de membros do povo. Marat era um dos jacobinos, facção radical disposta a acabar de vez com a nobreza. Em oposição a eles estavam os girondinos, moderados que preferiam uma solução conciliadora entre monarcas e revolucionários. A disputa entre as duas facções se acirrou em 1793: Luís 14 foi decapitado e os jacobinos expulsaram os girondinos da assembléia. Marat, um jornalista que havia anos pedia a cabeça de qualquer crítico dos jacobinos, foi alçado a um dos principais líderes do país e inaugurou uma época de milhares de decapitações.

Charlotte, nobre, mas aberta aos ideais da revolução, achou que matar Marat seria um serviço à França. Em 9 de julho de 1793, foi a Paris, comprou uma faca de cozinha e pôs-se a arranjar um encontro com o jornalista, famoso por receber pessoas dispostas a delatar suspeitos. Quatro dias depois, já na 3a tentativa, conseguiu. Marat, doente, recebeu-a na banheira, enrolado em toalhas. Charlotte citou nomes e ele garantiu que guilhotinaria todos no dia seguinte. Foi quando ela puxou a faca e desferiu o golpe fatal, no peito do jornalista.

Foi capturada ainda no banheiro. Confessou o crime e declarou não se arrepender. Foi condenada à morte e executada 4 dias depois. Pediu desculpas ao seu pai por ter disposto da própria vida sem consultá-lo. Permaneceu calma até ao encarar a guilhotina: dispensou o carrasco e posicionou-se sozinha debaixo da lâmina.

Pena que seu planos não deram tão certo: Marat virou mártir, recebeu um glorioso sepultamento e virou nome de 21 cidades francesas. Charlotte foi considerada uma traidora e só teve a imagem resgatada 50 anos depois, quando o fim da histeria e do ritmo frenético das lâminas da guilhotina deram lugar a uma análise mais fria dos anos da revolução.

Grandes momentos

• Durante o assassinato, Corday carregava uma carta, onde explicava seus propósitos, e sua certidão de nascimento. Ela estava certa de que sequer sairia viva da casa de Marat: seria linchada pela multidão.

• Como último desejo, pediu que pintassem um retrato seu – a obra, assinada pelo francês Jean-Jacques Hauer, está hoje no Museu de Versalhes.

• Às vésperas da execução, escreveu uma carta em que se queixava do povo francês: “Há tão poucos patriotas que sabem como morrer por seu país. Tudo é egoísmo. Que gente mais infeliz para fundar uma república”.